Casas revelam mais do que pessoas.
Aprendi isso cedo, assumindo nomes que não eram meus, dormindo em camas que não me pertenciam, observando antes de tocar em qualquer coisa. Há casas barulhentas, que tentam impressionar. Outras são caóticas, denunciando abandono. E há aquelas como esta — silenciosas, organizadas, precisas demais para serem apenas bonitas.
Chego dez minutos antes do horário combinado. Não por ansiedade. Por método. Quem chega cedo observa. Quem chega no horário é avaliado. Quem se atrasa começa devendo.
O portão se abre sem que eu anuncie minha presença.
Câmeras discretas acompanham cada passo meu, integradas à arquitetura de forma elegante, quase invisível. Não são agressivas, mas deixam claro que nada ali acontece por acaso. O caminho até a porta principal está limpo demais, sem folhas, sem marcas, sem vestígios do mundo exterior.
O interior confirma minhas suspeitas.
A temperatura é exata. A iluminação entra no ângulo certo. O silêncio não é ausência de som — é controle ativo dele. Casas assim não toleram improviso. Não toleram erro. Não toleram pessoas que não saibam exatamente onde pisam.
Cristian Montenegro já está acordado.
Sei disso porque tudo funciona.
Sou recebida por uma mulher que não apareceu em nenhuma das minhas pesquisas. Cerca de cinquenta anos, roupas simples, postura firme, olhar atento demais para ser apenas figurante naquela casa. Ela me avalia rápido: rosto, mãos, postura, roupa.
Primeira falha no meu levantamento.
— Bom dia — digo.
— Ele está na cozinha — responde, sem perguntar quem sou.
Ela não diz senhor.
Não diz Cristian.
Diz ele.
Sigo pelo corredor amplo, tapetes caros abafando meus passos. Casas assim não gostam de ruído. Não gostam de surpresas. Não gostam de gente difícil de catalogar.
Cristian está na cozinha.
Camisa clara, mangas dobradas com cuidado, barba feita com precisão. Ele se move com naturalidade entre a bancada e a mesa, segurando uma colher infantil numa mão e uma xícara de café preto na outra.
Bárbara está na cadeirinha, comendo.
Os cabelos claros estão presos de qualquer jeito, desalinhados em contraste com o resto da casa. Ela balbucia algo incompreensível, derruba um pouco de comida na mesa. Cristian não se irrita. Limpa com o guardanapo, paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo.
— Assim, filha — diz, calmo. — Devagar.
Ela tenta de novo. Erra. Ri. Ele sorri de volta.
Isso é importante.
Não é um homem frio.
É um homem atento demais.
Quando finalmente me nota, não se levanta imediatamente. Termina de limpar as mãos de Bárbara, solta o cinto da cadeirinha, pega-a no colo e beija-lhe a testa. Só então se volta para mim.
— Pontualidade é importante — diz.
— Por isso cheguei antes.
Ele me observa por um segundo a mais do que o necessário. Não é desconfiança crua. É conferência. Como quem revisa algo que não pode falhar.
— Sente-se.
Sobre a mesa há uma pasta preta. Sem logotipo. Sem etiqueta. Nada ali precisa ser anunciado.
Eu me sento, mas não a toco.
— Aqui estão as regras — ele diz.
Não algumas.
As regras.
— Horários são fixos. Alimentação, sono, estímulos. Nada é aleatório.
— Crianças precisam de previsibilidade — respondo.
— Precisam de consistência — ele corrige. — E de adultos que cumpram o que prometem.
Ele abre a pasta. O que vejo não é um contrato comum, mas um manual de funcionamento.
Horários detalhados. Tipos de alimento. Texturas. Temperaturas. Sons permitidos. Sons vetados. Programas infantis escolhidos a dedo. Pessoas autorizadas. Pessoas que não devem, sob hipótese alguma, criar vínculo com Bárbara.
— Não autorizo visitas sem aviso — continua. — Não autorizo fotos. Não autorizo comentários externos sobre minha rotina ou a da minha filha.
— Confidencialidade é básica — respondo.
— Não para todos — ele rebate. — Muita gente gosta de contar histórias.
Fecha a pasta.
— Não terceirizo o cuidado da minha filha — acrescenta. — Você está aqui para ajudar, não para substituir.
Isso explica muita coisa.
— Quanto à casa — prossegue — tudo tem lugar definido. Nada é movido sem necessidade.
— E se houver necessidade?
— Eu avalio.
Não nós.
Ele.
Cristian Montenegro não controla por ego.
Controla por responsabilidade.
— Meus gostos pessoais não interferem no trabalho — diz. — Mas você precisa conhecê-los.
Outra folha.
Café sempre amargo.
Silêncio pela manhã.
Nada de conversas inúteis antes das dez.
Pontualidade rígida.
Objetos alinhados.
— O senhor é exigente — comento.
— Sou presente — ele responde. — E presença exige método.
Ele ajeita Bárbara no colo.
— Venha. Quero que veja o quarto dela.
Caminhamos juntos pelo corredor. Cristian não apressa o passo. Segura Bárbara com firmeza, mas sem rigidez. Ela brinca com o colarinho da camisa dele, completamente à vontade.
Chegamos ao quarto.
Cristian a coloca no berço. Só então Bárbara percebe minha presença novamente e se anima, estendendo os braços.
— Pode pegar — ele diz. — Mas segure assim.
Ele ajusta minha postura, observa cada detalhe, pronto para intervir. Não por ciúme. Por zelo.
Bárbara se aconchega em mim por alguns segundos. Cristian não desvia o olhar.
— Ela cria vínculo fácil — comenta. — Por isso sou cuidadoso.
— Mas não impede — observo.
— Não — ele concorda. — Só escolho bem quem fica.
Durante a manhã, entendo quem ele é.
Cristian troca fralda. Prepara comida. Conversa com a filha como se ela entendesse tudo — e entende. Quando ela se agita, ele canta baixo. Quando chora, ele pega no colo sem hesitar.
Ele não desconfia da filha.
Desconfia do mundo.
Enquanto Bárbara dorme, ele prepara café para nós dois. Um gesto simples. Não ensaiado.
— A última babá não ficou muito tempo — comenta.
— Por quê?
— Porque não era suficiente.
Não há rancor na voz. Apenas constatação.
Observo a casa. Não há fotos de uma mulher adulta. Nenhum objeto esquecido. Nenhuma presença fantasma.
Até que noto o piano.
Um piano de cauda. Usado. Não decorativo.
— Você toca? — ele pergunta, quebrando a própria regra do silêncio matinal.
— Um pouco.
— Toque.
Sento-me. Escolho algo suave. Bárbara acorda no meio da música e b**e palmas desordenadas. Cristian ri. Ri de verdade.
Quando termino, o silêncio se instala.
— Ela odiava quando eu tocava — ele diz.
— Sua ex-esposa?
Ele assente.
— Dizia que a casa já era pesada demais com uma criança. Que Bárbara era… um peso.
Não há ódio. Só lucidez.
— Eu pedi o divórcio — continua. — E paguei para que ela tivesse uma vida confortável. Longe.
— Pela paz — digo.
— Pela paz — confirma.
Ele olha para a filha.
— Aqui ninguém fica por obrigação.
Olha para mim ao dizer isso.
E, pela primeira vez desde que entrei naquela casa, sinto algo inesperado.
Respeito.
Cristian Montenegro não é um homem quebrado.
É um homem que escolheu ficar — e exige o mesmo de quem entra na vida dele.
E eu…
Eu nunca fico.
Talvez por isso este trabalho seja tão perigoso.