Torre de Babel

Ela queria odiá-lo, de verdade, queria gritar que ele a perdeu, que não sobrou nada depois daquilo. Nem confiança, nem paz. Mas, no fundo, onde nem ela mesma alcançava, ainda tinha uma parte que só sabia procurá-lo.

Será que amar alguém quebrado também é aceitar que ele pode nos machucar? Ou será que era ela quem já tinha se quebrado demais para conseguir ir embora? Não tinha resposta ainda. Talvez fosse cedo demais para ter.

Naquela noite, uma parte dela chorava, a outra ainda esperava, mas ele não voltou.

Depois da briga os dois sumiram um do outro, sempre que podia, Marisol evitava cruzar com Leon, era fácil assim, se sentia um pouco mais protegida. Mas proteger-se não fazia a saudade desaparecer. O que restava eram dias iguais: noites mal dormidas, lágrimas escondidas, culpa e mais culpa. Tentava acreditar que tudo tinha sido só um mal-entendido. Mas como esquecer algo que marcou tão fundo?

Na manhã seguinte, a cabeça latejava.

Marisol ficou sentada na beira da cama, exausta, depois de uma noite de pranto. Olhou o celular onde havia dezenas de ligações de Leon, mas ela ignorou, respondeu somente ao “bom dia” da amiga e desligou o aparelho novamente. Depois de um banho quente, desceu encontrando sua mãe na cozinha.

___ Bom dia, meu amor! - A mãe a abraçou apertado, como se quisesse consertar o que não tinha conserto. - Esse rostinho não me engana… como você tá?

___ Só dor de cabeça, mãe. Falta um café bem forte. - Forçou um sorriso.

As duas sentaram, o cheiro do café recém passado se espalhava pela casa.

___ O Leon ligou aqui em casa. - Disse a mãe.

___ Mãe, já falei que… - tentou falar.

___ Eu sei, pedi pra ele dar um tempo, disse que você precisava respirar e que ele também precisava pensar nos atos dele.

Marisol desviou os olhos, tentava ouvir, mas a mente insistia em repetir as lembranças da noite anterior.

___ Vou visitar o Lucas - Suspirou. - Ele não tem culpa de nada.

A mãe sorriu de leve em apoio.

Depois de mais um tempo conversando e de ela comentar sobre o aniversário de namoro com o pai, deu um beijo na testa da filha e saiu.

Marisol passou a manhã entre mensagens com Valéria e crises de choro, até que respirou fundo, se arrumou e saiu. Comprou flores e foi até a casa de Lucas. Pensou em voltar, a culpa a sufocava, mas a mãe do garoto abriu a porta e após um longo suspiro a deixou entrar.

No quarto, os amigos estavam reunidos, a primeira reação foi hostil.

___ Como você ousa aparecer aqui? Já não basta o que causou ontem por causa do seu namorado babaca? A voz de Maia, namorada de Lucas, cortou o ar.

Marisol ficou quieta, não tinha defesa, só queria chorar, porém Lucas interveio.

___ Ei, calma. Eu tô vivo, não é velório então não briguem. - Sorriu fraco, jogando uma almofada nela. - Pediu para os demais saírem por um instante e então Marisol se aproximou.

___ Não fala isso, garoto. Eu… eu sinto muito. Não queria causar nada disso. Trouxe flores.

Ele riu, tentou quebrar o clima pesado.

___ Relaxa, a Maia tá nervosa, mas não é com você. E olha, sei que tá sofrendo com o Leon, mas talvez vocês precisem se ouvir. Vocês se amam, brigas acontecem.

___ Não sei mais quem ele é pra mim… - Murmurou. - Nunca vi aquele olhar, nunca vi aquele ódio todo.

___ Ele te ligou? Já conversaram?

___ Centenas de vezes, mas não consigo ouvir a voz dele sem lembrar da cena. Parecia que ele gostava de ver o sangue no seu rosto… - Balançou a cabeça, sufocada.

___ Sol, eu tô puto com ele, me machucou sem motivo, mas sei da história de vocês. Talvez ele só precise de alguém do lado.

___ Eu só queria ver como você estava. - Entregou as flores. - Posso voltar outro dia?

___ Se o seu namorado não quiser arrancar minha cabeça, pode. - Tentou brincar.

Marisol sorriu fraco, despediu-se e voltou para casa. Estava vazia.

Ou quase.

No quarto, a surpresa: Leon sentado na cama, celular na mão e olhar ansioso.

___ O que você tá fazendo aqui? Como entrou?! - O susto fez sua voz tremer.

___ Você demorou, eu estava esperando. - Ele falava como se aquilo fosse normal.

___ Tá me vigiando agora? - Riu, sem acreditar.

___ Não, amor… eu só… só quero conversar. Me escuta, depois vou embora.

Ela hesitou, mas fechou a porta e sentou-se na beira da cama, frente a frente com ele.

De repente, Leon a abraçou forte. Marisol ficou imóvel.

___ Me perdoa, eu ‘tava fora de mim. Eu te amo. Marisol, eu não posso te perder.

Ela segurou seu rosto.

___ Respira, fala devagar, eu tô ouvindo.

Ele assentiu, puxou a mochila e tirou alguns papéis.

___ O que é isso?

___ O motivo de ontem. O segredo que eu jurei nunca contar, mas não dá mais. Se eu não te mostrar, vou te perder.

Ela tentou recusar, mas ele insistiu. Pegou os papéis com as mãos trêmulas.

Era um laudo médico.

A bomba estourou. A confissão veio, e, naquele instante, Marisol sentiu como se uma faca atravessasse seu peito, rasgando o coração e comprimindo os pulmões. Cada linha do laudo parecia arrancar o chão debaixo de seus pés. O mundo ao redor desapareceu, restando apenas o frio súbito na barriga, o estômago pesado e a cabeça girando. As lágrimas começaram a escorrer involuntariamente pelo rosto da menina assim como de Leon, e naquele instante, ele se sentiu menor, quebrado, assustado… e desesperadamente precisando dela.

Leon Hernandez Romero. Onze anos de idade. Um ano e dois meses de acompanhamento. Transtorno Afetivo Bipolar. Irritabilidade, raiva, ansiedade. Sintomas depressivos, ideação suicida, insônia. Tratamento contínuo com medicação.

O mundo congelou.

O papel escorregou das mãos de Marisol e caiu no chão.

O silêncio tomou o quarto, pesado demais para caber ali dentro, por alguns segundos ela não conseguiu dizer nada. Nem respirar direito.

Leon abaixou a cabeça, como se já esperasse o pior.

— Eu sei que parece loucura… — a voz dele saiu baixa, quebrada. — Eu tentei esconder. Eu achei que se ninguém soubesse… talvez fosse mais fácil. - As mãos tremiam.

— Por que você não me contou?

Leon riu sem humor, enxugando o rosto às pressas.

— Porque eu tinha medo. — Ele ergueu os olhos, vermelhos. — Medo de você olhar pra mim como se eu fosse um problema. Ou pior… como se eu fosse alguém perigoso.

O peito dela apertou.

Sem pensar muito, Marisol se aproximou e o abraçou.

Leon demorou um segundo para reagir, como se não acreditasse que ela ainda estivesse ali. Depois a segurou forte, escondendo o rosto no ombro dela.

— Me perdoa… — ele sussurrou. — Eu prometo que vou me cuidar. Vou tomar os remédios direito, vou tentar ser melhor pra você.

Marisol se afastou apenas o suficiente para olhar para ele.

— Não pede perdão por isso. — disse, passando a mão pelo rosto molhado dele. — Isso não é culpa sua.

Os dois ficaram em silêncio por um instante.

Só o som da respiração deles preenchia o quarto.

Leon tocou de leve na mão dela, como quem pede permissão.

Marisol não recuou.

Pelo contrário.

Entrelaçou os dedos nos dele.

O olhar dos dois se encontrou e, por um momento, todo o resto deixou de existir.

Leon puxou Marisol devagar pela cintura.

Ela sentiu o coração disparar, mas não se afastou.

Quando os lábios deles finalmente se encontraram, o beijo foi lento, carregado de medo, alívio e saudade.

Era como se os dois estivessem tentando confirmar que ainda estavam ali.

Que ainda eram deles.

Leon nunca tinha sentido algo tão forte. Marisol se entregava de corpo e alma, e isso o preenchia. Ela o amava ao ponto de doer, mas era uma dor que também trazia paz.

Naquele dia, ela fez um pacto silencioso: faria de tudo para que ele não tivesse mais crises. Carregar o peso, evitar irritações, seria a namorada perfeita. Era o sacrifício que escolheria para manter o relacionamento.

Mas ela não sabia que, por trás desse sacrifício, uma torre enorme começava a rachar e cedo ou tarde desmoronaria.

A torre de Babel já estava erguida.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP