O Admirador do Caos

A reconciliação é sempre algo lindo, as coisas voltando ao normal mesmo que estranhamente, as pessoas ao redor felizes e torcendo, tudo mil maravilhas mais uma vez. Leon nunca esteve tão disposto a mudar, nunca esteve tão feliz e eufórico em muito tempo, porém isso durou pouco tempo.

Após aquele encontro, o rapaz se dedicou dia após dia para que seu tratamento fosse feito corretamente, ele parecia mais calmo, sorria com mais facilidade e interagia melhor com sua família e amigos, mas dentro dele ainda tinha algo lutando e tentando se libertar novamente. Durante o dia Leon era admirado pela sua evolução, ia para a terapia, estava mantendo sua rotina, passava um tempo com Marisol e a tratando sempre como uma princesa, mas a noite o terror começava.

O vazio, o medo, a raiva, a insônia, noites que duravam uma eternidade e as horas que não passavam mais.

Quando Leon dormia sem a companhia de sua namorada, era um caos, ele passava a noite acordado, tinha crises de choro e raiva, o aperto no peito era tão forte que sentia vontade de gritar, mas ninguém poderia saber o que se passava ali, pois aquilo era seu maior sinal de fraqueza e ele não era nada daquilo.

Leon odiava parecer fraco.

Após mais uma noite de conflitos dentro de seu quarto, ele voltou para sua rotina, foi pra terapia, quando finalizou foi almoçar na casa de Marisol junto aos pais da menina que tinham o garoto como parte da família. Ao tocar a campainha, o rapaz é recebido por Alma, sua sogra e tia postiça.

___ Leon, que bom ver você, Marisol disse que talvez não viesse por estar na terapia. - Alma o recebe com um abraço apertado e dá abertura para que o garoto entre.

___ Pedi para a doutora adiantar meu horário, não queria perder a oportunidade de comer sua comida tia. - Se aproximou para sussurrar - Não deixe a mamãe, saber, mas sua comida é minha preferida.

Os dois dão risada.

___ Até sua mãe sabe que minha comida é muito melhor que a dela. - Disse descontraída. - Marisol está lá em cima, fique à vontade, assim que estiver tudo pronto eu chamo vocês.

O menino acenou rindo, passou no escritório do pai de Marisol para dar um oi e depois subiu.

A menina estava deitada na cama, com as pernas no ar balançando de um lado para outro enquanto falava com Valéria ao telefone, Leon bateu na porta delicadamente e rapidamente a menina virou sorrindo para ele.

___ Amiga, seu irmão chegou aqui, depois nos falamos! - revirou os olhos rindo do que Valéria dizia e respondeu - Amiga, sem ciúmes, você sempre será a minha metade, te amo tchau!

Assim que desligou, correu para os braços do namorado.

Tudo parecia bem novamente, Leon conseguia disfarçar perfeitamente toda sua angústia, ele não conseguia se sentir pertencente aquela personalidade de bom rapaz, era um mundo tão complexo para ele, chegava a ser exaustivo.

___ E então, como foi a terapia hoje? Tudo bem? - Perguntou enquanto deitava na cama junto ao garoto.

___ Sim, tudo normal, o que acontece todos os dias. - Sorriu leve enquanto acariciava o cabelo de Marisol. - Eu estou bem, nunca estive tão leve em toda minha vida.

A maior mentira já contada.

___ Cada vez que diz isso, minha felicidade transborda mais e mais, não sei o que seria de mim se perdesse você para sempre. - Suspirou. Obrigada por isso, por se esforçar e realmente mudar por nós.

Ele só acenou.

Após um tempo juntos, a mãe de Marisol chamou eles para o almoço e todos se reuniram na sala de jantar para a refeição. Enquanto todos riam na mesa, ele apertava o garfo até os dedos ficarem brancos. Leon ria com muita alegria, mas por dentro gritava por socorro, eram dois extremos que chegavam a assustar, ele estava prestes a surtar guardando tudo aquilo e foi o que aconteceu naquela noite.

Depois de um dia desafiante para ele, Leon voltou para casa e se trancou em seu quarto o resto do dia, mais tarde os pais passaram no quarto informando que iriam sair para jantar, Valéria havia saído e aquilo deu um estalo na cabeça do rapaz.

Sozinho em casa, Leon resolveu liberar tudo o que lhe sufocava, ligou a tv, colocou a música escolhida no último volume,apagou as luzes e acendeu um cigarro, aquilo ali era Leon, o escuro, as sombras, a bagunça, o caos.

Ele pertencia àquele lugar.

Estava ótimo, até ele olhar para o armário e ver suas receitas médicas ali, acompanhadas de suas medicações. Ele não pensou, só sentiu fúria e foi até lá, pegou os papéis jogando dentro do lixeiro, em seguida acendeu o isqueiro e ateou fogo nos documentos que pra ele eram sua perdição. Com a medicação não foi diferente, pegou os frascos e foi até a pia do banheiro, mas parou por um instante se olhando no espelho.

“Leon, não faça isso… por favor, por nós”

A voz de Marisol ecoava em seus ouvidos, as lágrimas começavam a escorrer do seu rosto, ele balançava a cabeça em sinal de negação.

Deveria parar?

Deveria escutar a voz de sua amada?

Se lembrou do que escreveu para Marisol no dia do aniversário dela, aquela carta continha sentimentos, mas aquele era realmente o verdadeiro Leon?

Baixou a cabeça chorando, gritou seguidas vezes e então parou, olhou novamente para o seu reflexo no espelho, em seguida veio o soco que na mesma hora estraçalhou o vidro e deixando alguns cortes em sua mão. As gotas do seu sangue pingavam na pia e aquilo era doloroso, mas foi se tornando satisfatório, então o rapaz se sentiu vivo novamente, sem regras, sem limitações, não precisava de ordens.

Ele comandava tudo, esse era seu maior prazer.

Abriu os frascos e jogou todas as cápsulas de uma vez dentro do vaso sanitário, puxou a descarga e sorria enquanto a água levava aquilo que ele mais odiava. Leon entrou em uma crise profunda, seu olhar era obscuro, sua mão ainda sangrava, ele sentia que precisava libertar aquele monstro que estava dentro de si.

E assim fez.

Proferiu socos contra a parede, derrubou tudo que estava em seu armário, suas fotos com a namorada quebravam nos porta-retratos, a música alta deixava tudo mais agitado e quando a libertação veio por completo, ele gritou e caiu no chão chorando, não se importava mais com quem escutaria, só queria gritar, se debater e chorar, aquilo tudo era exaustivo pra ele, só queria ser livre, se Leon pudesse ter o mundo somente para ele seria perfeito.

Comandar todos, ditar as regras, saciar sua sede e seu ego, ele queria tudo isso, só não sabia como.

Um álbum de fotos caiu do armário, em uma das páginas continha imagens de sua infância, fotos de Leon na escola, com sua irmã e com Marisol, aquilo tudo parecia tão perfeito, então por quê ele se transformou nisso? Sempre se perguntava.

Só não sabia que os demônios internos sempre habitaram nele, bastava o garoto perceber.

Pegando o álbum, Leon não pensou duas vezes antes de jogar no lixo e acender o isqueiro, viu suas memórias queimando, a fumaça subindo e seu antigo “eu” se transformando em cinzas. Quando estava prestes a colocar suas mãos naquele fogo ardente, a porta se abriu.

Era Valéria, com os olhos arregalados, o semblante em seu rosto mostrava o susto e medo que a garota estava sentindo ao ver aquela cena.

___ Leon… - Foi a única palavra que saiu de sua boca.

Os dois ficaram se encarando até o rapaz ceder e seu corpo cair no chão gelado, ele começou a chorar desesperadamente e a única reação de Valéria foi correr até ele, deitar do seu lado e abraçá-lo. Ela acariciava seu braço sem saber o que dizer, viu as fotos queimando, a mão dele sangrando e a destruição que estava no seu quarto.

___ Eu não aguento mais isso, é sufocante, dói muito, não aguento mais sentir isso irmã! - Ele dizia enquanto chorava. - Eu não consigo ser uma pessoa normal, não consigo ser bom para ninguém, por quê eu fui o escolhido? O que fiz de tão ruim para essa doença me assombrar.

___ Leon isso não é uma doença, você precisa de ajuda, precisa conversar com a mamãe e o papai, se o tratamento não está funcionando podemos achar outra solução. - Valéria disse com a voz trêmula.

___ Não! - Gritou. - Não é isso, vocês nunca vão entender, é essas medicações que estão me matando todos os dias, eu preciso parar, preciso acabar com esse tratamento, eu melhorei tanto, mas quando vou pra terapia e tomo esses remédios, tudo muda.

___ De onde você tirou isso?! - Se sentou. - Foi graças a esse tratamento que tudo mudou, ou será que esqueceu de todas as crises que teve até começar a se tratar? Esqueceu que quase matou uma pessoa por raiva? Esqueceu quando me afogou na piscina por um simples surto que teve? - Ela suspirou lembrando do episódio. - Leon, na realidade eu nunca consegui entender você e seu transtorno, é algo totalmente diferente do normal, suas reações nunca foram somente por bipolaridade, mas se o tratamento ajudou de alguma forma, então você precisa continuar, não pode se deixar levar.

Ele sentou rapidamente de frente pra ela, encarando seriamente e já sem chorar.

___ Como assim? Está querendo dizer que sou ruim por que quero? - Falou rápido. - Irmã, eu jamais iria machucar você só porque quero, foi um surto, você estava tentando me pegar, eu não aceitei aquilo, parece que eu não tinha mais controle e fiquei com medo, só isso.

___ Não falei que é ruim, você é incrível, inteligente, amoroso, só precisa enxergar isso e parar de colocar a culpa na sua condição. - Pegou em sua mão machucada. - Eu sei que sempre lutou contra tudo isso, sei que não tem culpa de ser assim, mas precisa confiar em quem quer seu bem, você não conversa mais comigo como antes, estou aqui para te apoiar.

A menina levantou e pegou um pano molhado para limpar sua mão.

___ Você não pode continuar assim, precisa conversar com nossos pais e dizer que não está bem. - Ele negou. - Eles sempre usaram seu transtorno como desculpa, nunca deram a devida atenção para isso, mas nunca é tarde para tentar outro caminho, só precisa ser sincero.

___ Vou repetir, vocês nunca vão entender minha mente. - Levantou.

___ Nem você se entende, como nós vamos? - A menina levantou também. - Se você não conversar com nossos pais, eu vou! Não é só você que sofre, isso afeta todos nós, então seja homem e assuma que precisa de ajuda de verdade.

Ela foi até a porta, mas antes de ir, olhou para ele uma última vez.

___ Última coisa, para de mentir pra Sol, eu já sei que não está indo para terapia e hoje também não foi, se magoar ela de novo esquece que tem uma irmã pois vou ficar do lado dela até o fim.

Terminou e saiu, deixando o garoto imóvel no meio do cômodo.

No outro dia Leon preferiu não falar com ninguém e se trancar em seu quarto, na hora do almoço Valéria questionou os pais sobre seu irmão.

___ Vocês não podem continuar fechando os olhos para isso tudo, o Leon está acabando com ele mesmo! - A menina tentava a todo custo convencer os pais.

___ Mas filha, isso é normal do seu irmão, ele tem os momentos de crise e depois melhora, não podemos controlar isso. - Lúcia tentou explicar e Murilo só acenou concordando.

___ Vocês só vão se arrepender de tudo quando for tarde demais e quando o Leon mostrar quem ele é de verdade. - Levantou retirando seu prato da mesa. - Vai ser a maior decepção de vocês, só espero que isso tudo não chegue até a Marisol, não quero que ela seja mais uma vítima dele e de vocês que aceitam tudo o que ele faz por medo de perder o filho perfeito e futuro Ceo da Aurea Viajes, até porque essa é a única coisa que lhe preocupa né papai?!

O pai encarou a menina com um olhar de repreensão.

___ Já chega Valéria, não comece com essa sua personalidade de justiça, eu estou fazendo o que posso por esta família todos os dias, seria bom se reconhecesse isso. Você tem o que quer, a hora que quer, não é o suficiente? - Falou alto. - Se eu estou preparando seu irmão para isso, é porque sei da capacidade dele e nada vai me atrapalhar, muito menos uma crise emocional por problemas que vocês jovens criam, então chega!

___ Sim, tenho sede de justiça, essa sou eu e é nessas horas que tenho cada vez mais certeza de que sou a única peça errada nesse quebra cabeça. Às vezes eu olho pra vocês e sinto que estou no lugar errado. Como se todo mundo aqui soubesse o roteiro… menos eu.

___ Valéria, chega! - A mãe gritou. - Já chega disso tudo, saia daqui!

A menina só obedeceu e saiu, foi encontrar com Marisol para estudarem, estavam se preparando para o vestibular.

Lúcia chorou após a saída da filha e Murilo lhe tranquilizou, aquelas frases da filha eram como facadas em seu peito, seu maior medo estava cada vez mais aparente e ela não sabia mais o que fazer.

Enquanto a briga acontecia, Leon escutou tudo e acabou soltando um sorriso leve, ele sabia que podia acontecer o que fosse, os pais sempre iam jogar isso para debaixo do tapete e esquecer e ele adorava aquele caos, adorava saber que tinha tudo e todos em suas mãos.

Enquanto o silêncio voltava à casa, Leon fechou os olhos e respirou fundo.

Havia algo reconfortante naquela desordem.

No fundo… ele sempre se sentira mais vivo quando tudo estava prestes a ruir.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App