Culpa minha

Oliver Stewart

Acordo num quarto de hospital, a claridade invade meus olhos de forma tão dolorosa que sinto como se alguém estivesse batendo com um ferro na minha cabeça. Quando consigo me acostumar com a claridade, vejo Jordan, meu irmão mais velho sentado na cadeira perto da maca.

De imediato, me lembro de tudo que aconteceu e não consigo segurar o desespero. Meus olhos ardem e me permito chorar ainda imóvel na maca. Nem sei o que mais dói, meu peito sendo esmagado pela milésima vez hoje ou minha perna elevada.

— Você acordou. — ele sorri pressionando os lábios. — Seja bem-vindo de volta à vida, meu irmão.

— Foi... tudo culpa... minha. — Só consigo me lembrar dela.

— Ollie...

— Eu não prestei atenção na... pista, mas ela... ela estava cantando tão... tão lindo.

— Ollie, se acalma.

— Eu nunca mais... nunca mais vou ouvir ela... ela cantar.

— Oliver, se acalma, por favor — ele continua tocando meu ombro e me olhando nos olhos.

— Eu quero ela...

— Quem?

— Eu quero a Chloe de volta.

— Eu sinto muito, Ollie, mas precisa se acalmar.

— Eu... — minha voz desaparece por conta de tantas lágrimas.

— Zoe precisa de você, Ollie.

— Onde ela está?

— Na casa da praia com Amélia — diz parecendo calmo.

— É tudo culpa dela... — sai num sussurro. — Se não precisasse de fraldas, ela ainda estaria aqui.

— Você precisa descansar. — se afasta me olhando indiferente. — Eu sinto muito que toda essa merda tenha acontecido, mas não culpe sua filha. 

Dá para sentir o ódio em suas palavras, nunca vi meu irmão assim.

— Ela vai sofrer tanto quanto você, não... Ela vai sofrer muito mais que você. — Continua sem me dar espaço de lhe interromper. — Então descanse e pare de falar tanta besteira.

Fecho meus olhos com suas palavras e me arrependo de imediato do que acabei de falar. Eu jamais devia ter dito isso. Zoe não tem culpa.

Eu sou o culpado.

Chloe nunca aprovaria se me visse culpando Zoe por sua partida já que ela daria sua vida pela da nossa menina. 

O que estou fazendo...

Isso é ridículo...

De onde surgiu essa ideia de culpar a minha garotinha, sendo que o único culpado nessa história sou eu.

Eu devia ter cuidado da pista...

Eu não poderia ter me distraído...

Eu matei o amor da minha vida...

— Me deixa sozinho.

— Certeza?

— Sim... vai embora.

Sem retrucar, ele apenas sai do quarto.

Não que chorar na frente do meu irmão fosse vergonhoso, até porque acabei de chorar um tanto, mas não quero pedidos para que eu me acalme, sendo que sei, que são em vão.

Ele nunca se apaixonou...

Ele não sabe a dor que estou sentindo ao perder o amor da minha vida.

Ela morreu bem diante dos meus olhos, como irei me esquecer?

Como posso manter a calma?

Ela sabia que ia partir...

Ela viu a morte diante dos seus olhos quando me fez prometer que cuidaria de Zoe.

Eu devia ter lhe beijado mais, lhe abraçado mais.

Eu amo Zoe, eu amo demais a nossa menina, mas como vou cuidar de Zoe, sendo que tudo nela, faz eu me lembrar de tudo o que perdi?

Choro de remorso por pensar dessa forma da nossa menininha, desabo pela dor da perda e pela dor insuportável que sinto na minha perna.

Tudo parece ter desabado, como aconteceu?

Eu nem consigo acreditar.

Agora estou sozinho com uma filha para cuidar.

Eu prometi.

Eu quero honrar com minha promessa.

[...]

Nem sei quanto tempo passou, mas ainda estou aqui, imóvel, sem forças para até mesmo me sentar na maca. Todo meu corpo dói, eu me sinto destruído, muito mais do que parece. Pareço até desligado do mundo, Jordan ainda não voltou, respeitou meu momento, mas estudo três batidas na porta antes que ela se abra.

— Oi papai — Amélia balança o bracinho de Zoe. — Dá oi pro papai, Zoe.

— Papa — a doce voz da minha pequena consegue me arrancar um sorriso sincero em meio a dor.

— Oh, meu amor — falo olhando para minha pequenina, enquanto Jordan que entrou com elas, ajeita a maca para que eu fique mais inclinado.

Ela abre os bracinhos para que eu lhe pegue e mesmo estando com o corpo completamente dolorido, eu me esforço e a pego nos braços.

Eu preciso dela.

Eu preciso de você, minha garotinha.

— Perdoa o papai, meu anjinho. — deposito um beijo na sua cabecinha sentindo meu coração sendo esmagado pela milésima vez só hoje.

— Odóipapa?

— Sim, o papai fez dodói — respondo-a enquanto olha um dos meus braços enfaixado.

— Odói... — aponta para minha perna cheia de ferros expostos e elevada, sendo visível cada mínimo machucado.

— O papai vai ficar bem, meu amor — envolvo ela no meu abraço de um braço só, mas em segundos ela se incomoda.

— Mama — pede pela mulher que nunca mais lhe responderá.

Fecho os olhos tentando respirar fundo, mas tudo que faço é soltar o ar que nem sabia que estava preso, procurando dentro de mim em um lugar desconhecido até mesmo por mim as forças para lhe contar. Como explicar a essa garotinha inocente que sua mamãe morreu?

— A mamãe... foi morar no céu — solto sabendo que sou incapaz de protegê-la da dor, mesmo que não entenda ainda.

— Céu? — olha para o teto como se procurasse o céu e o que mais dói em mim, é saber que ela não vai entender nada disso.

Vai sofrer sem nem saber o motivo.

Vai sentir falta de Chloe, mas...

Mas nunca... nunca vai... se lembrar dela.

Não como eu me lembro.

— Sim filha, no céu.

Ela não sabe que sua mamãe nunca mais vai voltar.

Ela não sabe que a mulher que ela ama e chama de mama, nunca mais vai acariciar seus cabelos até que durma.

Ela não sabe que a última vez que dormiu no colo de sua mamãe foi hoje mais cedo.

Ela não sabe que agora será obrigada a mamar na mamadeira, mesmo depois de tanta insistência de Chloe para parar de amamentar.

Ah, minha menina...

Você vai sofrer muito mais que eu e no fim, ainda nem vai se lembrar da mãe maravilhosa que você tinha.

Permaneço com ela nos meus braços como se fosse a minha âncora e eu tenho certeza de que será. É como se ela conseguisse de uma forma extraordinária tirar o peso das minhas costas, mesmo que eu esteja segurando as lágrimas para não desabar na frente da minha menininha.

— Titi Méli  — Pede por sua titia.

— Vem cá, meu amor. — Amélia seca o rosto com os olhos e nariz vermelhos antes de pegar Zoe nos braços e sair do quarto quase em disparada.

E outra vez, eu desabo.

Choro de desespero ao saber que terei que lidar com a minha dor e a de Zoe.

Choro por não saber o que fazer.

Eu sou pai de Zoe, eu sei cuidar da minha menina, mas não sei cuidar do coraçãozinho da minha garotinha. Eu não sei como tirar toda a dor que ela sentirá.

Eu choro por não suportar mais toda essa dor presa no peito.

— Oh, meu irmão — Jordan me acolhe em seus braços e nesse exato momento, me sinto como se fosse realmente o pequeno Oliver sendo acolhido pelo irmão mais velho.

— O que eu... eu vou... dizer pra ela?

— O que acabou de falar — afaga minhas costas, enquanto eu soluço involuntariamente.

— Ela não... não merecia isso.

— Vocês não merecem.

— Ela merecia crescer com Chloe, — falo um pouco mais calmo depois e alguns segundos. — aprender com a mãe ser uma menina feliz, cheia de vida...

— Ela ainda será uma garotinha incrível, Chloe partiu, mas sempre será lembrada. — tenta me acalmar.

— Zoe não vai se lembrar dela como eu me lembro. — sinto meu peito ser esmagado outra vez nesse mesmo dia.

— Mas ainda será para sempre a filha de Chloe. — afaga minhas costas na tentativa de me manter controlado.

— Podia ter sido eu. — sai num sussurro. — Foi tudo culpa minha, por que eu não paguei pelo meu erro em vez de Chloe?

— Ollie, você precisa parar de se culpar. — ele segura meu rosto entre suas mãos me forçando olhar em seus olhos. — Não foi culpa sua, estavam só se divertindo, indo comprar fraldas para a garotinha de vocês. — seca minhas lágrimas e me abraça apertado. — Não se culpe por algo que não teve culpa, Ollie.

— Dói tanto. — murmuro nos seus braços.

— Eu sei que dói, Ollie. — afaga minhas costas me prendendo ainda ao seu abraço. — Eu sei...

Às vezes, agradeço por ter um irmão psicólogo, sem dizer nada, ele simplesmente diz tudo.

— Agora precisa descansar, são muitas emoções para um dia só.

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