Quando terminei de assinar o contrato, a pré-estreia ainda estava acontecendo.
Dalila guardou o contrato e ficou me encarando por um bom tempo:
— Se você quiser chorar, chore.
Eu balancei a cabeça:
— A maquiagem foi cara. Se eu borrar tudo chorando, a maquiadora ainda vai ter que retocar.
Dalila não riu. Ela estendeu os braços e me abraçou.
Naquele instante, quase perdi o controle. Mas, assim que as lágrimas ameaçaram cair, engoli o choro.
Quando eu era criança, meu pai sempre dizia que eu chorava por qualquer coisa. Eu chorava quando a linguiça estourava na brasa, quando tirava uma nota baixa na prova.
Ele ria de mim enquanto tirava do armário a maior linguiça assada que tinha guardado para mim.
"Pode chorar. Depois que acabar, você come uma linguiça que eu fiz, e o mundo não vai desabar por causa disso."
Depois que meu pai morreu, ninguém mais me consolou daquele jeito.
Com o tempo, aprendi a engolir as lágrimas.
Antes de deixar o local, fui aos bastidores.
Durval tinha uma cena importante para gravar no dia seguinte.
Quando se emocionava demais, ele costumava perder a precisão na dicção. Por isso, marquei algumas falas no roteiro para lembrá-lo de controlar a intensidade da interpretação.
Só restava meia caixa de pastilhas para a garganta.
Pedi ao assistente que comprasse mais duas caixas.
O assistente achou estranho:
— Viviane, a senhora não vem amanhã?
— Eu tenho uma coisa para resolver.
— E Durval?
Eu parei por um instante.
Todos pareciam acreditar que, sem mim, Durval ficaria em apuros.
Mas ele era um ator que já havia ganhado três prêmios de melhor ator.
Muito antes de me conhecer, ele já sabia cuidar da própria carreira.
— Lembre-o de comer na hora certa. Não deixe que ele tome café de estômago vazio. Depois das cenas na água, ele costuma ficar com dor de cabeça. Deixe café bem quente na garrafa térmica para ele.
Quanto mais o assistente ouvia, mais desconfiado ficava:
— Viviane, para onde a senhora vai?
Eu tirei o crachá do pescoço:
— Para casa.
— Para descansar alguns dias?
Eu não respondi.
Na verdade, o carrinho de linguiça da minha cidade já estava caindo aos pedaços. A estrutura de ferro estava enferrujada, e a placa tinha apodrecido de tanto pegar chuva.
Mas, no mês passado, um vizinho me mandou fotos.
O carrinho ainda estava no depósito.
Da placa com o nome Cantinho da Linguiça, só restava quase tudo: a palavra "da" era a única que havia caído.
Eu já tinha acertado tudo com um trabalhador.
Se trocássemos o fogareiro e déssemos uma nova pintura, talvez ele ainda pudesse ser usado.
Meu pai não viveu para me ver quitar a dívida. Mas o que ele havia deixado para mim ainda estava lá, à minha espera.
À meia-noite, Durval finalmente encerrou a pré-estreia.
Ele pediu ao motorista que levasse Solange de volta ao hotel e voltou sozinho para o set.
Às seis da manhã, ele teria uma cena na água para gravar.
Como de costume, eu deveria estar esperando no camarim particular dele.
Durval empurrou a porta e entrou.
Não havia ninguém ali.
Sobre a mesa, estavam o café quente, os remédios e duas caixas de pastilhas para a garganta.
A expressão dele suavizou um pouco:
— Ela ainda sabe voltar.
O assistente veio logo atrás, hesitante.
Durval abriu o roteiro.
As páginas estavam cheias de lembretes escritos por mim.
[Aqui, não abaixe a voz. O diretor quer que você mostre que não consegue abrir mão dela.]
[Depois da cena na água, não se esqueça de trocar de roupa.]
[O remédio para o estômago está na segunda gaveta.]
Na última página, também havia um bilhete colado.
Nele, havia apenas algumas palavras.
[Durval, foi um prazer trabalhar com você.]
Durval encarou o bilhete por alguns segundos.
Em seguida, arrancou-o da página:
— Onde está Viviane?
O assistente respondeu em voz baixa:
— Ela foi embora.
— Para onde?
— Ela não disse.
Durval recostou-se na cadeira e soltou uma risada fria:
— O que ela está aprontando agora? É por causa da versão comemorativa do filme?
O assistente não respondeu.
Durval jogou o roteiro sobre a mesa:
— Ligue para ela. Diga que ela precisa voltar amanhã de manhã. Eu não estou acostumado a trocar alguém de última hora.
O assistente ficou parado, sem se mexer:
— Durval, Viviane já não é mais artista da empresa.
A expressão arrogante de Durval finalmente vacilou:
— O que isso quer dizer?