Mundo de ficçãoIniciar sessãoRonan
Sybella Garden está diferente.
Percebo isso no momento em que a vejo pelo corredor.
Antes mesmo de qualquer palavra, antes mesmo de qualquer gesto mais evidente, algo já não se encaixa na memória que eu tenho dela.
O coração dela está batendo igual ao de um beija-flor. Apressado, descompassado, quase inquieto demais para alguém que, até então, sempre pareceu tão segura.
Seus ombros estão tensos, sua respiração pesada, como se cada passo exigisse mais esforço do que deveria.
Não era assim que eu lembrava dela nas duas vezes que nos encontramos.
Sybella foi muito prepotente quando nos conhecemos e ainda mais desdenhosa na segunda vez.
Havia firmeza nos movimentos, uma confiança quase irritante na forma como me encarava, como se nada ao redor fosse capaz de abalá-la.
O cheiro também está diferente. Há alguma coisa errada, tenho quase certeza disso. Não é apenas uma mudança sutil, é algo que destoa, que não combina com a imagem que ficou gravada em mim.
Olho ao redor, farejando algo que esteja fora do lugar, não só a minha futura esposa. Meus sentidos se estendem pelo ambiente, atentos a qualquer detalhe que confirme essa sensação incômoda.
Meus soldados estão nos seus devidos lugares. Meu pai, o alfa Garrick, também se encontra na primeira fileira, com o olhar tão atento quanto o meu.
Será que ele também notou essa sutil mudança?
Acredito que não. Se tivesse, já teria se levantado e impedido essa cerimônia de acontecer. Ele não deixaria passar uma oportunidade de transformar isso em vantagem.
Meu pai está com sede de sangue, por mais poder. Ele quer tanto que esse casamento falhe para poder declarar a guerra que eu me sinto compelido a ficar calado.
Não vou entregar o que ele mais deseja. Mais nenhum sangue será derramado pela sua ganância. Já basta o sangue de minha mãe e de meu irmão mais novo que meu pai matou para conseguir mais poder.
Afasto de mim a melancolia das suas mortes. Preciso me manter focado no que está na minha frente agora e isso é Sybella Garden.
Para alguém que se mostrou ser tão cheia de si, tão à vontade em ser a herdeira da alcateia Ventos do Norte, houve uma timidez inesperada quando nos beijamos. Um contraste que não faz sentido.
Quase senti que foi o seu primeiro beijo. A hesitação, a forma como ela demorou a reagir, como se não soubesse exatamente o que fazer.
Quando suas mãos pousaram em meu corpo, pensei que ela iria me afastar, agir com repulsa, igual fez na segunda vez que nos encontramos.
Esperei resistência, desprezo, qualquer coisa que fosse coerente com quem ela demonstrou ser.
Mas isso não aconteceu.
Olho para ela e tento encontrar o que mudou. Tento encaixar essa versão diante de mim com a mulher que eu conheci, mas as peças não se alinham e é exatamente isso que mais me incomoda.
***
Sybella tem um tique nervoso. Ela sempre aperta os próprios dedos das mãos com força, como se tentasse conter algo que ameaça escapar.
Isso não aconteceu nas outras duas vezes que nos vimos, o que só torna tudo ainda mais curioso, ainda mais suspeito.
É oficial agora, somos casados. Qual é o motivo do nervosismo?
Estamos sentados um ao lado do outro, o banquete da nossa cerimônia já está começando.
O salão está cheio, vozes se misturam em um burburinho constante, risadas calculadas, olhares atentos. Todos observando, todos esperando algo de nós.
Noto o olhar da Sybella em direção aos garçons que chegam em nossa mesa e, em seguida, de forma baixa e sutil, ouço o som da sua barriga roncar.
É quase imperceptível, mas não o suficiente para passar despercebido por mim.
Nossos olhos se cruzam, há um constrangimento nos dela.
Seus ombros voltam a ficar mais tensos e ela desvia o olhar quando o primeiro prato é posto à sua frente, como se aquele simples gesto fosse uma exposição.
Um tremor em seus dedos é visível de relance quando ela pega o garfo para provar a comida. Pequeno, mas revelador. Difícil de ignorar.
Essa mulher fez jejum intermitente para caber no vestido? Ela já é magra, bem mais magra do que eu me recordava. Agora, de perto, isso é ainda mais evidente, quase preocupante
É possível notar o quanto ela saboreia a comida, como se não comesse algo há dias.
Alguns nobres da minha alcateia se aproximam para nos parabenizar. Sybella é atenciosa e educada, responde tudo com uma suavidade bem ensaiada.
Talvez esse casamento dure o um ano necessário para que o Tratado de Alcateias se firme. Se Sybella desempenhar seu papel como esposa-refém direito, nós dois podemos sair disso ilesos. Sem escândalos. Sem sangue.
Tenho um ano para conseguir tirar o meu pai do poder e ter minha vingança.
A questão toda é que parece que Sybella Garden já está desempenhando um papel, um que eu estou intrigado para descobrir.
“A comida está boa, esposa?” pergunto de forma gentil.
Sybella quase engasga ao ouvir minha voz.
Seu olhar fica agitado e novamente ela levanta o muro de tensão em seus ombros, como se precisasse se proteger até de uma simples pergunta.
Uma máscara recai em seu rosto e sua expressão é similar à que eu me lembrava dos nossos breves encontros.
“Um pouco sem sal, mas é palatável, esposo.” Ela responde com frieza e desdém.
Ela solta o garfo no prato e empurra um pouco para longe, como se quisesse manter distância não só da comida, mas de qualquer coisa que a exponha.
“Bem, vamos torcer para que em sua futura casa os alimentos fiquem de seu agrado.”
“Improvável, mas que a deusa da lua seja generosa,” Sybella rebate.
Suas palavras são de desgosto, de frieza e tensão. Mas o seu coração, a sua respiração, demonstra coisas totalmente diferentes.
Coloco a minha mão em cima da sua, há um pequeno sobressalto vindo dela e sinto apenas a quentura do seu corpo e a desconfiança se alastrando sob a pele. Ela não puxa a mão, mas também não relaxa.
Me aproximo novamente da sua orelha, sabendo o que isso causa nela, consciente da forma como sua respiração muda.
“Que a deusa da lua seja generosa o suficiente para que você consiga manter esse papel fingido, esposa, antes que eu descubra o verdadeiro.”







