Mundo de ficçãoIniciar sessãoNa véspera do baile de formatura do ensino médio, Rafael me levou para a cama. Ele foi bruto, exigente, e me tomou por uma noite inteira. Apesar da dor, meu coração estava cheio de doçura. Eu era apaixonada por Rafael há dez anos, finalmente, meu sonho estava se realizando. Ele disse que assim que se formasse, iria se casar comigo. Prometeu que, quando herdasse os negócios da família Oliveira, eu me tornaria a mulher mais respeitada do clã. Na manhã seguinte, Rafael me abraçava quando contou ao meu irmão adotivo que estávamos juntos. Encolhida no colo dele, com as bochechas coradas, me sentia a mulher mais feliz do mundo. Mas, de repente, eles mudaram o idioma da conversa, começaram a falar em italiano. Lucas, meu irmão adotivo, provocou Rafael: — Não esperava menos do nosso dono da porra toda... A garota mais bonita da turma se oferecendo logo na primeira vez. E aí, o gosto da minha irmãzinha é bom? Rafael respondeu com desdém, sem nem me olhar: — Por fora, parece pura. Mas na cama, é uma fogueira. O riso escapou no ar. — Então agora eu a chamo de irmã ou de cunhada? Rafael franziu a testa. — Cunhada? Que nada. Quero mesmo é ficar com a musa da escola, mas tenho medo que ela ache que eu não sou bom o bastante. A Beatriz foi só um treino. O que rolou entre mim e ela... Não conta pra Juliana, hein? Não quero que ela fique chateada. O que eles não sabiam... Era que, por amar Rafael, eu já havia aprendido italiano em segredo, só pra um dia poder acompanhá-lo em tudo. Depois de ouvir aquilo, não disse uma palavra. Apenas mudei silenciosamente minha inscrição na universidade: troquei o Instituto Federal de Tecnologia do Sul do Rio pelo Instituto Tecnológico de São Paulo.
Ler mais“ — Se não consegue enxergar a imensidão do meu amor, se não consegue ler em meus olhos o quão forte são meus sentimentos por você, então, sinto muito em te dizer isso, mas és um completo babaca.”
(Perdidos no amor, Violet Monteiro) ***01 — Sinto muito, Zoe. Acabou. — Mas... — Não concluí a frase, não sabia o que dizer. As lágrimas ensoparam meus olhos e meu estômago embrulhou de repente.Tudo bem que a coisa toda era recente, eu e Pedro estávamos juntos há seis meses apenas, mas, poxa vida, eu iria apresentá-lo para minha família, no dia dos namorados, dia em que minha adorável prima resolvera se casar.Veja bem, eu não a odiava, mas ela sempre dava um jeito de desdenhar de mim.Anelise era uma mulher independente, bem-sucedida na área profissional (dona de uma confeitaria renomada), e agora, no âmbito amoroso também, já que Vicente, seu noivo e futuro marido, era um verdadeiro príncipe.Pelo menos era isso que minha mãe me dizia toda vez que ligava para mim.E eu?Eu estava desempregada — houve cortes no hotel em que eu trabalhei por três anos como operadora de caixa —, vivendo do meu seguro-desemprego, e agora levando um belo dum pé na bunda.Deus, por quê?! — Desculpa, Zoe. Você é uma mulher bacana, vai encontrar alguém que te ame como... — Como você não me amou — eu o interrompi, magoada, ferida e, sei lá, bastante chateada também. — Podemos ser amigos.Eu o encarei, e a vontade era de rir de desespero.Pedro era um cara bonito, tinha os olhos castanho-claro, os cabelos escuros, a pele negra (um pouco mais escura que a minha) e o corpo sarado.Era apenas alguns meses mais novo que eu. Fiz vinte e quatro anos em Fevereiro e ele completará em Setembro, dia 25.Éramos bons juntos, por isso eu não entendia o motivo do término. Na verdade, eu achava isso injusto pra caramba. — Vá se ferrar, Pedro! — Vociferei, empurrando-o. — A última coisa que quero é ser sua amiga! Adeus.E dito isso entrei em casa e bati a porta com força. Não esperei por resposta nenhuma, deitei em minha cama e deixei o choro vir.O que eu faria da minha vida de agora em diante?Deus, o que eu faria?Acordei com safanões e assobios. Os raios de sol incidiam pelas cortinas, obstruindo minha visão. — Achei que ia ter que te jogar um balde de água gelada — Clara falou, sentando-se na beirada da cama. — Você não devia estar no trabalho? — Perguntei, me espreguiçando. — Tenho que ir ao dentista daqui a meia hora. Pedro me ligou, disse pra eu vir aqui cuidar de você. O que aconteceu?Pedro.Meu ex-namorado.Que grande merda! — Ele terminou comigo — respondi, tentando fingir que não me importava com aquilo. — Mas por quê? — Ah, Clara, o mesmo papo clichê de sempre. “Não é você, sou eu.”, “ Você vai encontrar uma pessoa melhor”, e blá, blá, blá. — Que cretino!Desviei o olhar. Não queria falar daquele assunto, doía demais. — Tá tudo bem — menti.Clara segurou firme minha mão, criando um contraste entre nossas cores. Enquanto ela era branquíssima, eu tinha a pele preta, um pouco retinta.A diferença não parava por aí.Clara tinha os cabelos longos, lisos e loiros, olhos cor-de-mel e lábios finos. Já eu estava em processo de transição capilar, de modo que optei por usar tranças longas e alaranjadas. Meus olhos eram pretos e minha boca; carnuda.Clara fazia o tipo magrinha, enquanto eu sempre tive o corpo curvilíneo. — Você precisa de um porre — disse minha melhor e única amiga —, vou cuidar de você. Mas agora eu realmente tenho que ir, se precisar de mim é só ligar.Clara levantou-se, deu um beijo em minha bochecha e saiu, toda arrumada e perfumada, para ir ao dentista.Sorri.Ela e suas paixões platônicas.Da última vez cismou que seu mecânico era um bom partido, até descobrir que o cara era casado.Soltei um suspiro.Honestamente, eu não sentia a menor vontade de sair da cama. Eu precisava urgentemente de um emprego, seria mais fácil para superar o término.Talvez eu lesse um livro de autoajuda ou algo do tipo.A muito custo, me levantei.Lavei o rosto, escovei os dentes, ajeitei minhas tranças e saí direto para a cozinha, ainda enfiada em meu pijama de estrelinhas.Quando eu estava sentada no sofá, depois de ter devorado uma pratada de cuscuz com ovo e café com leite, minha campainha tocou.Me arrastei até a porta, abri, e lá estava ela. — Querida, você está com olheiras — foi dizendo, já entrando em minha casa.Revirei os olhos. — Bom dia pra você também, mãe — ironizei, fechando a porta e seguindo-a.Dona Augusta foi andando, analisando tudo, como se estivesse avaliando um imóvel que, certamente, não compraria de jeito nenhum.Tudo bem que minha casa não era lá grandes coisas.Sala, banheiro, cozinha americana, dois quartos, alguns quadros minimalistas, TV de plasma, paredes pintadas (por mim!) em tom de pastel, e só.Mas era meu lar, e eu gostava bastante dele.Bastante mesmo. — Então — comecei, cautelosa —, a que devo a honra de sua visita?Minha mãe jogou a bolsa Channel falsificada no sofá e sentou-se, cuidadosamente.Ela sempre foi muito pomposa, tinha a pele da mesma cor que a minha, os cabelos pretos alisados e o corpo robusto.Se pudesse só usava roupas de grife, mas se contentava com as falsificações que encontrava em Camelôs.Hoje vestia um conjunto de blusa e saia verde-limão, que ganhou de meu pai em seu aniversário retrasado, quando ele ainda estava entre nós.Ah, pai, como sinto sua falta!— Bem, estava passeando por perto, pensei em vir te ver. Você não sente minha falta, mas eu sinto a sua.E lá vamos nós para o momento drama do dia. — Claro que sinto — falei, indo até a cozinha e abrindo a geladeira. — Suco...? — Com adoçante — respondeu minha mãe.Enchi o copo de suco de maracujá, pinguei algumas gotas de adoçante e voltei para a sala. Entreguei para ela e me sentei ao seu lado.Respirei fundo. — Sério, mãe, por que veio aqui? — Quero saber de você, Zoe — disse, bebericando o suco e depositando o copo em cima da mesinha de centro. — Ainda está desempregada? Quando vou conhecer seu namorado? — Estou tentando achar um trampo, mas não tá fácil. — Você não respondeu minha outra pergunta, mas não precisa, eu sei que no momento certo irei conhecer esse rapaz. Pelo amor de Deus, Zoe, me diz que ele não é metido com drogas. — Mãe, por favor! — Só quero seu bem. Amanhã sua tia Marta vai fazer um almoço em comemoração ao casamento da Anelise, me diz que vai, querida.Pronto, aí estava o motivo da sua visita.Não era por saudade coisa nenhuma, minha mãe queria (e iria) competir com a irmã.Típico das duas fazer isso, e era tão, mas tão, ridículo. — Vou — assegurei —, posso levar a Clara? — Pode, é claro. Agora preciso ir, irei fazer compras. — Mais compras? — Perguntei embasbacada.Ela simplesmente deu de ombros. — Não quero que sua tia pense que somos pobres. — Mãe, mas nós somos pobres! Olha pra mim, eu tô vivendo de seguro-desemprego, se meu pai não tivesse me dado essa casa, eu já estaria no olho da rua. — Deixa de bobagem — falou, erguendo meu queixo —, sempre tem minha casa para voltar.Já não é meu lugar. — Precisa ver sua prima, Zoe, está com a vida ganha. Noivo rico e gentil, emprego dos sonhos. Anelise subiu na vida, soube aproveitar. É uma pena que você não tenha sequer tentado.Engoli em seco. — Eu te acompanho até a porta — e dei a conversa por encerrado.Quando minha mãe saiu, me joguei no sofá e chorei.Chorei porque eu não era — e nunca seria — como minha prima. Porque meu pai, o cara que sempre acreditou em mim, perdeu a vida por causa de um maldito câncer. Chorei porque, para minha mãe, eu nunca seria boa o suficiente.E por fim, porque, além de desempregada, eu tinha acabado de sair de um relacionamento que eu acreditava que duraria para sempre.Quando foi que minha vida virou esse inferno?Ah, que se dane a dieta, eu merecia uma panela bem cheia de brigadeiro.Ao que parecia, Rafael não tinha levado minhas palavras a sério.Nos dias seguintes, comecei a vê-lo por toda parte.Cheguei a suspeitar que ele estivesse me seguindo.Mas eu não queria vê-lo. Recusei todos os convites que ele me fez. Até os presentes, devolvi todos, sem sequer abrir.Foi nessa época que eu e Bruno oficializamos nosso namoro.Bruno passou a demonstrar um forte ressentimento em relação ao Rafael.Sempre que o via, ele me puxava pra longe, deixando clara a irritação, o ciúme... E o quanto queria me ter só pra ele.Até que, um dia, Rafael emboscou Bruno do lado de fora do campus e o agrediu.Foi aí que eu finalmente perdi a paciência e decidi procurar o Rafael pra colocar tudo em pratos limpos.Eu simplesmente não conseguia entender. Foi ele mesmo quem, lá atrás, disse que não queria ficar só comigo, que queria aproveitar, conhecer outras.E agora, vinha bancar o arrependido? Interferindo na minha vida?Quando deixei claro o motivo da minha visita, Rafael perdeu o control
Na noite de Natal, Rafael apareceu batendo na porta da minha casa.— Meus pais viajaram... Este ano vou passar o Natal sozinho. Posso ficar com vocês?Ele perguntou com educação, e meus pais não quiseram ser indelicados. Convidaram-no para entrar.Rafael se sentou ao meu lado como se fosse a coisa mais natural do mundo.Pensei em trocar de lugar, mas isso seria óbvio demais. Então fiquei onde estava.Minha tia, que veio passar a noite conosco, nem imaginava que eu e Rafael estávamos afastados. Continuava brincando com a gente como nos velhos tempos.Rafael parecia à vontade, sorrindo, conversando com todos.Mas à medida que eu respondia cada brincadeira com um sorriso leve e uma explicação serena, seu rosto foi se fechando, pouco a pouco.Mais tarde, quando todos já tinham ido dormir, me levantei para ir ao meu quarto. Mas Rafael me segurou pelo pulso.— Tá com tanta pressa assim de deixar claro que não tem mais nada entre nós?Inclinei a cabeça, fingindo surpresa.— E tem?Essa pergun
Desde o dia em que Rafael disse que nunca me perdoaria, eu nunca mais o vi.A Iva me mandou um post no Instagram em que ele e a Juliana oficializavam o namoro.Olhei por um segundo e apaguei na hora.O que ainda me importava uma pessoa que já não fazia parte da minha vida?Pedi pra Iva que não me enviasse mais nada sobre o Rafael. Nenhuma notícia, nenhuma foto, nenhum comentário.Achei que nunca mais cruzaria com ele.Mas, no dia em que fui viajar para começar a faculdade, tive o azar de topar justamente com Rafael e Juliana.Ele também me viu. Mas, provavelmente ainda magoado, fingiu que não.Virou o rosto como se eu não estivesse ali.Fiz o mesmo. Caminhei até o portão de embarque, sem dar um olhar a mais.Percebi que, quando viu que eu não tinha ido falar com ele, Rafael me lançou um olhar furioso, antes de ser puxado pela Juliana.Iva também lançou um olhar de desprezo na direção dos dois, antes de me puxar pra longe com ela.Depois disso, muito tempo se passou. E entre mim e Rafae
Durante toda a festa, havia um nó preso no meu peito.Tudo o que eu queria era que aquilo acabasse logo para poder ir embora.Mas, perto do final, fui surpreendida pela mãe do Rafael me puxando pelo braço.— Beatriz, que bom que você veio hoje! Estava morrendo de saudade.Mariana me segurava com carinho, puxando papo sem parar, enquanto Juliana ficou de lado, visivelmente incomodada.Afinal, ela havia tentado falar com Mariana mais cedo mas a frieza com que foi recebida era impossível de ignorar.Só que Mariana nem ligava para o desconforto de Juliana. Segurou minha mão e, sem cerimônia, a colocou sobre a de Rafael. Depois, disse com tom firme:— Quando começarem a faculdade, vocês dois serão como família. Rafael, como homem, cuide bem da Beatriz. E pare de fazer birra com ela, entendeu?Rafael imediatamente puxou a mão de volta e bufou, impaciente.— Ela nem precisa mais dos meus cuidados. E até agora... Nem sequer tentou me desbloquear.Na voz dele, havia... Mágoa?Juliana, vendo a c
Último capítulo