Mundo de ficçãoIniciar sessãoNyla
Sinto minha pele ser esfolada durante o banho. Não há pudor ou constrangimento nas mulheres que me esfregam debaixo do chuveiro. Apagando quase que por completo a minha identidade como Nyla e me transformando na minha meia-irmã, Sybella.
“Qual é o seu nome?” meu pai pergunta.
Olho para com ódio. Usar minha mãe como moeda de troca é desprezível. Eu aguento as agressões, os xingamentos, o desprezo, mas a vida da minha mãe ultrapassa todos os limites que eu consigo suportar.
“Sybella Garden.” Respondo tremula.
“Sua voz ainda está vacilante, Sybella não vacila. De novo... Qual é o seu nome?”
Limpo a garganta, endireito os meus ombros e olho para meu pai com muito mais raiva.
“Sybella Garden, que inferno! Por acaso parece que eu bati minha cabeça?” digo com frieza.
Hallstein abre um pequeno sorriso convencido.
“Assim está melhor. E vocês...” Ele aponta para o grupo de mulheres que está à minha volta. “Se isso chegar aos ouvidos do povo da Montanha Solitária, eu irei matar cada uma de vocês e torturar até a morte cada uma das pessoas que vocês conhecem. Entenderam?”
Todas as mulheres concordam nervosas com a ameaça. Isso só me dá mais combustível para odiá-lo.
Quando finalmente as mulheres terminam de me arrumar, eu encaro o espelho sem me reconhecer por completo.
Nunca havia notado o quão parecida eu sou com Sybella até esse momento.
“Estou bonita...” murmuro, impressionada.
“Senhorita Sybella, você sempre foi bonita.” Uma das mulheres responde nervosa.
Respiro fundo, voltando à minha nova realidade. Ela tem razão, Sybella sempre foi bonita.
As horas escorregaram por mim e, quando eu menos imaginava, o horário da cerimônia chegou.
Meu pai cruza meu braço no dele, sei que é algo ritualístico de levar a filha até o altar, só que dessa vez sinto que é porque ele quer ter certeza de que não irei fugir.
“É bom você cumprir com o seu papel, Sybella...” ele murmura de forma ameaçadora. “Senão, você sabe quem vai pagar o preço.”
Meu coração martela minhas costelas e eu o encaro com a máscara que é ser a minha meia-irmã.
“Você vai pagar por isso, pode apostar.” Respondo com determinação.
Hallstein simplesmente abre um sorriso convencido em troca, sem acreditar na minha vontade de querer matá-lo.
Assim que chegamos ao corredor para o casamento, meus pensamentos ficam divididos por completo.
Ronan O’brien.
Meu coração dispara ao vê-lo parado no fim do corredor. O corpo todo ereto, ombros largos, os braços parecem ser definidos mesmo por debaixo da roupa elegante que ele veste. Os seus cabelos escuros estão cortados e bem alinhados, igual à sua barba recém-feita.
Nossos olhos se cruzam e eu noto um lampejo da sua testa franzir por um instante e seu olhar me avaliar por completo.
Ele sabe. Ele com certeza sabe que não sou a Sybella.
O caminho até ele parece gigante e meus pés pesam uma tonelada. O medo e a necessidade de convencer se misturam dentro de mim.
Meu pai me larga no altar, troca meias palavras com Ronan, que eu não consigo prestar atenção.
Observo Ronan respirar fundo, farejando o ar.
Ele já sabe.
Mesmo usando todos os perfumes e produtos que Sybella tem para me camuflar, ele provavelmente deve ter sentido o meu verdadeiro cheiro.
“Vamos iniciar essa cerimônia, sim?” O ancião diz de forma gentil, porém firme.
Aceno com a cabeça porque não confio em minha voz ainda.
“Eu, Ronan O’brien, prometo fidelidade à minha esposa.”
Seu olhar repousa em mim e nota o quão escuros eles são, tão profundos.
“Sua vez, senhorita,” o ancião ordena.
“Eu, Ny...” eu digo nervosa e logo me interrompo. Meu coração dispara novamente.
Ronan arqueia a sobrancelha por um instante, notando o meu deslize.
Limpo minha garganta e aperto meus dedos um no outro na frente do meu corpo, tentando controlar o desespero.
“Eu, Sybella Garden, prometo fidelidade a meu marido.”
“Pelo poder dado a mim pela nossa deusa da lua, eu consagro a união desses dois corações. Que a paz, a confiança e a lealdade se fortifiquem no casamento de vocês. Você pode beijar a noiva.”
Ronan se aproxima de forma tão calma que sinto que irei despencar em seus braços. Ele passa a mão pelo meu rosto, deslizando até meu pescoço, e seus lábios carnudos se encontram com os meus.
O beijo começa calmo, quase tímido. Até que sua língua avança em minha direção, abrindo espaço e tudo se encaixa de forma tão natural que eu esqueço praticamente tudo.
Minhas mãos vão na direção dos seus ombros, mas só porque eu preciso de um apoio para que eu não desmorone por completo.
Quando ele se afasta, percebo que preciso de ar. Ele tirou o meu fôlego de uma maneira que não acreditei ser possível.
Há uma onda de aplausos que me traz de volta à realidade, a mentira que agora preciso encenar.
Ronan se aproxima novamente de mim, mas agora seus lábios vão em direção à minha orelha, sua respiração próxima da minha pele me causa um arrepio involuntário.
“Você realmente não era quem eu estava esperando.” Ele sussurra ao pé do meu ouvido.







