CAPÍTULO 02

EDILENA NARRANDO:

Quando Dmitri entrou na sala naquela noite e anunciou, com toda a pompa, que eu estava "noiva" do senhor Isaac, algo dentro de mim quebrou. Ele se sentou à cabeceira da mesa, como sempre fazia, enquanto meus irmãos e minha mãe estavam em silêncio, esperando que a sentença saísse de sua boca.

— Você deveria se sentir honrada, Edilena,— ele começou, servindo-se de vodka como se estivesse me oferecendo um presente. — Isaac é um homem influente, respeitado e rico. Isso é exatamente o que nossa família precisa agora.

Precisa?

Talvez ele precisasse, mas eu, definitivamente, não. A ideia de me casar com Isaac – um homem três vezes mais velho, com hálito de charuto e mãos que pareciam sempre procurar uma desculpa para tocar onde não deviam – me enchia de repulsa.

Eu queria gritar, argumentar, implorar. Mas nada disso funcionaria com Dmitri. Qualquer ato de rebeldia só traria humilhação ou, pior, violência. Lembrei das vezes em que discordei de nosso pai. As lembranças ainda estavam marcadas na minha pele e, mais profundamente, na minha alma.

Dmitri aprendeu bem com ele.

— Claro, irmão, — foi tudo que consegui murmurar, enquanto minha mente já começava a traçar um plano.

Quando terminamos a conversa, corri para o quarto e tranquei a porta. A sensação de sufocamento era esmagadora. Estava claro que Dmitri não se importava com o que eu queria. Ele estava disposto a me vender como um pedaço de carne para resolver os problemas financeiros da família.

Mas não ia acontecer. Não comigo. Se Dmitri achava que eu ia aceitar esse destino sem lutar, estava muito enganado.

Passei a noite acordada, pensando. Ficar e enfrentar Dmitri não era uma opção. Isaac também não era. Eu precisava de uma solução, e rápido. Então, enquanto olhava para o teto, uma ideia ousada surgiu.

Eu não precisava aceitar Isaac. Eu só precisava me casar... com outra pessoa.

Estamos em Las Vegas, afinal. A cidade onde os casamentos acontecem a qualquer hora, em qualquer lugar, com praticamente qualquer pessoa. Era o plano perfeito. Bom, quase perfeito. Eu precisaria da ajuda de alguém em quem confiasse – alguém que soubesse guardar segredos e não hesitasse em me apoiar. Marília.

Na manhã seguinte, esperei até que Dmitri saísse de casa para resolver "negócios". Ele sempre saía cedo, com Denis e Igor, deixando o lugar em um silêncio estranho, quase agradável. Encontrei Marília na cozinha, com um avental sujo de farinha testando uma receita nova.

— Preciso da sua ajuda, Lia — comecei falando baixo, entrando sem rodeios.

Ela me olhou com curiosidade, limpando as mãos em um pano.

— O que houve? Parece que viu um fantasma.

— É quase isso. Dmitri aceitou um pedido de casamento para mim.

— De quem?

— Isaac Romanov.

Marília parou, o rosto imediatamente se contorcendo em repulsa.

— Aquele velho nojento? Lena, você não pode se casar com aquele abutre, tem idade de ser seu bisavô

— Eu sei. Por isso preciso da sua ajuda.

Expliquei meu plano, cada detalhe sobre me casar com outra pessoa. A expressão de Marília mudou de choque para incredulidade, e então para algo que parecia... orgulho?

— Você é mais corajosa do que eu pensava, — ela disse, sorrindo. — E, claro, vou te ajudar. Mas... quem vai ser o noivo?

Essa era a parte complicada. Eu precisava encontrar alguém, qualquer um, disposto a entrar nesse jogo.

Não importava quem fosse, desde que não fosse Isaac.

— Não sei ainda, — admiti. — Mas estamos em Vegas. Alguém vai topar.

Quando Marília finalmente soltou uma risada, senti um pequeno alívio. Pelo menos, ela não achava que eu estava completamente louca.

— Então é melhor irmos procurar logo, — disse ela, tirando o avental manchado de farinha e pendurando-o no suporte da cozinha. — Vou pegar minha bolsa.

— Te encontro no meu carro em dez minutos, — respondi, já me preparando para subir a escada correndo.

Marília assentiu, já se afastando, e eu subi para o meu quarto. Cada passo parecia mais apressado, como se o tempo estivesse correndo contra mim. Fechei a porta atrás de mim, sentindo o silêncio confortável da casa. Minha mãe e minha tia estavam no pilates, isso me poupava de perguntas, olhares julgadores e qualquer tentativa de me convencer a "pensar melhor".

Comecei a me preparar.

Peguei minha bolsa preta e conferi se meus documentos estavam ali. Sim, identidade, passaporte – tudo no lugar. Abri o armário e analisei rapidamente o espelho. Minha saia azul-marinho rodada estava impecável, combinando com a camisa branca que eu já vestia.

Olhei para os meus cabelos molhados, ainda escorrendo um pouco após o banho rápido que tomei. Peguei o secador, mas desisti antes de ligá-lo. Não havia tempo para perfeição. Passei um pouco de maquiagem – só o suficiente para esconder o cansaço e parecer minimamente apresentável – e peguei meu perfume favorito, borrifando-o levemente nos pulsos e atrás das orelhas.

Calcei uma sandália de salto baixo e elegante. Peguei as chaves do meu carro, ajustei os óculos de sol no topo da cabeça e respirei fundo, conferindo a bolsa mais uma vez para garantir que tudo estava lá. Não podia me dar ao luxo de esquecer nada.

Antes de sair, olhei para o quarto. Um misto de emoções me atingiu. Raiva, ansiedade, e uma pontinha de esperança. Fechei a porta atrás de mim, agradecendo por ainda ter o controle de algo: o que estava prestes a fazer.

Desci as escadas até a garagem, o som dos meus saltos ecoando pelo piso frio. Apertei o alarme do meu Mini Cooper vermelho conversível. Era um presente de Dmitri e da mamãe no meu aniversário de vinte anos, e, apesar de ser uma das poucas coisas boas que Dmitri já me deu, era também um lembrete constante de como ele usava presentes para tentar controlar todos ao seu redor.

Abri a porta do carro e sentei no banco de couro preto do motorista. O cheiro do interior, uma mistura de couro e o leve perfume que costumava borrifar antes de dirigir, era familiar e reconfortante. Coloquei minha bolsa no banco de trás, ajustei os óculos de sol na cabeça e liguei o motor. O ronco suave do carro trouxe uma pequena onda de adrenalina.

Peguei meu celular para enviar uma mensagem rápida a Marília:

“Estou na garagem. Vem logo.”

Não demorou muito até que ela aparecesse. Quando vi Marília, não pude deixar de notar como ela parecia pronta para a aventura, mas com aquele toque de elegância natural que sempre a acompanhava. Ela usava um vestido azul-claro, curto, mas nada vulgar, estampado com pequenas flores que pareciam dançar com o movimento dela. Nos pés, um tamanco leve e prático. Os cabelos loiros estavam perfeitamente arrumados, caindo sobre os ombros como uma moldura para seus olhos azuis brilhantes.

Marília entrou no banco do carona, guardando sua bolsa enquanto me lançava um sorriso cúmplice.

— Pronta? — perguntei, sem realmente esperar uma resposta.

— Mais do que você imagina, — respondeu ela, fechando a porta com firmeza.

Apertei o botão para abrir o portão automático da garagem, e em poucos segundos estávamos na rua. Liguei o rádio para tocar algo que fosse menos sufocante que o silêncio e acelerei. O vento bagunçava meus cabelos, mas não me importei. Sentir o ar livre enquanto me afastava da prisão que Dmitri chamava de lar era libertador.

Enquanto dirigia, Marília, prática como sempre, abriu sua bolsa e passou um pouco de gloss nos lábios antes de colocar o cinto de segurança.

— Você tem certeza que quer fazer isso, Lena? — perguntou ela, mas o tom em sua voz era mais de empolgação do que de dúvida.

— Não vejo outra saída, — respondi, com os olhos fixos na estrada.

As próximas horas foram um borrão de cores e luzes. A Avenida Strip brilhava com seus letreiros de neon, e as capelas de casamento surgiam como miragens em cada esquina. Algumas eram extravagantes, outras pareciam feitas para casamentos apressados e discretos, o que era exatamente o que eu precisava.

Finalmente, avistamos um pequeno letreiro piscando "Casamentos 24h" em letras de neon rosa. Estacionei o carro em frente ao prédio discreto e desliguei o motor.

— Esse lugar é perfeito! Agora só falta o noivo, — murmurei, olhando para Marília.

Ela inclinou a cabeça, pensativa, antes de responder:

— Lena, podemos oferecer dinheiro para alguém.

Ri de nervoso.

— Podemos oferecer dinheiro, mas só tenho dez mil dólares comigo. Gastei boa parte comprando roupas para o que Dmitri chama de ‘ocasiões importantes’.

Marília fez um gesto despreocupado, então liguei o carro e voltei a dirigir para procurar alguém disponível.

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