Capítulo 2
No caminho de volta para casa, eu recebi uma ligação do meu chefe.

Ele pediu para eu passar na Faculdade de Letras da Universidade Central de Brasília e buscar uns documentos para ele.

Quando a ligação terminou, eu soltei um suspiro. Justo agora que eu queria cortar todos os laços com o Flávio, o destino fazia questão de lembrar que ele era professor exatamente na Faculdade de Letras da Universidade Central de Brasília.

Quando eu cheguei ao prédio da Faculdade de Letras, era justamente o horário de maior movimento nos corredores.

Não foi difícil ouvir os comentários pelos corredores.

— Eu ralei muito para conseguir vaga nessa disciplina do Professor Marinho! A aula dele é concorridíssima.

— Pois é, as meninas vêm todas por causa do Professor Marinho, e a maioria dos caras por causa da Professora Kayra. Fala a verdade, os dois formam um casal perfeito.

Os meus passos foram ficando cada vez mais lentos. Um gosto amargo subiu pela minha garganta de repente.

Depois de cinco anos juntos, eu nunca tinha aparecido abertamente no círculo social do Flávio. Na época em que o nosso namoro estava mais intenso, eu me lembro de ter feito charme, pedindo para ele me apresentar para todo mundo, e até para colocar uma foto minha fixada no topo do Instagram.

Mas o Flávio, esse professor metódico e impecável da Faculdade de Letras, sempre falava comigo como se eu fosse uma adolescente mimada. Ele franzia a testa e me "educava":

— Rita Varela, seja mais madura. Você não é uma menininha de quinze anos começando a namorar agora. Para com essas bobagens. Isso não combina com a minha posição.

Naquele dia, eu fiquei sem reação. Depois disso, nunca mais toquei no assunto.

Ao meu redor, as meninas continuavam tagarelando sobre as fofocas do Flávio e da Kayra.

— Falando sério, no site oficial da universidade consta que o Professor Marinho é casado. Eu tenho certeza de que a esposa dele é a Professora Kayra! Não é possível que ninguém nunca tenha visto a mulher dele.

— Claro que é. Um homem sério como ele só sorri para a Professora Kayra.

As duas foram se afastando pelo corredor.

Eu fui diminuindo o passo até parar perto da parede. Todas as mágoas que eu tinha empurrado para o fundo do peito voltaram de uma vez.

Eu respirei fundo. Pelo menos eu tinha um plano de saída. Em três dias, tudo aquilo ia ficar para trás.

Depois de pegar os documentos para o meu chefe, eu estava passando em frente à segunda sala dos professores quando ouvi uma voz conhecida, num tom descontraído e brincalhão:

— Prova isso aqui, está muito bom!

Pelo vão da porta, vi a Kayra e o Flávio tomando café da manhã juntos. A Kayra, de forma natural, aproximou o copo de leite dos lábios dele.

O Flávio, porém, não gostava de leite.

Antes, quando eu tentava dar leite para ele desse jeito, ele fechava a cara, se levantava e saía, me deixando sozinha em casa, chorando. Agora, ele só franziu levemente as sobrancelhas. Depois de Kayra insistir algumas vezes, ele suspirou, acabou cedendo e assumiu aquela expressão de homem completamente rendido aos encantos dela. E tomou o leite.

Os olhos grandes da Kayra piscaram várias vezes:

— E aí? Gostou?

O Flávio inclinou a cabeça:

— Está bom.

Eu não consegui evitar rir de mim mesma.

Em todos os momentos em que eu não estava por perto, o Flávio conseguia ser assim: paciente, gentil, disposto a ceder.

E eu, em cinco anos, nunca tinha visto esse lado dele.

Nem uma vez sequer...

Dentro da sala, o Flávio pegou um guardanapo e, num gesto automático, limpou os farelos no canto da boca da Kayra. Depois, perguntou baixinho:

— Você dormiu bem ontem?

— Muito bem. — A Kayra sorriu. — Você sabe, enquanto eu consigo falar com você pelo telefone, durmo tranquila.

Ela pareceu lembrar de outra coisa:

— Só que eu ouvi dizer que você não atende mais o celular depois das nove. Será que eu atrapalho você?

O Flávio respondeu sem pensar:

— Você é a exceção.

Aquela frase, tão curta, me atravessou como um espinho, apertando o peito até me faltar o ar.

Quando eu ouvi da boca dele, de forma tão clara, aquilo que eu sempre tinha sentido, a dor aguda daqueles primeiros segundos foi aos poucos se transformando em um vazio anestesiado.

Há feridas que doem muito quando são abertas, mas, depois que o tempo passa, até a dor acaba virando cicatriz.

Eu encostei as costas na parede e fiquei ali até conseguir apagar qualquer traço de emoção dos meus olhos.

Então eu saí dali.

Quando eu cheguei em casa, peguei a mala e comecei a guardar as minhas coisas, item por item.

No fim, o lugar em que eu tinha morado por cinco anos não encheu nem uma mala inteira.

À noite, o Flávio me ligou:

— Se arruma e desce. Hoje a gente vai jantar na casa da minha mãe.

Eu respondi com um simples:

— Está bem.

Quando eu vi o Maybach parado na rua, eu automaticamente fui até a porta do carona e puxei a maçaneta. Mas a Kayra já estava ali, sentada, comendo um pastel de nata.

— Oi, Rita.

O meu olhar bateu direto nas migalhas espalhadas no banco. O meu primeiro reflexo foi procurar a reação do Flávio.

Ele detestava que comessem dentro do carro. Nem eu podia comer ali. Mas, naquele momento, ele estava tranquilo, como se aquilo fosse absolutamente normal.

Foi aí que eu me lembrei: a Kayra era a exceção na vida dele.

A Kayra se apressou em limpar os lábios e ajeitar o banco:

— Eu vou sentar atrás, é melhor...

Eu sorri, calma:

— Não tem problema. Fica aí. É só um lugar.

Eu abri a porta de trás e, ao fazer isso, vi, por um instante, a confusão nos olhos do Flávio.

Situações parecidas já tinham acontecido antes, mas o final era sempre o mesmo: ele perdia a paciência e me cortava com uma frase seca:

— Rita, é só um lugar. Não faz drama por coisa pequena.

Enquanto a chuva fina marcava o vidro da janela, eu percebi que já não sentia mais aquela tristeza esmagadora de antes. A minha serenidade me surpreendia.

Era só um lugar. Era só uma pessoa.

Para mim, naquele momento, dava na mesma: era algo que eu podia simplesmente deixar para trás.

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