Mundo de ficçãoIniciar sessão— Pagar? — Senti o sangue sair das minhas bochechas, me deixando pálida sob a luz forte do lustre de cristal no saguão.
O recepcionista tinha aquela postura educada e um olhar de quem costuma ignorar o desespero dos outros. Ele inclinou a cabeça um pouco.
— Dinheiro, cartão, Pix... Aceitamos todas as formas tradicionais de pagamento, senhorita.
Entrei em pânico. Meus dedos apertaram a alça da bolsa com força, e as juntas ficaram brancas. O que aquele filho da puta tinha feito? Arthur não era só um homem bonito, Arthur era um carrasco elegante.
Foi uma vingança pelo tapa? Foi uma vingança pelo vaso? Ou foi só o hábito de um riquinho que acha que o mundo é seu parque de diversões particular e que pessoas como eu são descartáveis? A roupa, a postura, o gosto por bebida… tudo mostrava privilégio. E eu, na minha carência de ser cuidada, caí como uma amadora.
Olhei para a porta giratória. Fiz a conta da distância na cabeça. Se eu corresse agora, será que conseguiria chegar na calçada antes que o segurança me parasse? O segurança, que provavelmente tinha dois metros de altura e estava perto da entrada, respondeu à minha pergunta só com a postura que assumiu. Eu imaginei a situação, senti o coração acelerar, e percebi que não chegaria nem à metade do caminho.
— Olha… eu… — comecei, a minha voz falhando, a humilhação queimando na garganta. — Houve um mal-entendido. Eu não esperava esse valor. Eu posso… não sei, lavar alguma coisa? Eu posso trabalhar uns dias aqui para cobrir a conta. Estou disposta a fazer o que for preciso. Eu sou esforçada, posso ajudar na limpeza, posso ajudar na cozinha…
O recepcionista piscou uma vez antes de esbugalhar, como se eu tivesse acabado de sugerir um sacrifício humano no meio do lobby do Milani.
— Senhorita, receio que não operemos dessa forma — ele explicou, desconfortável. — Podemos parcelar o valor no cartão de crédito, se a senhorita preferir.
Uma risada alta e cheia de veneno cortou o ar atrás de mim. O som ecoou tão forte que eu não precisei me virar para reconhecer de quem era.
— O que foi? A pobretona não tem dinheiro para pagar a conta? — Eu vi Alícia surgir como um abutre, vindo dos elevadores. Gustavo estava com ela, um dos veteranos que riu de mim no jardim.
Alícia parou ao meu lado. Os olhos dela brilhando de prazer ao ver o meu estado. Enquanto isso, Gustavo foi até o balcão ao lado, com outro recepcionista, para fechar a conta deles. Mesmo assim, manteve os ouvidos atentos ao meu vexame.
— Onde está o seu namorado rico, Zara? — Alícia parecia fazer as conexões na velocidade da luz. — Espera um pouco… Se Arthur fosse realmente o seu namorado, ele não deixaria você aqui passando vergonha por causa de dois mil reais. Ah, meu Deus, ele não é, é? Você inventou tudo!
— Ela é só uma prostituta barata que tentou dar o golpe no cara errado — Gustavo soltou uma gargalhada, batendo no balcão.
O insulto chegou como um tapa no rosto. Eu queria gritar. Eu queria bater voar pescoço dele. Mas pior do que a raiva, eu percebi minha mentira caindo por terra. Eu não era a namorada de um bilionário. Eu era a garota que acordou sozinha com uma dívida que eu não podia pagar e com uma fama que ia me seguir pelos corredores da Santa Trindade até o fim do curso.
— Vai se ferrar, Gustavo! — respondi, tentando manter a voz firme, mesmo que eu estivesse quebrada por dentro. — Tire o meu nome da sua boca suja antes que eu tire você do meu caminho!
Mas era tarde demais. O estrago já estava feito. Com a mão trêmula, eu tirei dinheiro do cartão. O dinheiro do aluguel saiu do cartão. O dinheiro das contas do mês saiu do cartão. O dinheiro que me manteria viva até o próximo salário dos meus bicos saiu do cartão. Eu sentia o medo apertar o peito e precisava fugir dali antes que eu perdesse a última parte da sanidade que ainda me restava.
— Passa essa merda logo — eu sibilei para o recepcionista.
Digitei a senha sentindo que estava assinando minha ordem de despejo. Quando o recibo saiu, eu peguei o papel e corri. Atravessei a porta giratória sem olhar para trás, ignorando as risadas de Alícia que ainda ecoavam no mármore.
O sol do Rio de Janeiro ardia, mas eu me sentia gelada por dentro. Parei no meio da calçada, puxei o celular e encarei a tela como se ela fosse mudar de ideia por pena.
Saldo: vinte reais negativo.
Nem o valor para a passagem de ônibus eu tinha.
Soltei uma risada curta, sem humor nenhum. Pronto. Era oficial. Depois de uma noite daquelas, eu agora estava humilhada até pela minha conta bancária. Passei a mão no rosto, tentando pensar. Chorar não ia pagar o aluguel, entrar em pânico muito menos.
Comecei a caminhar sem rumo, deixando o ar fresco de um parque próximo esfriar minha cabeça. Não que aquilo parecesse funcionar, nem todo o ar fresco da Antártica faria dinheiro aparecer na minha conta. Eu precisava de um plano. Não, eu precisava de um milagre, isso sim! Eu precisava... Meus pés travaram repentinamente enquanto um sorriso se alargou no meu rosto.
Bom. Talvez o milagre estivesse bem na minha frente.
Debaixo da pequena ponte de madeira, o lago artificial brilhava sob o sol... E, com ele, as moedas que turistas e apaixonados viviam jogando ali para fazer pedidos idiotas.
Olhei em volta. O parque estava vazio. Entrei na água rasa sob a ponte, levantando o vestido alugado com todo o cuidado do mundo. A seda não podia sofrer um dano sequer, ou eu estaria devendo o dobro. E, sinceramente, eu não fazia ideia de onde tiraria dinheiro para pagar o que já estava devendo, não precisa acrescentar mais uma dívida a conta.
Então, comecei a fazer eu que eu precisava fazer. Tateei o fundo lodoso do lago, recolhendo as moedinhas de um real e cinquenta centavos que brilhavam sob o sol.
Não é roubo, Zara. É sobrevivência, repetia para mim mesma sentindo o gosto amargo da humilhação. Eu era a aluna número um de Medicina, uma futura cardiologista brilhante. Mas estava ali, catando esmola no fundo de um lago para conseguir voltar para a casa.
Foi quando um barulho pesado de algo caindo na parte mais funda do lago, seguido por um grito abafado, me assustou. Levantei os olhos e meu coração disparou.
— Puta que pariu... — eu murmurei.
Eu vi um senhor idoso caindo na parte mais profunda do lago. Ele batia os braços com força, lutava contra o peso das próprias roupas, e parecia estar se afogando numa profundidade que não deveria ser perigosa para ninguém, mas para ele parecia um abismo.
Eu fiquei paralisada. Não consegui me mexer.
Não. Não, não, não. Isso não estava acontecendo comigo!
Meus olhos correram para a barra do vestido, perfeitamente segura erguida nas minhas mãos. A seda já estava em risco. Se eu entrasse naquela parte mais funda, estaria ferrada!
Olhei ao redor, procurando alguém.
Qualquer um.
Qualquer um, por favor!
Mas não havia ninguém ali além de nós dois.
Eu vi o velho afundar mais uma vez.
Meu estômago virou.
— Isso só pode ser brincadeira! — disse, jogando a mão livre para os céus em sinal de frustração. — Não posso destruir esse vestido!







