Capítulo 4
No caminho de volta para casa, a Kayra continuou sentada no banco da frente. O Flávio ia deixar a Kayra em casa primeiro. Eu estava no banco de trás, resolvendo pelo celular os últimos detalhes do aluguel do meu futuro apartamento na França diretamente com o proprietário.

— Vem sentar aqui na frente.

O Flávio falou do nada.

Eu nem levantei a cabeça:

— Não precisa.

Ele ficou em silêncio por dois segundos:

— Faz como você quiser.

Eu não dei atenção. A cada foto que o dono do apartamento me mandava, eu ficava mais satisfeita com a luz, com o espaço, com as janelas abertas. Fechei negócio na hora e paguei o sinal.

Quando nós chegamos em casa, ele tirou um álbum da pasta e veio até mim:

— Dá uma olhada.

Eu peguei, curiosa, e percebi que era o nosso álbum de fotos de casamento.

— Escolhe logo uma. — Ele disse. — Falta só um mês para o casamento, e o pessoal da equipe precisa se organizar com antecedência.

Ele apontou para um vestido de noiva coberto por flores de cerejeira em relevo:

— Eu acho esse aqui muito bom.

Um traço de desprezo passou pelos meus olhos.

Flores de cerejeira. Kayra.

Ele conseguia pensar nela em absolutamente tudo.

Antes, eu teria feito uma cena. Agora, eu só assenti, tranquila:

— Ok. Pode ser esse.

De qualquer forma, eu ia embora em dois dias. Daqui a um mês, quando a tal cerimônia acontecesse, aquilo já não teria nada a ver comigo.

O Flávio pareceu particularmente satisfeito com a minha "docilidade". Como se estivesse me premiando, ele encostou os lábios na minha testa:

— Meu amor, é assim que eu gosto de ver você. Eu não suporto aquela cara fechada que você fez de dia. Não quero ver aquilo de novo, entendeu?

Quando terminou de falar, ele foi direto para o banheiro.

Eu peguei um lenço umedecido e passei na testa, esfregando-a até a pele ficar vermelha. Só então eu parei.

Às nove da noite em ponto, o Flávio apagou a luz e se deitou, como sempre. O celular ficou virado para baixo, o fone de ouvido Bluetooth encaixado na orelha direita. Ele parecia não ter notado a penteadeira vazia, o banheiro esvaziado. Também não reparou na mala encostada do meu lado da cama.

Fora a Kayra, ele parecia indiferente a qualquer pessoa.

No meio da madrugada, um grito agudo me arrancou do sono.

O Flávio, ao meu lado, também se levantou de supetão, sentando na cama. Ele ficou tão desnorteado que gritou no fone, com a voz trêmula:

— Kayra? O que aconteceu com você?

No silêncio da noite, eu ouvi o choro dela do outro lado da linha, sem parar.

O Flávio, que sempre se orgulhava de ser imperturbável, não tinha mais condição de ficar ali. Ele pulou da cama e saiu correndo de casa.

Regra de não atender celular depois das nove, rotina de sono impecável… na frente da Kayra, tudo isso desaparecia sem discussão.

Eu não tinha como sair atrás dele, mas também não consegui voltar a dormir.

Por puro tédio, eu comecei a mexer no celular.

Foi quando eu vi, na rede interna da Universidade Central de Brasília, a notícia que estava tomando conta de tudo:

[Um tarado invadiu o prédio dos professores. Parece que aconteceu alguma coisa com a Kayra, da Faculdade de Letras!]

[Fiquem tranquilos, ainda não aconteceu nada! Eu estou transmitindo ao vivo. O cara estava se escorando na janela da Kayra, quase arrombando a porta, quando o Flávio apareceu!]

[A cara do Flávio dá medo. Ele está igual a um bicho enfurecido, espancando o tarado sem parar!]

[A polícia chegou.]

Eu fui lendo tudo em silêncio. Cada frase vinha acompanhada de foto e, naquela madrugada fria e escura, as imagens pareciam agulhas cravando-se nos meus olhos.

Depois começaram a subir vídeos. Eu abri um deles. Era exatamente como os comentários descreviam: o homem que vivia segundo regras rígidas estava completamente fora de si, desferindo socos um atrás do outro no mascarado.

Só parou quando a polícia interveio. Em seguida, ele se virou e apertou a Kayra nos braços, escondendo o rosto dela contra o peito, sem deixar que ela visse o sangue.

— Não precisa ter medo. Eu estou aqui.

O vídeo voou para os assuntos mais comentados. Todo mundo exaltava o "marido apaixonado" e dizia que não existia nada mais atraente do que um homem assim.

Eu assisti por um bom tempo. Entrei no comentário mais curtido, aquele em que pediam para eles se casarem logo, e dei um like. Depois fechei o celular com uma calma estranha.

Naquela noite, o Flávio não voltou para casa, como era de se esperar. Eu não me surpreendi nem um pouco.

Dormi sem sonhos até as seis da manhã. Peguei a mala já pronta, conferi os documentos, dei uma última olhada no álbum de fotos do casamento em cima da mesa e deixei as chaves na entrada. Saí sem olhar para trás.

No aeroporto, eu fixei no meu Instagram o post em que anunciava o fim do nosso noivado. Em seguida, embarquei.

Quando o avião deixou o chão, eu e o Flávio rompemos, de uma vez por todas, o último vínculo que ainda existia entre nós.

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