Mundo de ficçãoIniciar sessão
Clara Mendes tinha vinte e sete anos, mas se sentia com cinquenta. O vestido leve de algodão azul que vestia, o mesmo que Gustavo havia aprovado de manhã, agora parecia uma prisão. Cada passo ecoava como um lembrete: não corra, não olhe para os lados, não chame atenção.
— Você acha que pode me enganar, Clara?
A voz de Gustavo era ameaçadora. Ele segurava seu braço com tanta força que os dedos afundavam na carne macia acima do cotovelo. Ela sentiu o local latejar de dor, mas não ousou se soltar. Já havia aprendido, da pior forma possível, que resistência só piorava tudo.
— Gustavo… por favor — murmurou ela, a voz quase inaudível em meio ao barulho da rua. — Eu nem olhei para aquele homem. Estava só… distraída.
Ele a puxou com violência, girando-a para encará-lo. Os olhos castanhos que um dia ela achara intensos agora eram poços de paranoia e raiva. O rosto bonito, de traços bem desenhados, estava distorcido pela fúria. Aos trinta e dois anos, Gustavo Silva ainda mantinha o porte de quem frequentava academia religiosamente, com ombros largos e maxilar definido, mas a beleza havia se tornado uma arma.
— Distraída? — ele cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Eu vi, porra! Vi o jeito que você abriu a boca quando aquele atendente da cafeteria sorriu pra você. Parecia uma cadela no cio.
Clara sentiu o estômago revirar. Ela mal se lembrava do rosto do rapaz que havia entregado os cafés. Sua mente estava longe, presa no looping infinito de medo, autopiedade e exaustão que se tornara sua vida nos últimos dois anos e meio. Mas para Gustavo, qualquer olhar, qualquer sorriso, qualquer segundo de distração era prova de traição.
— Eu não fiz nada — sussurrou ela, os olhos fixos no chão. — Nunca faço.
— Claro que não. Você é tão santa, né? — O aperto aumentou. As unhas dele cravaram na pele. — Sempre se fazendo de vítima. Sempre me fazendo de louco. Você acha que eu não percebo como os homens olham pra você? Como você gosta?
Uma lágrima escorreu de seus olhos e Clara a sentiu descer quente pela bochecha e se odiou por isso. Chorar na frente dele era combustível. Ele adorava o poder que as lágrimas dela lhe davam. Gustavo a puxou mais para perto, colando o corpo ao dela em plena calçada. O hálito cheirava a uísque e menta artificial do chiclete que ele mascava para disfarçar.
— Você é minha, Clara. Minha. Se eu vir você olhando de novo pra outro homem, vou fazer questão de lembrar exatamente a quem essa boceta pertence. Entendeu?
Ela assentiu rapidamente, o nó na garganta tão grande que mal conseguia respirar. O medo era uma entidade viva dentro dela agora. Morava em seu peito, dormia em sua cama e acordava com ela todas as manhãs.
Do outro lado da rua, encostado numa moto preta, Julian Almeida parou de mexer no celular. Ele havia acabado de sair do treino de esgrima no clube próximo. Ainda vestia a calça de moletom cinza escuro e uma camiseta preta justa que marcava os músculos desenvolvidos por anos de esporte de alto rendimento e cross training. O cabelo castanho escuro estava bagunçado pelo capacete, e uma leve camada de suor brilhava em sua pele bronzeada.
A princípio, pensou que fosse apenas mais uma briga de casal. São Paulo estava cheia delas. Mas algo no jeito como a mulher se encolhia fez seu instinto gritar. Ela não estava brava, mas sim, aterrorizada.
Julian estreitou os olhos quando viu o homem apertar o braço dela com mais força, sacudindo-a levemente. A mulher, linda, mesmo com o rosto pálido e os olhos cheios de pavor tentava se encolher ainda mais, como se quisesse desaparecer.
Ele sentiu o sangue ferver.
Julian não era herói. Nunca se metia em briga de casal. Tinha trinta anos, uma carreira sólida como atleta de esgrima (já havia disputado campeonatos nacionais) e uma segunda vida como “palhaço profissional” em festas infantis e eventos corporativos. Sua fama era de cara descontraído, aquele que fazia piada de tudo, que vivia sorrindo e evitando compromisso emocional.
Mas ver um homem tratar uma mulher daquele jeito… isso ele não conseguia ignorar.
— Chega — murmurou para si mesmo.
Atravessou a rua com passos largos e decididos, desviando de um carro que buzinou irritado. Quando chegou perto, a voz dele saiu baixa, controlada, mas carregada de uma ameaça gelada que contrastava completamente com seu habitual tom brincalhão.
— Tira a mão dela. Agora.
Gustavo virou a cabeça bruscamente, surpreso. Seus olhos percorreram Julian de cima a baixo, o homem era uns cinco centímetros mais alto que ele e tinha ombros visivelmente mais largos. Ainda assim, Gustavo sorriu com desdém.
— Quem caralho é você? Isso não é da sua conta, porra. Some.
Julian não se mexeu. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de humor, estavam frios como aço. Ele deu mais um passo, posicionando-se de forma que seu corpo bloqueasse parcialmente a visão de Gustavo sobre Clara.
— Eu vou falar só uma vez. Solta o braço dela ou eu vou fazer você soltar.
Clara olhou para o estranho, atônita. Ninguém nunca interferia. Nunca. As pessoas fingiam não ver. Viravam o rosto. Continuavam andando. Mas aquele homem… ele olhava para Gustavo como se o outro fosse um inseto.
Gustavo soltou uma risada seca e soltou o braço de Clara apenas para empurrá-la para trás de si, como se ela fosse um objeto.
— Ah, então você quer bancar o herói? Quer comer minha mulher, é isso? — Ele deu um passo agressivo na direção de Julian, peito estufado. — Vai embora enquanto ainda tem dentes na boca, otário.
Julian inclinou a cabeça ligeiramente, um sorriso perigoso e quase divertido surgindo no canto de seus lábios, era o mesmo sorriso que usava antes de marcar um ponto decisivo numa competição de esgrima.
— Última chance.
Gustavo avançou, desferindo um soco desajeitado, movido mais pela raiva do que por técnica.
Julian desviou com facilidade, o movimento treinado por anos de esgrima e boxe. Em seguida, seu punho direito subiu num arco curto e preciso. O soco acertou em cheio o maxilar de Gustavo, com a força exata para derrubá-lo sem quebrar ossos, mas o suficiente para fazer o homem cambalear para trás, sangue escorrendo imediatamente do lábio cortado.
Um murmúrio se espalhou entre os pedestres que finalmente pararam para assistir. Gustavo tocou a boca, viu o sangue na mão e olhou para Julian com puro ódio.
— Seu filho da puta… você não sabe com quem está se metendo.
Julian deu um passo à frente, com a voz baixa e ameaçadora.
— Eu sei exatamente com quem estou me metendo. Um covarde que b**e em mulher na rua. Se eu te vir perto dela de novo — ele apontou o dedo para o peito de Gustavo —, não vai ser só um soco. Vou acabar com você. Entendeu?







