Seis

O clube não precisava de placas nem de nomes. Luzes baixas, vozes contidas, copos caros. Rafael estava afundado na poltrona de couro, o terceiro uísque da noite pela metade.

Ou o quarto.

Ele não contava mais.

- Você perdeu completamente a noção - Nelson disse, apoiando os cotovelos na mesa. - Rafael… você amava aquela mulher de um jeito doentio.

Rafael riu, um riso curto, amargo, e levou o copo à boca.

- Amava? - repetiu. - Eu ainda a amo.

- Então explica isso - insistiu o amigo. - Desde o primeiro dia da faculdade você perseguiu a Lorena. Cinco anos. Cinco. Até ela aceitar você. E agora você tem um filho com outra mulher… e deixa sua esposa doente num hospital sem ter como pagar a conta?

Rafael bateu o copo na mesa com força suficiente para chamar atenção.

- É exatamente por isso que ela vai ter que voltar - disse, os olhos escuros, injetados. - E vai ter que me provar que merece o meu amor.

Nelson respirou fundo.

- Ouve o que você está dizendo.

- Eu a mimei como um tesouro - Rafael continuou, ignorando-o. - Dei tudo. Tirei ela do nada. Do mundo pequeno dela. E ela não consegue aceitar meu filho.

Ele riu de novo, sem humor.

- O que ela espera? Que eu aborte o meu filho?

- Rafael…

- Eu nem dormi com a Nina - ele interrompeu. - Foi uma FIV. Nada além disso. E mesmo assim ela age como se eu fosse um monstro.

Ele virou o copo e fez sinal para outro.

- Ela é ingrata.

Nelson passou a mão pelo rosto, cansado.

- Você devia ter conversado com ela antes. - disse, firme. - Devia ter sido honesto. Planejar esperar o bebê nascer pra contar foi errado.

Rafael estreitou os olhos.

- Eu não toquei nesse assunto pra não magoá-la - respondeu, ríspido. - Você acha que eu não sei que não poder ser mãe é um espinho cravado no coração dela?

- Justamente por isso - Nelson rebateu. - Justamente por isso você devia ter sido mais cauteloso.

O silêncio caiu pesado entre eles.

Rafael apertou o maxilar. O humor, já péssimo, escureceu ainda mais. Nelson percebeu e recuou. Conhecia o amigo o suficiente para saber quando insistir deixava de ser prudente.

- E então? - Nelson perguntou, mais baixo. - Você vai deixá-la no hospital desse jeito?

Rafael apoiou o copo na mesa, lentamente.

- Não seja ridículo - disse. - Desde que ela deu entrada, eu falei com o diretor do hospital. Ela está tendo o melhor atendimento possível.

Nelson franziu a testa.

- Então por quê…

- Porque eu quero que ela venha me procurar - Rafael o interrompeu. - Quero que ela reconheça o erro que cometeu pedindo o divórcio como se tudo o que eu fiz por ela não significasse nada.

Ele se inclinou para frente, a voz baixa, controlada demais.

- O filho já é um fato consumado. Se eu não der uma lição nela, como ela vai voltar. Vai aceitar. Sem reservas.

Nelson sentiu um arrepio.

- Você já pensou que talvez ela não aceite? De jeito nenhum.

Rafael ergueu o olhar. A expressão era tão sombria que fez o amigo recuar.

- Isso não é uma opção.

Ele voltou a encarar o líquido âmbar no copo.

- Às vezes, as pessoas precisam de um choque de realidade para aprender.

Nelson não respondeu.

No fundo, ele sabia: quando o assunto era Lorena, Rafael sempre fora extremo. Tão extremo que um dia quase desistira da própria vida por não tê-la.

E agora…

Agora ele não fazia ideia de até onde o amigo seria capaz de ir para trazê-la de volta.

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