Capítulo 3
Quando chegamos à Mansão Serena, da família Marinho, a mãe do Flávio, Helena Marinho, já estava do lado de fora, esperando ansiosa.

Kayra desceu do carro primeiro.

Ela correu até a Helena, enlaçou o braço dela e começou a fazer charme:

— Professora Helena! Por que a senhora veio pessoalmente me receber? Vamos logo para dentro.

A Helena sorriu com aquele ar de mãe carinhosa:

— Eu coloquei você para trabalhar com o Flávio e acabei te deixando numa situação complicada. Aquele menino tem um gênio bem esquisito.

A Kayra olhou de relance para o Flávio, que estava ali perto, com um sorriso suave nos lábios. As orelhas dela ficaram vermelhas na hora:

— O Professor Marinho é ótimo. Eu não estou passando aperto nenhum.

As duas continuaram conversando enquanto iam entrando.

A Helena já tinha andado uns cinco metros quando pareceu lembrar de alguma coisa. Ela se virou, e o olhar que ela lançou para mim já vinha bem mais distante:

— Ah, Rita, seja bem-vinda. Entra, está frio aqui fora.

Ela falou só isso, de forma protocolar.

O Flávio se aproximou de mim, baixou os olhos e franziu a testa:

— Você está de mau humor?

— Não.

Eu só me sentia… em paz. Como se tudo finalmente fizesse sentido.

Ele apertou os lábios:

— Se é algum problema no seu trabalho, quero que você não traga esse tipo de coisa para dentro de casa. Não quero chegar e encontrar alguém com cara amarrada o tempo inteiro.

A minha mão, que estava solta ao lado do corpo, se fechou de repente. A palma chegou a doer. Tudo aquilo me pareceu tão absurdo. Por um instante, eu ainda tinha alimentado a ideia idiota de que ele talvez percebesse o meu estado de espírito.

Eu parei, de frente para ele. O sentimento que eu ainda tinha no olhar se diluiu, dando lugar a uma calma seca.

— Eu estou de mau humor, sim, e eu vou ficar como eu bem entender. Se você não gosta de me ver assim, é só não olhar. Eu não sou sua empregada para ter que me moldar o tempo todo às suas exigências.

A linha da boca do Flávio ficou rígida, a irritação estampada no rosto:

— Rita, você é uma adulta. Nós estamos prestes a casar. Eu não quero que você seja alguém dominada pelas próprias emoções o tempo inteiro.

Eu soltei uma risada curta:

— E quem é que, na sua cabeça, se encaixa tão bem assim nas suas exigências?

Ele fez um silêncio que fingia reflexão, mas eu sabia que a resposta já estava pronta dentro dele.

— Não importa quem. A minha esposa sempre vai ser você. Mas eu acho que você podia aprender com a Kayra. Ela sabe lidar muito bem com as próprias emoções, entendeu?

Eu encarei o rosto dele por dois segundos. No final, eu sorri de leve:

— Está bom.

Na hora do jantar, a Helena puxou a Kayra e o Flávio para se sentarem um de cada lado dela.

Eu, por instinto, fui procurar um lugar onde eu não atrapalhasse aquela formação perfeita.

Só depois que eu me sentei eu percebi que, na mesa inteira, não tinha um prato sequer que eu realmente gostasse.

A Helena se desmanchava em risos enquanto conversava com os dois, enchendo o prato da Kayra o tempo todo:

— Olha como você está magra. Quem trabalha com pesquisa também precisa cuidar do corpo. Tudo isso aqui foi o Flávio que pediu para eu preparar, são justamente as coisas de que você mais gosta.

A Kayra sorriu, tímida:

— Muito obrigada.

A Helena fez uma pequena pausa, lançou um olhar meio sem graça para mim e esticou o canto da boca num sorriso protocolar:

— Rita, eu nem sei do que você gosta. Come o que tiver aí mesmo.

O Flávio colocou um pedaço de abacaxi assado no meu prato:

— Da próxima vez, você me fala com antecedência o que gosta de comer, que eu peço para a cozinheira preparar. É que você também não tem nenhuma preferência específica. Já a Kayra gosta de churrasco agridoce, de abacaxi grelhado, dessas costelas ao molho barbecue.

Eu baixei os olhos e fiquei encarando, por um instante, o pedaço de abacaxi que me dava alergia.

Cinco anos juntos. O que eu gostava ou deixava de gostar ainda era um mistério que eu precisava anunciar para ele, se quisesse que ele soubesse.

Ele conhecia todos os detalhes dos gostos da Kayra…

Parecia que tudo, naquela mesa, estava escancarando a minha derrota.

Nesse momento, o meu celular vibrou com aquele som de notificação. Era a mensagem do meu chefe com os dados da minha passagem. O voo seria às oito da manhã do dia seguinte.

O meu coração se aquietou de vez. Eu senti a libertação chegar como um sopro de ar fresco.

Eu não comi absolutamente nada durante aquele jantar, e o Flávio nem percebeu.

Eu só cumpri o papel de espectadora, observando em silêncio a harmonia perfeita entre os três.

Eu não tinha espaço naquela cena. E, mais importante ainda: eu não queria mais ter.

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