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EDILENA NARRANDO:
Minha vida nunca foi minha. Desde que me entendo por gente, meu mundo tem paredes invisíveis, feitas de regras ditadas pelos homens da minha família. Meu pai, Semyon, foi o arquiteto dessa prisão. Ele moldou tudo ao redor com suas mãos de ferro e olhos de gelo, até que sua morte cruel abriu caminho para Dmitri assumir o trono que ele tanto almejou. Mas nada mudou. As grades continuaram lá, talvez mais apertadas, talvez mais sufocantes. Minha mãe, Celina, sempre foi uma sombra da mulher que deveria ter sido. Espanhola de alma vibrante, deixou a vida em Las Vegas apagar o brilho dos olhos que, um dia, seduziram meu pai. Quando ele morreu, pensei, por um segundo, que ela pudesse respirar. Mas Dmitri tomou o lugar dele com a mesma frieza e o mesmo poder. Meu irmão mais velho é a própria definição de tirania. Alto, com olhos verdes cortantes e uma barba que nunca é longa o suficiente para esconder o sorriso cruel, Dmitri governa nossa casa como se fosse um rei medieval. Denis, o do meio, é quase uma cópia dele, mas tem uma malícia que o torna ainda mais perigoso. E Igor... Igor é o mais bonito, o mais charmoso. É fácil esquecer que ele é tão cruel quanto os outros dois quando te olha com aquela falsa gentileza. Eu? Sou apenas Edilena. A única filha mulher, a única irmã. A quem cabe o papel de obedecer, sorrir e acatar. Hoje foi mais um dia como todos os outros: um desfile de ordens. Dmitri quis aprovar o vestido que usei para sair, Denis quis saber para onde estava indo, e Igor... bem, Igor apenas me olhou como quem diz que sabe tudo que eu poderia estar escondendo. Quando eu caminhava pelo corredor do hotel que meu pai construiu – e que agora é o império deles –, sentia o peso de cada olhar. Trabalhadores que não me cumprimentavam sem a permissão de Dmitri, seguranças que me seguiam como sombras. Eu nunca estive sozinha, nunca estive livre. A casa que nos mudamos depois que papai faleceu há seis anos, era grande e confortável, como todas as coisas que Dmitri escolhia para demonstrar poder. Localizada em um bairro nobre de Las Vegas, tinha jardins bem cuidados, um hall de entrada de mármore e quartos que mais pareciam suítes de hotel. Cada um tinha seu próprio espaço, e isso, pelo menos, aliviava a tensão. Mesmo assim, as paredes pareciam mais uma fortaleza do que um lar. Minha tia Mercedes e minha prima Marília se mudaram para cá há dois anos, quando a situação financeira delas ficou difícil. Foi a única vez que vi Dmitri fazer algo que pudesse ser chamado de generoso, mas, claro, veio com condições. Elas estavam sob as mesmas regras que nós: horários, comportamentos, tudo monitorado. Dmitri era como um ditador que exercia controle absoluto sobre nossas vidas. Ainda assim, a presença delas tornou tudo um pouco mais suportável. Marília era como um raio de luz em meio à escuridão. Estudava gastronomia, algo que ela amava de verdade. Sempre que tinha uma brecha, invadia a cozinha para testar alguma receita. O cheiro de pão assando ou de um bolo de chocolate fazia com que a casa parecesse menos fria, menos... controlada. Eu, por outro lado, estava no quarto semestre de psicologia. Meu plano era simples: terminar a faculdade, arrumar um emprego, juntar dinheiro e, finalmente, sair daquela prisão. Ser livre. Mas, por enquanto, isso era apenas um sonho. Dmitri controlava tudo. Desde a hora que eu tinha que chegar em casa até o que eu comprava com o dinheiro que ele chamava de "mesada". Como se eu ainda fosse uma criança. Se eu desobedecesse? Ele cortava os meus quinze mil dólares mensais sem piedade. Já aconteceu uma vez, quando voltei para casa dez minutos depois do horário que ele determinou. Dez minutos. Passei um mês inteiro tendo que pedir dinheiro emprestado para minha mãe até que Dmitri resolvesse “me perdoar”. Naquela tarde, depois da aula, cheguei em casa e encontrei Marília na cozinha. Ela estava cortando frutas enquanto uma panela borbulhava no fogão. — O que você está preparando de bom Lia? — perguntei — Lena, que bom que chegou! Estou fazendo sobremesa para o jantar, — ela disse, sorrindo. — Dmitri está com convidados, mas vou aproveitar e fazer algo especial para nós. — Convidados? — perguntei, com a voz carregada de desconfiança. Convidados de Dmitri nunca eram boa notícia. Marília deu de ombros. — Negócios, provavelmente. Ele mandou todo mundo ficar no quarto depois do jantar. — Claro que mandou,— murmurei, sentando-me em uma das banquetas. — Ele acha que estamos aqui para decorar a casa e seguir ordens. Marília riu, mas eu sabia que ela concordava. Apesar de sua natureza otimista, ela também sentia o peso de viver sob as regras dele. — Você já pensou em simplesmente... ir embora? — perguntei. Ela parou de cortar as frutas e me olhou por um momento. — Ir embora? Para onde? E como? Você acha que Dmitri deixaria isso acontecer sem consequências? Eu suspirei. Ela estava certa. Dmitri tinha olhos e ouvidos por toda parte. Mas isso não significava que eu não pensava nisso todos os dias. — Não vou passar minha vida inteira aqui, — falei, com a voz firme. — Eu só preciso de um plano. Marília sorriu de lado. — Se você descobrir como sair, me avisa. Talvez eu vá com você. A porta da cozinha se abriu abruptamente, e Denis entrou, segurando um copo de uísque. Seus olhos verdes nos analisaram por um momento antes de falar. — Vocês duas, parem de cochichar e façam algo útil. Dmitri não gosta de gente desocupada. — Estamos ocupadas,— Marília respondeu com um sorriso doce. — Fazendo sobremesa. Denis estreitou os olhos, mas não respondeu. Ele nunca sabia como lidar com a leveza de Marília. Era como se sua crueldade escorregasse por ela, sem efeito. Quando ele saiu, olhei para minha prima e sorri. — Você é mais corajosa do que eu. — Não é coragem, — ela disse, dando de ombros. — É que não tenho paciência para os joguinhos deles. E você também não deveria ter. Eu queria acreditar nela. Queria acreditar que poderia simplesmente ignorar as regras, os olhares, o controle. Mas, enquanto ainda dependesse da mesada de Dmitri e não tivesse um lugar para onde ir, estava presa. Porém, algo dentro de mim estava mudando. Uma centelha de revolta que crescia cada vez mais. Talvez fosse Marília e sua ousadia discreta. Talvez fosse o fato de que eu estava cansada de viver como uma prisioneira. Uma coisa era certa: eu não ia ficar ali para sempre. E, quando saísse, ia derrubar cada uma das regras que Dmitri tanto amava impor.






