CAPÍTULO 04 - A CONDIÇÃO

A carta permaneceu sobre a mesa da sala durante vários minutos, ninguém teve coragem de guardá-la.

Era como se aquelas palavras ainda ocupassem o ambiente, fazendo todos reviverem lembranças que pareciam distantes demais para voltar.

Aurora caminhou lentamente até a varanda. A vista da cidade era linda, mas sua mente estava em outro lugar. Ela nunca conheceu Augusto Ferraresi.

Para ela, ele sempre foi apenas o homem das fotografias antigas, dos porta-retratos espalhados pela casa e das histórias que Gustavo contava em alguns aniversários de família. Agora, pela primeira vez, sentia que havia conhecido um pedaço dele.

— Está tudo bem? — Maytê aproximou-se dela.

— Eu achei que seria apenas uma carta de aniversário. — sorriu de leve.

— Eu também.

— Mas parece que ele já me conhecia, mesmo sem nunca ter me visto.

— Seu avô passou os últimos meses de vida falando de você. Ainda na minha gravidez, ele dizia que tinha esperança de que a próxima geração da família fosse diferente. — disse, acariciando os cabelos da filha.

— Você sentia raiva dele? — perguntou, olhando para a mãe.

— No começo, talvez um pouco. Não pelo que ele fez comigo, porque nunca me machucou diretamente. Mas pelo sofrimento que causou ao seu pai. — pausou, pensativa — Depois percebi que ele estava tentando consertar o que ainda podia. Algumas pessoas mudam cedo. Outras, tarde. Augusto mudou quando ainda havia tempo para pedir perdão.

Aurora permaneceu em silêncio.

Do outro lado da sala, Gustavo conversava discretamente com Henrique.

— Você realmente não sabe o que existe nessa jornada? — perguntou.

— Augusto não me contou. — balançou a cabeça — Apenas organizou tudo com muita antecedência.

Ele retirou um pequeno envelope da pasta.

Era menor que o primeiro, também estava lacrado e na frente havia apenas uma frase.

"Entregar somente se Aurora aceitar continuar."

— Então essa é a condição... — Gustavo respirou fundo.

— Exatamente.

Maytê e Aurora voltaram para a sala.

Henrique colocou o envelope sobre a mesa.

— Augusto foi muito claro comigo. Este segundo envelope só pode ser entregue se Aurora decidir seguir a jornada por vontade própria.

— E se eu disser não? perguntou, olhando para ele.

— Nada acontece.

— Como assim?

— A carta permanece sendo apenas uma despedida. A caixa ficará guardada para sempre, os documentos nunca serão abertos e a missão termina aqui.

O silêncio voltou a dominar a sala.

— Então existem documentos? — perguntou, franzindo a testa.

— Sim. — Henrique confirmou.

— Quantos?

— Não sei.

— Fotografias?

— Talvez.

— Cartas?

— Também não sei. — ele sorriu — Augusto fez questão de que eu conhecesse apenas a minha parte da história.

— Isso é muito a cara dele. — Gustavo passou a mão no rosto.

— Ele dizia que curiosidade também faz parte do aprendizado. — Henrique riu.

Aurora observava o pequeno envelope, era estranho pensar que sua decisão mudaria completamente os próximos dias de sua vida.

Ela tinha planos: a faculdade começaria em poucas semanas, os amigos preparavam uma viagem de comemoração. Havia compromissos, sonhos, projetos. Mas havia também aquela oportunidade única.

Conhecer uma parte da história da própria família que ninguém jamais lhe contara.

Maytê percebeu a dúvida nos olhos da filha.

— Aurora... — ela virou-se — Não se sinta obrigada.

— Mas...

— Se fizer isso, faça porque quer. Não porque seu pai ou eu esperamos alguma coisa.

— Sua mãe tem razão. — Gustavo concordou imediatamente e aproximou-se — Passei muitos anos tentando carregar o peso da nossa família sozinho, nunca quis que você herdasse isso.

Aurora segurou a mão do pai.

— Eu não estou herdando um peso. — sorriu, segurando a mão do pai — Estou herdando uma história.

Gustavo não conseguiu esconder o orgulho e Henrique então retirou uma última folha da pasta.

— Existe apenas uma exigência feita por Augusto. — todos prestaram atenção e ele começou a ler — "Aurora deverá percorrer cada etapa acompanhada de Gustavo Ferraresi, as respostas pertencem aos dois. Um precisa conhecer o passado. O outro precisa aprender a deixá-lo partir."

Gustavo fechou os olhos por um instante.

Até depois de morto, Augusto continuava encontrando formas de ensinar.

— Você vai comigo? — ela olhou para o pai.

— Até o último passo. — ele sorriu.

Ela não pensou por mais tempo e olhou para Henrique.

— Eu aceito.

O advogado assentiu e pela primeira vez desde que chegara, abriu um sorriso tranquilo.

Empurrou lentamente o segundo envelope em direção a Aurora.

— Então, oficialmente, a jornada começou.

Aurora segurou o envelope com firmeza e sem perceber, Gustavo olhou para uma fotografia antiga sobre a estante.

Nela, Augusto aparecia sorrindo ao lado dele muitos anos antes.

Pela primeira vez desde sua morte, Gustavo teve a sensação de que o pai havia conseguido exatamente o que desejava.

Unir novamente a família e, em algum lugar do passado, deixar preparado o caminho que agora conduziria pai e filha rumo ao verdadeiro legado dos Ferraresi.

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