Narrado por Antonella – Versão em Moscou
Eu tenho a leve impressão de que virei uma idiota. Uma otária completa.
É assim que eu me sinto quando olho pela janela e vejo sempre a mesma cena: um bando de bêbado, drogado e gente sem rumo encostado na frente do prédio, fumando, gritando, rindo alto, como se ninguém ali tivesse que acordar cedo no dia seguinte.
Como se eu não tivesse.
Como se eu não estivesse quebrando a cabeça todo santo dia tentando arrumar um emprego decente, enquanto conto moeda pra comprar remédio.
Eu moro num prédio velho, num bairro esquecido de Moscou. O tipo de lugar onde o vento corta o rosto como navalha, os vizinhos fingem que não te veem no corredor e a polícia só aparece quando é tarde demais. O inverno aqui é ainda pior — entra pelas janelas como se fosse dono da casa, e o aquecedor vive mais quebrado do que funcionando.
Eu nunca imaginei que minha vida fosse virar isso.
Meu nome é Antonella, tenho vinte e três anos, e o que eu vou dizer agora dói mais