####CAPÍTULO 04

ACORDEI

Samir

Voltei à vida de uma forma que parece mais um milagre do que um acaso.

— Embora não compreenda como fui trazido de volta deste abismo, aqui estou, lutando contra a sombra da morte que ainda parece me envolver.

Minha respiração é como se o punhal estivesse sendo executado novamente em meu peito; o ar que entra é carregado de dor e resistência, e meu corpo clama em protesto contra o sofrimento, mas, todas as probabilidades, de ainda está aqui, pulsando com uma centelha de vida.

— Ao abrir os olhos, sou imediatamente confrontado por um mundo indefinido, um espaço vago cercado por rostos estranhos que se inclinam sobre mim com expressões de preocupação genuína.

Embora esses espíritos generosos não me conheçam, eles se tornaram os responsáveis por me resgatar daquelas garras mortais que ameaçavam me consumir.

—Quem são essas almas valentes que, desafiando o destino, me tiraram daquela armadilha mortal?

Fui alvo de uma tentativa de assassinato, um ato que foi meticulosamente planejado, longe de ser mera casualidade ou o simples ato de um ladrão desavisado.

— Foi uma execução, realizada com frieza e precisão, como se minha vida não valesse mais do que um mero peão em um jogo cruel.

A mente por trás desse crime, acredita firmemente que eu já estou morto, e sua intenção sádica é que assim permaneça para sempre.

— Cada minuto que encontro uma fração de paz, a verdade de que não posso permitir que minha verdadeira identidade seja descoberta me atormenta, como uma sombra persistente.

Se revelarem quem sou, não será somente a minha vida que estará em perigo—todos aqueles que se importam comigo, especialmente eu, estarão também em risco.

— A primeira etapa que devo enfrentar é a cura das feridas que me consomem, tanto físicas quanto emocionais.

Somente após alcançar essa recuperação poderei planejar meu retorno.

—Como uma fênix que renasce, buscarei descobrir quem armou essa emboscada traiçoeira e fundirei minha dor em uma busca incessante pela verdade oculta que se esconde nas trevas da traição.

Com cada respiração difícil, estou determinado a reagrupar minhas forças e enfrentar a tempestade que se aproxima, armando-me não só com a vontade de sobreviver, mas também com a determinação de fazer justiça.

— Fecho os olhos por um momento e sinto as mãos que cuidam de mim, Zara e Sara, mãe e filha, duas mulheres simples, cuja presença é a razão pela qual ainda respiro, apesar da ausência de luxo e poder.

O toque suave de Zara, como se um bálsamo fosse aplicado às minhas feridas mais profundas, transmite uma sensação de segurança que não conhecia.

— Ouço tudo: cada sussurro que Zara acredita estar dirigindo a um homem inconsciente, toda lágrima presa em sua garganta e cada medo que ela expõe, sem saber que alguém a ouve em silêncio.

Ela está sendo vendida, e essa palavra pesa em meu íntimo.

— Uma jovem vendida, como se fosse um objeto, sem alma ou escolha, e o sofrimento que ela enfrenta atravessa meu ser de maneira inesperada, acendendo um fogo de indignação e empatia que me obriga a repensar minha própria situação.

Enquanto ouço sua dor, sinto que, de alguma forma, parte de mim também está sendo vendida—vendida ao silêncio, à inatividade, à impotência diante de uma realidade horrenda.

— Penso em minhas irmãs e em seus casamentos—arranjados, silenciosos e resignados.

Nunca as vi realmente felizes, apenas aceitando o destino que lhes foi imposto.

—Sempre eram como peças de xadrez em um tabuleiro que nem mesmo podiam ver, movidas por mãos invisíveis que jogavam com suas vidas.

Contudo, mesmo assim, elas eram esposas únicas, tudo por exigência do meu pai: nenhuma segunda esposa, e abuso não é tolerado.

—Se alguma delas for maltratada, podem voltar para casa, um consolo em meio a uma situação não ideal.

Mas Zara não possui essa liberdade; ela não tem para onde retornar, e sua venda é parte de um grotesco acordo que reflete uma realidade alarmante, onde, segundo dados da ONU, cerca de 12 milhões de meninas são forçadas a se casar a cada ano, sendo submetidas a um destino cruel antes mesmo de compreenderem o que significa realmente viver.

— É um ciclo vicioso que aprisiona muitas jovens, obrigadas a aceitar a servidão sob a forma de um casamento sem amor, com consequências devastadoras para suas vidas e bem-estar.

Essa realidade estrangula sonhos e esperança, transformando crianças em adultas sem que tenham sequer experimentado os encantos da juventude.

— O desespero de Zara ressoa em meu coração, e um desejo ardente por justiça e mudança brota em mim, uma chama que se recusa a se apagar diante da escuridão que nos cerca.

Qual é a tragédia da tribo dela? — Zara não sabe o que aconteceu comigo, ignora minha identidade e o fardo que carrego, um peso que está atrelado à minha alma como se fosse uma sombra persistente.

— Apesar disso, ela deposita sua confiança em mim, numa entrega que eu nunca esperei.

Cuida de mim com uma ternura quase maternal, fala de seus medos e sonhos com uma sinceridade que me toca profundamente, chora com uma vulnerabilidade que me quebra por dentro e divide sua dor com um desconhecido, me fazendo sentir como se eu fosse a única pessoa em quem ela pode confiar neste mundo hostil.

— Ela não sabe… mas eu a escuto como um confidente silencioso, absorvendo suas palavras com a urgência de quem busca entender a essência da dor alheia.

Enquanto as palavras dela ecoam em minha mente, algo se quebra dentro de mim, uma fenda que revela o quão distorcido é o mundo que fomos forçados a aceitar.

— Isso não é correto, é uma injustiça gritante forçar meninas a se casarem com homens velhos sob o pretexto de tradição, acordos ou dinheiro, todas as justificativas que a sociedade arranja para perpetuar essa crueldade insana.

Um exemplo disso pode ser percebido em muitos lugares, onde meninas são tratadas como mercadorias, em vez de seres humanos com sonhos e desejos próprios; segundo a UNICEF, mais de 12 milhões de meninas são casadas antes de completarem 18 anos a cada ano, uma estatística que enche meu coração de desespero e revolta.

— Isso não é justiça, mas sim uma violação horrenda da dignidade, rotulada como costume em uma sociedade acomodada.

Quando eu voltar, essas leis precisarão mudar, e não apenas como uma promessa vazia, mas como uma necessidade urgente.

— Não agora, enquanto estou ferido, mas um dia, quando a cicatriz da dor se transformar em uma motivação arrojada. Porque sobrevivi por um motivo.

Um motivo que tem um nome: Zara, é a representação de uma nova esperança, um farol de luz que promete um futuro onde meninas como ela terão a liberdade para sonhar sem correntes a prender seus pés.

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