Mundo ficciónIniciar sesiónO que você seria capaz de fazer por alguém que ama?
Esta é a pergunta que Marisol se fazia todos os dias, até onde ela poderia chegar por alguém que ama? O quanto ela aguentaria? Era difícil responder essas perguntas, mesmo que surgisse em sua mente diariamente. Os dias se passaram, meses também, e o relacionamento de Leon e Marisol se mantinha, parecia um conto de fadas novamente e tudo acontecia do jeito que ela esperava, era lindo ver o relacionamento saudável que eles estavam construindo. Mas tinha um porém, apesar da beleza externa, aquela construção continha rachaduras por dentro, algo difícil de consertar. Leon deixou o tratamento para trás mas continuava com sua farsa de bom moço e Marisol acreditava, mas tentava entender porque mesmo depois de todo o tratamento, ele continuava tendo crises. Era complexo para ela, tentava encaixar tudo, porém as divergências eram enormes; a menina passou um tempo estudando e fazendo pesquisas sobre o TAB, mas não fazia sentido para ela o que leu e o que via em Leon. Mesmo assim, dava chances para que o rapaz pudesse mostrar que superou e mudou, chances essas que nem mesmo ele sabia que tinha. Com o passar do tempo, Marisol se sentiu abandonada, ela não conseguia mais socializar com os amigos pois eles não enxergavam Leon como ela o via e isso causava conflitos, então ela preferiu se isolar e viver somente para Leon, para os cuidados com ele. A única que pertencia ali era Valéria, mesmo com as brigas por causa de atitudes de Leon, a amiga não largava da mão de Marisol e insistia em permanecer, era uma amizade de se invejar. ___ Marisol, você precisa ser firme com o Leon, ele não pode querer tudo quando bem entende, você também está sendo culpada por aceitar tudo calada. - Valéria dava mais um de seus conselhos enquanto elas estudavam juntas. ___ Não começa, poxa, tudo que conto você quer inverter e culpar nós dois. - Marisol a encarou. - Seu irmão está fazendo o que pode por nós dois, ele está se esforçando e não vou largar a mão dele. A menina se calou em seguida. Na última briga que o casal teve, Leon ficou irritado pois queria se encontrar com Marisol e a menina contou que não podia, já que tinha ido encontrar com uma prima que não via a meses. O rapaz ficou chateado e começou a falar coisas que sabia que podiam magoar a namorada, mas só continuou falando. “Quando eu cansar, você vai enxergar as coisas erradas que faz!” “Você quer tudo do seu jeito, eu nunca sou prioridade!” “Se um dia me perder Marisol, você nunca mais vai encontrar alguém que a ame tanto quanto eu, que imploro por sua atenção!’ ___ Esse moleque pensa que tem quantos anos? Cinco? - Ela revira os olhos após ouvir o áudio do irmão. - Sinceramente, não me envolvo mais, só espero que ele pare com isso, porque tudo tem limite e ele já está controlador demais, até comigo briga quando venho pra cá, ele achou ruim até por estarmos estudando juntas! Marisol só deu de ombros e voltou sua atenção às anotações na sua frente. Era estranho pensar em Leon daquele jeito, ela não conseguia enxergar esse controle todo nele e, muito menos, seu lado ruim. A menina passou mais algumas horas estudando com a amiga e então Valéria foi embora, Marisol recebeu uma mensagem de Leon com um convite para saírem juntos e na mesma hora ela correu para se arrumar, fazia tempo que não saíam e era o momento perfeito para passarem mais tempo juntos. O namorado chegou algumas horas depois, Sol se despediu de seus pais e os dois foram até o destino escolhido pelo rapaz. Em nenhum momento ela perguntou para onde iriam, queria sentir a emoção da surpresa em ver o lugar que seu amado escolheu, mas seu sorriso se desfez assim que chegaram. ___ Que lugar é esse? - Perguntou com um olhar confuso. ___ Um colega do tempo da escola me convidou para comemorar seu aniversário, então pensei em trazer você caso fique chato depois. - Deu de ombros. O choque veio rapidamente. ___ Pensei que iríamos para um lugar só nós dois… - Falou cabisbaixa. Ele apenas ignorou e desceu do carro, abrindo a porta para ela logo depois. Os dois adentraram o pub e Marisol avistava apenas pessoas dançando enquanto a música ensurdecedora tocava e alguns grupos espalhados pelo espaço, bebendo rodadas de cerveja e falando alto. Na mesa em que os amigos de Leon estavam, havia somente uma mulher e ela sabia exatamente quem era. A ex de Leon do tempo da escola, mas por quê justo ela? ___ Leon, você não vai beber né? Está dirigindo e… acho melhor que fique sóbrio pelos remédios que está tomando. - Ela falou segurando seu braço antes de se aproximarem do grupo. ___ Você sabe dirigir né, então está tranquilo amor. - Deu um beijo em sua bochecha, mas viu que ela continuava séria. - Ok, ok, estou só brincando, eu não vou beber. Assim que se aproximaram, os amigos se abraçaram e nem sequer olharam para Sol Continuam os mesmos babacas, como Leon consegue ser amigo dessas pessoas?, a moça pensou. Se sentou ao lado do namorado enquanto ele conversava com os outros rapazes e ficou observando o ambiente, ela percebeu que tinha alguém lhe olhando e sabia bem quem era, mas preferiu ignorar. Cada vez que a hora passava, o desconforto aumentava mais e mais. ___ Vou ao banheiro tá, já volto. - O rapaz só concordou, lhe deu um selinho e voltou à conversa. Marisol se levantou e caminhou até o banheiro, retocou a maquiagem e aproveitou o espelho para tirar algumas fotos e então se virou para sair quando deu de cara com a moça que estava na mesma mesa que ela. ___ Oi Marisol, quanto tempo né? - Deu um sorriso falso e Sol retribuiu. ___ Sim, bastante tempo mesmo. - Disse se preparando para continuar andando até Leon. ___ Leon não muda né, sempre um safado indeciso, espero que dessa vez ele tenha mudado. Marisol parou e virou para encarar a mulher à sua frente. ___ Não entendi, o que quis dizer com isso? ___ Ah, você sabe, ele sempre foi mulherengo no tempo da escola, mesmo quando namorávamos, e quem diria que ele fosse ser ao ponto de ficar até com a “irmãzinha” dele. - Riu com sarcasmo. - E conseguiu roubar ele de mim com muita facilidade né, primeiro na escola e agora de novo. ___ Que eu saiba vocês namoraram só na época da escola, até porque, eu e ele ficamos juntos depois disso. - A raiva começava a dominar seu corpo. ___ Não esqueça que terminaram. - Piscou para Marisol, foi até o box do banheiro e antes de fechar a porta, finalizou. - Ou pensou que ele ficaria sofrendo por você todos os dias até decidir voltar. A porta se fechou e Marisol não sabia se ria ou se voltava para o seu lugar. Assim que chegou a mesa novamente, Leon virava um shot de vodka e na mesma hora ela tomou o copo de sua mão, os amigos começaram a rir caçoando dele e então o seu olhar para ela foi de repreensão. ___ Você disse que não ia beber, será que não consegue cumprir com uma única promessa? - Ela falou um pouco mais alto. ___ Qual o seu problema? Vê se senta e fica quieta! - Puxou seu braço com rispidez e então ela se sentou com brutalidade, assustada com aquela reação. - Se eu soubesse, teria deixado você onde estava. Aquilo foi como um tapa na cara dela, Leon nunca deu nem um mínimo puxão nela, então por quê isso agora? Os rapazes voltaram a se concentrar na conversa e brincadeiras que faziam enquanto bebiam, Leon já estava mais solto e conversava até com a ex que estava um pouco a frente deles. Marisol sentia a queimação em seu coração e as lágrimas presas em seus olhos, ela percebia os olhares trocados por seu namorado e a outra mulher, sentia as segundas intenções em cada palavra proferida por eles. Ela queria sair correndo dali, queria gritar e falar o que pensava, mas estava com medo de tudo, das reações, de cada pessoa ali presente e, principalmente, do seu próprio namorado. Quando o bar estava prestes a fechar, Leon resolveu ir embora e Marisol só o seguiu até o carro, os dois foram o caminho todo em silêncio e então ela percebeu que ele estava indo no rumo da casa dele e não dela. ___ Eu prefiro ir para casa, estou cansada. - Disse meio aflita. ___ Meus pais não estão em casa e a Valéria tá com a amiga ou namorada, sei lá o que é. - Ele estacionou e logo desceu, mas dessa vez nem se preocupou em abrir a porta do carro. Marisol, sem saber o que dizer ou fazer, só aceitou. Quando chegaram ao quarto do rapaz, ele se deitou na cama e a chamou para deitar ao lado dele. ___ Você está só álcool, pode pelo menos tomar um banho? - Ele riu, se levantou e foi se aproximando da moça que com receio, tentou se afastar até encostar na parede. Ali era seu limite. ___ Por que está tão tensa? Parece que tem um estranho na sua frente. - Afastou o cabelo da menina e beijou seu pescoço. - Eu sou seu namorado, você deve se sentir segura, feliz, deve me desejar. ___ Leon… - Se afastou assim que ele tentou beijá-la. - Para com isso, você bebeu e não estou à vontade desse jeito. Ele ignorou o que ela disse e voltou a beijar seu pescoço, mais uma vez ela tentou pará-lo o empurrando, mas seus braços foram presos contra a parede. Ele tentava beijá-la a todo custo enquanto ela se debatia e pedia para ele parar, já com um nó na garganta, querendo chorar, sentindo o desespero e prestes a gritar por socorro. ___ Mas que porra!! - Mais uma vez foi ríspido largando seu braço. - Nem isso é capaz de fazer? Não consegue confiar em mim nem nessas horas? Você é uma mulher de verdade ou esqueceu que é minha namorada e precisa me satisfazer? Marisol tentou falar, mas nenhuma palavra saía. O quarto parecia menor, o ar mais pesado, e o medo crescia dentro dela como algo impossível de conter. O corpo todo arrepiava e então… a primeira lágrima veio. Marisol deixou as lágrimas virem de uma vez e Leon passou a mão em seu rosto, secando-as. ___ Vem, eu vou cuidar de você. - Segurou em sua mão e a levou até a cama, deitando seu corpo contra o dela. ___ É a única coisa que vou pedir pra você, só dessa vez, para com isso. - O choro permanecia. - Eu não quero fazer nada. ___ Marisol, não é você que decide algo aqui! Ele a segurou com força, ignorando completamente o medo estampado em seu rosto. Ela percebeu que não havia mais espaço para resistência. O corpo tremia, o coração gritava, mas a voz não saía. Leon não via suas lágrimas. Ou talvez visse… e simplesmente não se importasse. Quando tudo terminou, Leon simplesmente se levantou como se nada tivesse acontecido. Para ele, era apenas mais uma noite. Para Marisol, algo dentro dela havia se quebrado para sempre. ___ Vá tomar banho para dormirmos, estou cansado. Ela apenas obedeceu e foi até o banheiro, logo depois retornou e se deitou. Leon a puxou fazendo-a deitar em seu braço, era como se nada daquilo tivesse acontecido. Leon adormeceu rapidamente, já Marisol permaneceu acordada. O teto parecia distante, e o silêncio do quarto era mais ensurdecedor do que qualquer grito que ela não conseguiu dar. Quis gritar, mas não podia fazer barulho, então mordeu seu próprio braço para segurar o que estava prestes a sair, a mordida foi tão forte que quase sangrou, mas enquanto fazia isso ela pensou em apenas uma coisa. Essa é minha escolha, e esse é meu castigo.






