Dolores ficou uma semana internada no hospital. Durante todo esse tempo, Caio não apareceu nem sequer ligou para saber como ela estava.
Clara estava ao lado dela, descascando uma maçã enquanto reclamava:
— Caio não merece nem ser chamado de marido. Você está certíssima em pedir o divórcio. Mas, pelo amor de Deus, não volte atrás dessa vez. Não vai me dizer que ainda pensa em se sacrificar por ele?
Dolores lembrou-se das inúmeras brigas que tiveram ao longo dos anos e de como, mesmo quando ela cogitou o divórcio, sempre acabava implorando perdão, ajoelhada aos pés de Caio. Pensar no passado fazia com que ela se sentisse uma completa idiota.
— Não. Isso nunca mais vai acontecer. Depois de tantos anos, até por um cachorro a gente cria afeto. Mas, no coração de Caio, acho que nem eu chego perto disso... Talvez eu seja menos importante para ele do que um cachorro.
Ao ouvir isso, Clara ficou visivelmente emocionada e respondeu com firmeza:
— Não pense assim. Você não precisa dele e, muito menos, ele merece isso. Homens têm aos montes por aí. O mundo não gira em torno de Caio.
No oitavo dia, Dolores teve alta e deixou o hospital. No entanto, só de pensar em voltar para aquela casa sufocante, ela sentiu uma pressão no peito.
Quando Dolores chegou em casa, assim que abriu a porta, foi recebida por um cheiro desagradável de comida estragada. O buquê de rosas, jogado no chão desde aquele dia, já estava completamente seco e murcho.
Dolores sabia onde Caio estava: ele havia levado Dulce para encontrar Sarah.
Era sempre assim. Depois de uma briga, ele gostava de usar esse tipo de tortura emocional contra ela.
Caio conhecia bem o amor profundo que Dolores sentia por ele e pela filha. Ele sabia que quanto mais ignorava Dolores, mais a fazia sofrer.
A imagem de Caio, com seu comportamento agressivo naquele dia, voltou à mente de Dolores. Ela percebeu que não reconhecia mais o homem com quem havia se casado. Ele parecia um completo estranho, alguém assustador.
O som de uma notificação no celular tirou Dolores de seus pensamentos. Ela pegou o aparelho e viu que era um vídeo enviado por Sarah.
No vídeo, Dulce aparecia comendo um grande sorvete, visivelmente satisfeita. A menina dizia com alegria:
— Tia Sarah, você não quer ser minha mãe? Aquela feiosa não me deixa comer nada que eu gosto. Só me dá aquelas que parecem comidas nojentas. Só de olhar já me dá ânsia. Você é muito melhor, me deixa comer o que eu quiser!
Dulce continuou falando:
— Quando ela vai nas reuniões escolares, se veste como uma mendiga. E ainda tem aquela cicatriz horrível no rosto. Eu morro de vergonha de dizer que ela é minha mãe. Eu prefiro falar para os meus colegas que ela é nossa empregada. Eu nunca vou querer uma mãe tão patética como ela!
No vídeo, Sarah aparecia sorrindo com um ar de satisfação, mas ainda lançou uma pergunta, fingindo humildade:
— Mas sua mãe deve ser muito melhor do que eu. Ela deve ter algo especial, ou seu pai não teria se casado com ela, né?
Dulce levantou o rosto com uma expressão de nojo e respondeu:
— Ela é só uma feiosa! Como ela poderia se comparar com você? Meu pai só se casou com ela por pena. Aquela cicatriz no rosto dela aconteceu porque ela tentou me salvar. Na verdade, teria sido melhor se o caixote tivesse caído e matado ela de vez. Assim, ela não estaria aqui enchendo o saco!
Dolores sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Mesmo depois de tudo, ela ainda tinha alguma esperança em Dulce. Mas ouvir essas palavras foi um golpe duro.
Tudo o que Dolores havia feito por Dulce, todo o amor e dedicação, eram tratados como uma piada.
Logo depois, Sarah enviou uma mensagem de texto:
[Seu marido e sua filha te desprezam. Com o que você acha que pode competir comigo?]
Dolores apagou a tela do celular sem responder. Ela respirou fundo e tomou uma decisão. Se estava mesmo disposta a deixar tudo para trás, não havia mais motivo para gastar suas lágrimas com quem não valia a pena.
Faltavam poucos dias para o acordo do divórcio ser oficializado.
Durante esse tempo, Dolores decidiu viajar com Clara para o Nordeste do Brasil. Lá, elas visitaram várias igrejas. Dolores sentiu que sua alma, tão pesada e cansada, finalmente estava sendo purificada.
Tudo aquilo que antes parecia tão importante agora parecia insignificante.
A viagem trouxe paz ao coração de Dolores. Pela primeira vez em anos, ela sentiu que sua vida tinha um propósito, um destino.
Durante esse tempo, Caio não entrou em contato com Dolores. Ela sabia que ele estava tentando puni-la de propósito, usando o silêncio para feri-la. Antes, isso teria funcionado. Dolores teria se sentido machucada, como se tivesse sido abandonada por todo o mundo.
Mas agora, o coração de Dolores estava calmo, sem qualquer turbulência. Ela já não se deixava abalar por Caio e Dulce. Para ela, eles não tinham mais importância.
Depois da viagem, Dolores voltou, mas não foi para casa. Em vez disso, ela decidiu ir a um restaurante mexicano. No passado, ela achava que sair para comer sozinha era algo solitário e deprimente. Agora, porém, ela estava aprendendo a gozar do seu próprio tempo.
Com um sorriso no rosto, Dolores aproveitava cada mordida dos tacos de sabores variados. Mas, ao olhar para uma mesa próxima, seu semblante mudou de repente.