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LIVRO 3 — O LEGADO FERRARESI
LIVRO 3 — O LEGADO FERRARESI
Por: arianecfliborio
CAPÍTULO 01 - DEZOITO ANOS DEPOIS

O cheiro de café fresco se espalhava pela cobertura dos Ferraresi antes mesmo de o sol aparecer por completo no horizonte. A cidade ainda despertava, mas dentro daquela casa o dia já tinha começado.

Maytê caminhava pela cozinha sorrindo enquanto conferia os últimos detalhes do café da manhã. Sobre a bancada havia frutas, pães, bolos e uma pequena torta decorada com flores delicadas. Nada exagerado. Aurora nunca gostou de grandes festas logo cedo.

— Ela ainda está dormindo? — perguntou Gustavo, entrando na cozinha com a gravata desfeita e uma caneca de café nas mãos.

— Hoje eu deixei. Afinal, não é todo dia que se faz dezoito anos. — respondeu, sorridente.

— Parece que foi ontem que eu estava montando o berço dela. — disse, olhando para o relógio e riu.

— Você passou duas noites sem dormir porque achava que o parafuso estava torto. — Maytê aproximou-se e segurou sua mão.

— Estava protegendo minha filha. — ele fez uma careta.

— Você continua protegendo.

— Sempre vou proteger.

— Eu sei, mas ela cresceu. — disse Maytê, acariciando seu rosto.

Essas palavras ficaram ecoando na cabeça de Gustavo. Cresceu. Era difícil acreditar.

Ainda conseguia enxergar a menina de cabelos bagunçados correndo pelos corredores da empresa para surpreendê-lo depois da escola, a mesma garotinha que insistia em usar seus ternos enormes como fantasia, a criança que adormecia em seu colo durante os filmes. Agora era uma mulher.

Os pensamentos foram interrompidos quando passos apressados ecoaram pela escada. Aurora apareceu usando um conjunto confortável, os cabelos castanhos presos de qualquer jeito e o mesmo sorriso iluminado da mãe.

— Bom dia!

— Feliz aniversário, meu amor! — Maytê abriu os braços.

Aurora abraçou a mãe demoradamente.

— Obrigada. — abraçou a mãe demoradamente e depois caminhou até o pai — Cadê meu abraço?

— Achei que, depois dos dezoito, pai não ganhava mais abraço. — ele abriu um sorriso.

— Nunca. — riu.

Aurora pulou em seus braços exatamente como fazia quando era criança. Ele a segurou firme por alguns segundos e sem perceber, fechou os olhos.

Era impossível não lembrar da promessa que fizera de protegê-la desde o instante em que a viu pela primeira vez na maternidade, ela se afastou, sorrindo.

— Pai... está emocionado?

— Claro que não.

— Está quase chorando. — Maytê cruzou os braços.

— Poeira no olho.

As duas riram ao mesmo tempo e aquele som era, para Gustavo, a prova de que tudo havia valido a pena. Anos atrás, jamais imaginaria viver uma manhã como aquela. Durante muito tempo acreditou que estava condenado a repetir os erros da própria família, mas Maytê mudou sua vida e Aurora deu um novo sentido a ela.

Enquanto tomavam café, lembraram histórias da infância.

Maytê contou sobre a vez em que Aurora tentou cortar o próprio cabelo escondida.

Gustavo relembrou quando ela convenceu toda a segurança da empresa a participar de uma caça ao tesouro improvisada. Aurora ria sem parar.

— Vocês adoram me envergonhar.

— Faz parte do trabalho dos pais. — respondeu Gustavo.

O celular de Aurora começou a vibrar sem parar: mensagens, vídeos, parabéns de amigos, primos, colegas da faculdade. Ela agradecia um por um. Maytê observava a cena em silêncio.

A menina tímida havia se tornado uma jovem segura, inteligente e generosa. Tinha o coração da mãe e a determinação do pai, uma combinação que enchia os dois de orgulho.

Depois do café, seguiram para a sala e sobre a mesa havia alguns presentes. Nada extravagante. Livros, uma câmera fotográfica, um relógio antigo restaurado por Gustavo.

— Esse era do meu avô? — perguntou Aurora.

— Foi um presente que Augusto me deu muitos anos atrás. Achei que tinha chegado a hora de passar para você. — ele assentiu.

— Vou guardar para sempre. — ela segurou o relógio com cuidado, Gustavo sorriu discretamente.

Naquele instante, o interfone tocou. A governanta atendeu e poucos segundos depois apareceu na sala.

— Senhor Gustavo, o doutor Henrique chegou.

Gustavo franziu a testa, Henrique ainda era o advogado da família, mas não haviam marcado nenhuma reunião.

— Hoje?

— Disse que precisa falar com todos.

Maytê trocou um olhar curioso com o marido.

— Estranho...

Henrique entrou carregando uma pasta de couro escura. Cumprimentou a família com cordialidade, mas havia algo diferente em sua expressão. Parecia emocionado.

— Antes de qualquer coisa... feliz aniversário, Aurora.

— Obrigada, tio. — sorriu.

O advogado respirou fundo.

— Esperei dezoito anos por este momento.

O ambiente ficou em silêncio e Henrique abriu cuidadosamente a pasta, retirando um envelope grosso, já amarelado pelo tempo.

No verso havia apenas uma frase escrita à mão.

"Entregar somente quando Aurora Ferraresi completar dezoito anos."

Aurora olhou para os pais, Maytê levou a mão à boca e Gustavo empalideceu imediatamente. Reconhecia perfeitamente aquela caligrafia, fazia muitos anos que não a via. Mesmo assim, jamais conseguiria esquecê-la.

— Não pode ser... — murmurou.

— Pode, Gustavo. — Henrique assentiu — Este envelope foi deixado por Augusto poucos dias antes de sua morte. Ele me fez prometer que somente sua neta poderia abri-lo... exatamente hoje.

O silêncio tomou conta da sala.

Aurora segurava o envelope sem imaginar que, naquele instante, sua vida estava prestes a mudar para sempre.

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