Mundo de ficçãoIniciar sessãoA viagem de volta para a Cidade do México foi silenciosa e sufocante. Dentro do jato particular, Valentina mantinha o olhar fixo na janela, fingindo se concentrar nas nuvens lá embaixo. Luis Fernando estava sentado à sua frente, imerso no laptop, mas a tensão entre eles era tão densa que parecia ocupar todo o espaço da cabine.
Nenhum dos dois mencionou o que quase aconteceu na suíte. O quase beijo. O corpo colado. As palavras perigosas sussurradas no escuro. Era como se ambos tivessem feito um acordo silencioso de fingir que nada daquilo existira. — Chegaremos em quarenta minutos — avisou o piloto pelo interfone. Luis Fernando fechou o laptop com um movimento seco e a encarou pela primeira vez desde que haviam decolado. — Quando chegarmos ao escritório, você volta à sua rotina normal. Quero os relatórios da viagem organizados até o meio-dia. Sem atrasos. Valentina assentiu, sem encará-lo. — Sim, senhor Bracho. O tom frio dele doeu mais do que ela queria admitir. Na noite anterior, ele havia confessado que a desejava. Agora agia como se ela fosse apenas mais uma funcionária. A humilhação queimava em seu peito. O carro os deixou diretamente na sede da Grupo Bracho. Valentina subiu até o andar executivo sentindo o peso das olhadas curiosas dos outros funcionários. Laura a esperava no ante-sala com um café e olhos cheios de perguntas. — E aí? Como foi a viagem? Você está com cara de quem não dormiu nada... — Foi... intensa — respondeu Valentina, sentando-se na mesa. — Não quero falar sobre isso agora. O dia seguiu em ritmo brutal. Luis Fernando a bombardeava com tarefas. E-mails, relatórios, agendamento de reuniões, reservas de voos futuros. Cada vez que ela entrava no escritório dele, ele mal levantava os olhos. Tratava-a com uma frieza cirúrgica, quase cruel. Como se quisesse apagar qualquer vestígio de intimidade que havia surgido em Guadalajara. Às quatro da tarde, Valentina já estava exausta. Seus pés doíam, a cabeça latejava e o estômago roncava de fome — ela mal havia almoçado. Quando levou o último relatório do dia, Luis Fernando finalmente falou sem olhar para ela: — Você está pálida. Vá comer alguma coisa antes de desmaiar na minha frente. — Estou bem — respondeu ela, seca. Ele ergueu os olhos verdes, penetrantes. — Não foi um pedido, Valentina. Foi uma ordem. Ela saiu batendo a porta mais forte do que pretendia. No refeitório executivo, pegou um sanduíche e sentou-se sozinha em um canto. Mal havia dado duas mordidas quando Miguel Ángel Torres, o vice-presidente e melhor amigo de Luis Fernando, apareceu com um sorriso fácil. — Você deve ser a famosa nova assistente que está deixando o chefão maluco — disse ele, sentando-se à frente dela sem ser convidado. Moreno, charmoso, com um ar mais leve que o do amigo. — Miguel Ángel. Pode me chamar de Mike. Valentina sorriu pela primeira vez no dia. — Valentina Morales. E não sei do que o senhor está falando. — Ah, claro. Todo mundo já percebeu. Ele nunca leva assistentes em viagens curtas. E nunca fica tão... irritadiço depois. O que você fez com ele em Guadalajara? — Nada — respondeu ela rapidamente, sentindo o rosto esquentar. — Só trabalho. Miguel Ángel riu. — Se você diz... Mas cuidado, Valentina. Luis Fernando não é fácil. Ele carrega demônios que poucos conhecem. E quando se interessa por alguém, não costuma desistir. As palavras dele ficaram ecoando na cabeça dela pelo resto da tarde. Às sete da noite, quando a maioria dos funcionários já havia ido embora, Luis Fernando saiu do escritório com o paletó na mão. — Você ainda está aqui? — perguntou, surpreso. — Terminando os últimos e-mails que o senhor pediu. Ele parou na frente da mesa dela, olhando-a de cima. Por um momento, a máscara fria rachou. Seus olhos suavizaram ligeiramente. — Vá para casa, Valentina. Está tarde. Ela se levantou, pegando a bolsa. Quando passou por ele, Luis Fernando segurou seu braço com delicadeza — bem diferente do aperto firme dos primeiros dias. — Espere. Valentina parou, o coração acelerando novamente. — Sobre ontem à noite... — começou ele, a voz baixa. — Foi um erro. Não vai se repetir. Eu não me envolvo com funcionárias. Nunca. As palavras foram como um balde de água fria. Valentina sentiu algo se apertar dentro do peito. Raiva. Decepção. Dor. — Ótimo — respondeu ela, puxando o braço. — Porque eu também não me envolvo com homens como o senhor. Arrogantes. Frios. Que tratam as pessoas como objetos descartáveis. Luis Fernando apertou o maxilar. Por um segundo, pareceu que ele ia dizer algo mais. Em vez disso, deu um passo para trás. — Então estamos de acordo. Bom noite, senhorita Morales. Valentina saiu do prédio com lágrimas queimando nos olhos. Pegou o ônibus lotado, encostou a cabeça na janela e deixou o choro silencioso cair. Quando chegou em casa, encontrou a mãe dormindo e Carlos Daniel fazendo lição na cozinha. — Como foi a viagem, maninha? — perguntou o irmão. — Normal — mentiu ela, forçando um sorriso. Naquela noite, deitada na cama pequena do seu quarto, Valentina tomou uma decisão. Manteria distância. Seria profissional. Faria seu trabalho e ignoraria qualquer faísca que surgisse entre eles. Do outro lado da cidade, no luxuoso apartamento duplex com vista para o Castelo de Chapultepec, Luis Fernando servia-se de uísque puro. Estava sem camisa, apenas com a calça social, olhando a cidade iluminada pela janela panorâmica. Ele não conseguia parar de pensar nela. No cheiro dela. No jeito como ela o desafiava. Na forma como seu corpo reagia quando ela estava perto. — Droga... — murmurou, bebendo o líquido âmbar de uma vez. O telefone tocou. Era Camila. — Querido, soube que voltou da viagem. Que tal um jantar amanhã? Podemos conversar sobre nós... — Não existe “nós”, Camila — cortou ele, seco. — Pare de insistir. Desligou sem esperar resposta. Jogou o celular no sofá e passou as mãos pelo cabelo. Valentina Morales estava se tornando uma obsessão. E Luis Fernando Bracho nunca havia sido bom em controlar obsessões. Na manhã seguinte, quando Valentina chegou ao escritório pontualmente, encontrou um enorme buquê de rosas vermelhas sobre sua mesa. O cartão não tinha assinatura, mas a letra era inconfundível. "Não foi um erro. Foi um aviso." Valentina pegou o cartão com as mãos trêmulas. Antes que pudesse guardar, a voz grave de Luis Fernando soou atrás dela: — Bom dia, senhorita Morales. Ela se virou. Ele estava encostado na porta do escritório, com os braços cruzados e um olhar que prometia que a guerra entre eles estava apenas começando.






