Máscaras

Ser 100% perfeito é uma das coisas mais desafiadoras que existem. Com o passar do tempo, torna-se difícil manter-se sendo a mesma pessoa, com os mesmos pensamentos e ideias. É ainda mais complicado quando se precisa lidar com inseguranças, medos e os malditos demônios internos que habitam dentro de cada um de nós — e assim é com Leon.

Aos 11 anos, Leon ouviu palavras que nunca mais esqueceria.

Transtorno. Oscilação. Medicamentos.

Desde então, passou a viver entre extremos, dias de silêncio e dias de euforia que assustavam até a si mesmo.

Sempre foi difícil para ele lidar com isso. Nunca conseguia entender por que aquilo acontecia justo com ele. Sentia vergonha e raiva por não poder simplesmente arrancar essa “coisa” de dentro de si. Fazia o possível para que ninguém soubesse, implorou aos pais que escondessem o laudo a sete chaves. Em sua cabeça, aquilo seria o fim de sua vida: olhares estranhos, comentários intrusivos, exclusão. Como ele pediu, os pais nunca contaram a ninguém, nem mesmo aos padrinhos do garoto, melhores amigos do casal.

Era estranho lidar com o transtorno, mas acabou virando rotina: tomar os medicamentos e agir como se estivesse tudo bem.

Graças a uma pessoa, Leon conseguiu viver um pouco mais relaxado. A garota conseguia curá-lo apenas com seu sorriso e seu toque. Ela era a única que enxergava além do garoto sério, frio e misterioso. Com ela, Leon podia se sentir livre de verdade. Ainda assim, sentia medo todos os dias, medo de surtar a qualquer momento e esquecer quem era de verdade, a ponto de afastar-se de todos... inclusive daquela que tinha o seu coração.

Após o tão sonhado aniversário de 15 anos, o novo casal aproveitava essa fase da melhor forma: saíam aos fins de semana, se encontravam às escondidas no meio da noite, faziam questão de estarem juntos o tempo todo. Era tudo muito bom, muito perfeito e isso durou por bastante tempo.

Mais do que o esperado.

Marisol terminou o ensino médio junto com Leon e Valéria. Os três eram um trio inseparável, sempre apoiando uns aos outros em seus sonhos, até que chegou o momento das decisões. O sonho de Valéria era ser médica veterinária, e ela faria o possível para ingressar na universidade que tinha em mente desde o início do ensino médio: a Universidade Complutense de Madrid. Já Marisol sonhava em seguir os passos da mãe, sempre amou tudo que envolvia moda e arte e esperava ansiosamente pelo dia em que receberia a carta de aceite da IED (Istituto Europeo di Design Barcelona), com a mensagem: Parabéns, agora você faz parte da nossa instituição!

Por fim, vinha Leon, que sempre teve um desejo de ambição muito forte. Como não acreditava em sonhos, seu único objetivo era ser o empresário mais conhecido, não só nacionalmente, mas também mundialmente e ele faria o que fosse preciso para conseguir.

Para muitos, isso chega a assustar. Alguns até pensam: “Se ele é capaz de qualquer coisa, também pode ser capaz de passar por cima de muitos.” E sim, ele é capaz disso, com toda certeza. O garoto fazia pesquisas dia e noite para encontrar o lugar perfeito onde poderia estudar e ser o melhor. Procurou muito até encontrar a Harvard Business School, o lugar ideal para ele. Só havia um porém: não queria que ninguém soubesse do seu interesse.

Leon sempre foi muito cuidadoso com suas emoções quando se tratava de Marisol. Tinha muito medo de machucá-la caso tivesse alguma crise, então se controlava em momentos de estresse. Mas algo na história dos dois parecia conspirar para que ele surtasse, para que ela visse um lado dele que tanto tentava esconder. E assim aconteceu.

Na festa de despedida dos alunos, eles se preparavam para o evento que viraria o próprio caos. Valéria, seu ficante, Leon e Marisol saíram de casa e seguiram rumo ao espaço organizado para receber os formandos. Nenhum professor ou pai estava presente, apenas os jovens.

— Amiga, tem certeza de que essa maquiagem está boa? Não quero parecer muito exagerada... — Marisol perguntou para Valéria, que estava no banco de trás com seu acompanhante.

— Sol, relaxa! Você está divina. — afirmou a amiga, fazendo Marisol sorrir com leveza.

Leon encarou a irmã pelo retrovisor interno e depois olhou para a namorada.

— Tá tão preocupada assim com a aparência? Interesse em impressionar alguém? — As meninas riram, achando que fosse uma brincadeira.

— A única pessoa que pretendo impressionar todos os dias é você, amor. Sem ciúmes. — Ela levou a mão até a nuca dele, acariciando enquanto ele se concentrava no trânsito.

— Ou talvez um pretendente surpresa esteja esperando para roubar ela de você essa noite. — a irmã disse, rindo, só para provocar.

— Talvez seja isso. — Marisol entrou na brincadeira, sem imaginar que Leon não entenderia como tal.

— Qual o problema de vocês?! Estão escondendo algo de mim? — falou, num tom mais ríspido.

— Calma, esquentadinho. É só brincadeira, não leve pro coração.

Ele se calou — e assim permaneceu pelo resto da noite. Parecia que, após aquela piada, ele se transformou. Não falava com ninguém e olhava ao redor como se estivesse à procura de alguém.

Enquanto Valéria ia dançar, Marisol tentou conversar com o namorado.

— Amor, qual o problema? Está chateado com algo? — falou, um pouco apreensiva.

— Sim, estou irritado. — disse sem olhar para ela. — Aquela brincadeira foi ridícula, e vocês foram mais ridículas ainda por continuarem.

— Ei, calma. Não precisa me ofender desse jeito. — Ela segurou seu braço, mas ele se afastou no mesmo instante.

— Você agiu feito criança, e eu odeio esse tipo de brincadeira. — dessa vez, a encarou. — Não gosto que me façam de idiota. Então, se tem algo pra falar, essa é a hora. Mas claro, não precisa falar se estiver ocupada demais encontrando o outro.

Marisol não sabia se ria ou se ficava assustada por ele ter levado uma piada tão a sério. Preferiu acabar com aquela conversa estranha ficando em silêncio. Os dois passaram um bom tempo sem trocar uma palavra, até que Valéria foi até a amiga e a convidou para dançar. No meio do salão, remexiam-se e sorriam juntas — queriam muito que aquela noite fosse especial.

Em certo momento, já cansada, Marisol decidiu pegar uma bebida e foi até o bar, onde havia opções variadas. Ela optou por um drink sem álcool. Enquanto aguardava, um colega de classe, muito próximo a ela, chegou a cumprimentando. Ela sorriu gentilmente, e eles iniciaram uma breve conversa.

— É bom ver você se divertindo de verdade. — o garoto disse, olhando nos olhos dela.

— O que significa esse "de verdade"? — ela respondeu, curiosa.

— Bom... desde que você assumiu seu romance com o Leon, parece que as coisas mudaram. Quer dizer, realmente mudaram, já que os amigos foram praticamente proibidos de se aproximar. — deu de ombros.

— Eu nunca proibi ninguém de nada. Sempre fui próxima de vocês — e continuo assim. — disse, confusa.

Ele balançou a cabeça, sorrindo de leve.

— Você sabe que isso não é verdade, né? — encarou a moça e percebeu que ela realmente não entendia. — Sol, você sabe que seu namorado não é exatamente tranquilo. Ele praticamente ordenou que todos os garotos da turma se afastassem de você... principalmente eu.

Ela suspirou, ficou em silêncio por um momento e, por fim, o encarou com seriedade.

— Pois saiba que essa ordem nunca saiu da minha boca. E mais: você me conhece há tempo suficiente pra saber que eu jamais aceitaria isso. Sendo assim, ordeno que volte a ser o mesmo Lucas de antes, meu colega de classe que eu adoro irritar nas horas vagas. — os dois riram.

— Sim, senhora! — ele fez uma saudação e beijou rapidamente a mão dela.

Conversaram mais um pouco, rindo de momentos bobos que viveram na escola. Estava tudo bem, até que, num piscar de olhos, Marisol sentiu seus braços sendo puxados com força. Logo depois, viu seu namorado desferindo um soco no rosto de Lucas.

O som foi seco.

Lucas caiu antes de entender o que aconteceu.

E Leon… não parou.

— O que está fazendo, Leon?! O que deu em você?! — ela gritou, assustada.

Ele a ignorou e continuou batendo no outro rapaz, que sequer teve chance de se defender. Alguns colegas se aproximaram e tentaram separá-los, enquanto Valéria tentava acalmar Marisol, que chorava desesperadamente.

Aquilo tudo parecia um pesadelo sem fim.

Após muita insistência, Leon parou quando ouviu alguém gritar: “Para! Você vai matar ele!”. Ele se levantou, encarando o nada, respirando com dificuldade. Marisol passou por ele, o empurrou, e sem olhá-lo, ajoelhou-se ao lado de Lucas, tentando ajudá-lo.

— Chamem uma ambulância! Parem de ficar só olhando!! — berrou, e em seguida lançou um olhar de decepção e raiva para Leon.

Dois rapazes ajudaram Lucas a se levantar, e outro ligou para a ambulância. A noite parecia não ter fim. A ficha ainda não havia caído. E o garoto que sempre tentou esconder seu segredo sombrio só pensava em uma coisa:

Fui descoberto.

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