Entre Nós
Entre Nós
Por: Gilcéia
Como aconteceu

Oliver Stewart

Certas coisas acontecem em nossa vida de forma tão inesperada, tão de repente que quando percebemos, estamos soterrado tão fundo dentro de um poço escuro e sem esperança alguma.

No meu caso, eu afundei há três anos.

Há três anos...

— Vamos meu amor, antes que Zoe acorde. — chama a minha adorável esposa com sua voz doce e meiga.

— Claro, — apanho a chave do carro. — mana, você cuida da Zoe se ela acordar? — indago minha irmã Amélia que veio conosco nessa viagem.

— Não se preocupe Ollie, eu já disse que cuido — nos abre um sorriso genuíno.

— Vamos só comprar fraldas para mais uma semana — Chloe completa.

Para aproveitarmos as férias da melhor forma possível, viemos para uma praia isolada do mundo, há alguns longos quilômetros da cidade e infelizmente o verão é o único momento que dá para apreciar o mar sem quase morrer congelado, sem falar que é muito distante de onde moramos, mas precisávamos nos divertir em família.

Depois que Zoe nasceu, essa é nossa primeira viagem. Nossa menina tem apenas um ano e três meses, Zoe é uma garotinha sorridente, sapeca e muito parecida com a mãe. Ela tem os olhos de Chloe, azuis bem mais claros que os meus.

Chloe por sua vez, é completamente apaixonada pela filha, sempre foi o seu sonho ser mãe de menina e quando descobrimos que seria uma garotinha, Chloe quase surtou de tamanha felicidade e agora faz o possível e o impossível para ver nossa menina bem.

Sem dúvidas, a melhor mãe e esposa do mundo.

Entramos no carro e aos poucos nos distanciamos da casa onde estamos hospedados. A música baixa, leve e romântica toca no rádio do carro e como sempre, Chloe acompanha cantarolando com sua voz suave e adocicada que toda vez faz meu coração acelerar, ainda não consegui deixar de ficar encantado com sua voz. Nem sei se um dia vou me acostumar, é sempre a mesma coisa, aquele mesmo frio na barriga que me deixa completamente apaixonado.

Por um breve segundo, tiro meus olhos da pista para admirar a beleza da minha esposa enquanto ela canta de olhos fechados completamente envolvida naquele momento, essa é sua música preferida.

Foram apenas alguns breves segundos, que nem deu tempo de ver quando o carro invade a a contramão fazendo uma ultrapassagem não permitida e por causa desses poucos segundos, eu não consigo tirar o carro antes ou ao menos ir para o acostamento, tudo que vejo é aquele carro colidir com o nosso e sinto o mundo rodar. Nosso carro capotou várias vezes e o que mais me deixa agoniado nesse momento são os gritos desesperados de Chloe.

Assim que o carro para, mesmo ainda atordoado, tudo que lembro de fazer é olhar para o lado e encontro o amor da minha vida toda ensanguentada. Por sorte o carro parou com os pneus no chão, assim consigo olhar em seu rosto com mais facilidade.

— Chloe... — o desespero toma conta do meu ser. — Vai ficar tudo bem, meu amor. — procuro sua mão tentando acalmá-la.

Vai ficar tudo bem... Vai ficar tudo bem... Vai ficar... tudo bem...

Repito mentalmente incontáveis vezes com o coração desesperado, até consigo ouvir minhas próprias pulsações.

— Minha cabeça... — ela resmunga num sussurro.

— Shh... vai ficar tudo bem — solto meu cinto e me viro para ela ignorando a dor que sinto no meu próprio corpo. — A ajuda vai chegar.

— Ollie... — uma lágrima solitária rola na sua face e toco sua bochecha secando-a.

— Vai ficar tudo bem, meu amor...

Só então olho para seu corpo e vejo uma de suas pernas completamente esmagada entre as ferragens jorrando sangue. Meu primeiro instinto é levar o meu braço, mas assim que o estico escuto um pequeno estralo e uma dor insuportável que ainda não tinha sentido.

Não... Eu preciso... eu preciso estancar... o sangramento...

— Ollie... 

Volto minha atenção aos seus olhos em completo desespero sem ter o que fazer, eu não aguento meu braço. 

— Eu consigo, eu vou parar o sangramento. — levo meu braço bom até sua perna e assim que toco ela grita de dor deixando meu coração ainda mais pequeno pelo tanto que ele dói ao ver a dor da minha esposa.

— Ollie... promete para mim

— Não... vamos sair daqui, a ajuda está... está chegando...

— Sabemos que não — sua voz é fraca

— Eu tenho certeza, nós vamos ficar bem... — desta vez é dos meus olhos que as lágrimas rolam.

— Cuida dela, não deixa ela sozinha, Ollie... — meu coração se aperta ao ver suas lágrimas.

— Nós vamos cuidar dela juntos 

Com meu braço não quebrado toco seu rosto sentindo sua respiração ficar mais pesada e seus lindos olhos azuis, agora parecem mais escuros.

— Promete para mim, Ollie... por... favor — ela soluça esmagando ainda mais o meu pobre coração.

— Chloe... — As lágrimas rolam como enxurrada no meu rosto, eu não posso...

Eu não posso... não posso te... perder.

— Ollie... — seus olhos ficam cada vez mais distantes.

— Eu prometo, — aperto firme sua mão. — agora, fique quietinha, a ajuda está chegando.

— Eu te amo — Ela solta num sussurro.

— Eu te amo muito mais. — Beijo sua testa.

— Cuida dela... Ollie...

Essas foram suas últimas palavras antes de apagar.

Antes de partir...

Antes de me deixar aqui sozinho...

Permaneci ao seu lado, segurando sua mão até os paramédicos chegarem alguns minutos depois, talvez se não tivessem demorado tanto, talvez se... talvez se tivessem acelerado um pouco mais, ela não teria partido.

Talvez...

Talvez se eu tivesse prestado atenção na estrada, eu...

Eu não teria matado a minha esposa.

Se eu não tivesse olhado para o lado, se eu não tivesse olhado ela cantar, estaríamos chegando na cidade. 

Talvez se...

É tudo culpa minha.

Eu nem sei o que mais doí, a perda do amor da minha vida bem diante dos meus olhos ou a dor na minha perna, enquanto os paramédicos tentam me tirar do meio das ferragens. Não foi só a perna da Chloe a ser esmagada. A dela só foi pior.

Ela partiu sentindo dor...

Foi culpa minha.

Eu  matei a minha esposa.

Com tudo, com tanta dor, o meu pobre corpo não resistiu.

"Está quase... pronto..."

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