Dalila não aceitou de imediato.
Do outro lado da linha, ouvi o som de páginas sendo folheadas.
— O processo de rescisão leva, no mínimo, três dias. Eu preciso negociar antes, porque você ainda tem dois compromissos comerciais pendentes.
Respondi em voz baixa.
Dalila me conhecia bem demais e perguntou mais uma vez:
— Você não quer pensar melhor? Se você assinar a rescisão, todas as economias desses cinco anos vão embora.
Fiquei olhando para a estreita faixa de luz que passava por baixo da porta corta-fogo.
Lembrei-me de que, muitos anos antes, meu pai também havia me feito aquela pergunta.
Naquela época, eu tinha dezenove anos e fui encurralada pela agência de talentos com um contrato na mão, bem na área de pagamento do hospital.
Meu pai tinha acabado de passar pela segunda cirurgia. Estava tão magro que parecia só pele e osso, mas, mesmo assim, estendeu a mão e acariciou minha cabeça.
Ele disse que, se eu não quisesse atuar, não tinha problema. Nosso carrinho de linguiça continuava lá. Ele poderia continuar vendendo linguiça assada e, assim, me sustentar.
Depois, ele nunca recebeu alta.
E eu também nunca consegui voltar.
Um vizinho guardou aquele carrinho pequeno, de pintura descascada, em um depósito. Ele ficou lá durante cinco anos.
Eu disse em voz baixa:
— Pode começar o processo.
Enterrei o rosto nos joelhos:
— Quando terminar, acho que eu já vou ter decidido.
De repente, alguém bateu à porta:
— Viviane Queiroz, Durval está chamando a senhora.
Eu me levantei depressa.
Na sala de descanso particular de Durval, não havia ninguém além dele.
Sobre a mesa, havia um novo roteiro.
O nome que antes aparecia no papel principal já havia sido substituído pelo de Solange Faria.
Durval estava em pé junto à janela, falando ao celular.
A camisa preta marcava a cintura estreita. As mangas estavam dobradas de qualquer jeito até os cotovelos. O relógio em seu pulso custava tanto quanto dez carrinhos de linguiça iguais ao do meu pai.
Quando me viu entrar, ele encerrou a ligação:
— Onde você estava escondida?
— Atendendo uma ligação.
— De quem?
— Da Dalila.
Durval ergueu os olhos para mim:
— Você foi reclamar com ela?
— Não.
Eu nunca soube reclamar muito bem.
Quando eu era criança, se alguém me maltratava e meu pai perguntava o que tinha acontecido, eu dizia apenas que havia caído.
Porque, se eu reclamasse, meu pai fecharia a barraca de linguiça, subiria naquela bicicleta velha e iria atrás da pessoa.
Ele não ganhava muito por dia.
Se ele vendesse uma linguiça a menos, eu já ficava com o coração apertado por ele.
Durval estendeu a mão para mim.
Eu fui até ele, obediente.
Assim que cheguei perto, ele segurou minha cintura e me puxou para seus braços.
— Você perdeu o papel e agora vai ficar se escondendo de mim?
O queixo dele pousou no meu ombro, e a ponta do nariz roçou a lateral do meu pescoço. A voz dele ainda era fria.
Mas uma das mãos deslizou para dentro do meu casaco, pousou na minha cintura e a acariciou devagar duas vezes.
Esse era o hábito de Durval.
Na frente dos outros, ele achava que até três metros de distância entre nós era pouco.
Longe dos olhos alheios, desde que eu estivesse por perto, ele sempre precisava me tocar de algum jeito.
— Eu não estava fugindo.
— Então por que você não me perguntou?
Fiquei em silêncio por um instante:
— Se eu perguntar, você vai me devolver o papel?
A mão de Durval parou. Ele ergueu meu rosto, e seu olhar pousou nos meus olhos.
— Você quer esse papel?
Eu assenti.
Dois anos antes, ele havia me entregado aquele roteiro. Naquele dia, eu estava encolhida no sofá, comendo um lanche.
Durval tirou o lanche da minha mão e disse que a protagonista havia sido escrita pensando em mim.
Eu fiquei tão feliz que passei a noite inteira sem dormir. Nos três meses seguintes, ensaiei as falas às escondidas.
Mas, no primeiro dia em que Solange apareceu, ele entregou o roteiro a ela.
— Se você quer esse papel, peça direito — Durval disse, apertando meu queixo de leve. — Não fique com essa cara de quem não se importa com nada.
Eu juntei coragem:
— Então você pode devolver para mim?
O olhar dele claramente se suavizou.
Mas a voz de Solange veio do outro lado da porta:
— Durval, o diretor pediu para eu revisar com você a última cena.
Durval me encarou por alguns segundos e soltou meu queixo:
— Agora é tarde. A atriz do papel já foi anunciada oficialmente. Trocar alguém de última hora vai prejudicá-la.
Senti um aperto no peito:
— Ah.
— Só isso? Um simples "ah"? — Ele franziu a testa. — Viviane, eu detesto quando você fica desse jeito.
Eu abaixei a cabeça:
— Desculpa.
Assim que pedi desculpas, a expressão de Durval se fechou ainda mais.
Solange empurrou a porta e entrou.
Ela usava o uniforme escolar do filme, com o rabo de cavalo preso bem alto. Parecia muito comigo quando eu estava começando na carreira artística.
— Viviane, você também está aqui? — Ela abraçou o roteiro, um pouco sem graça. — Durval disse que eu tenho a energia da protagonista quando era mais jovem. Você não vai ficar brava comigo por eu ter pegado o papel que era seu, vai?
Eu balancei a cabeça:
— Não vou.
No fundo, a culpa não era dela.
Afinal, tinha sido Durval quem decidira entregar o papel a ela.
Solange se sentou feliz ao lado de Durval.
Mas Durval não olhou para ela.
O olhar dele continuou preso em mim.
Quando eu já estava à porta, ele falou de repente:
— Você não vai embora esta noite. Solange não sabe fazer a cena de choro. Você vai ensiná-la.
Virei-me para ele:
— O diretor não pode ensinar?
Durval estreitou os olhos:
— Você não disse que queria esse papel? Então prove que você é mais adequada do que ela.
A esperança, que já estava por um fio, voltou a ganhar força com aquelas palavras.
Eu apertei meu roteiro antigo contra o peito:
— Está bem.
Só então Durval esboçou um leve sorriso:
— Assim está melhor.
Eu fiquei no set até as duas da manhã.
Quando Solange encerrou as filmagens, todos se reuniram ao redor dela para comemorar.
O diretor elogiou sua atuação na cena de choro e disse que ela havia se saído muito bem.
Durval ficou no centro do grupo e colocou pessoalmente o casaco sobre os ombros dela.
Ninguém sabia que eu, escondida atrás do monitor, havia ensinado a ela, inúmeras vezes, cada pausa e cada lágrima daquela cena.
Muito menos imaginavam que eu ainda era ingênua o bastante para acreditar que, se a ensinasse bem o suficiente, Durval me devolveria o papel.