Mundo de ficçãoIniciar sessãoO relógio marcava nove horas da manhã.
Helena tentava se concentrar nas anotações da faculdade, mas seus olhos insistiam em voltar para o cartão dourado sobre a mesa. Lorenzo Castellani. Ela ainda não acreditava que havia conhecido um dos empresários mais influentes do país da maneira mais inesperada possível. Mas o que realmente ocupava seus pensamentos não era a fortuna dele. Era o abraço de Enzo. O jeito como aquele menino a olhara. Como se ela fosse um porto seguro. Um porto que ela própria já não tinha. Na Mansão Castellani... Enzo desceu as escadas correndo. Pela primeira vez em muito tempo, acordara sorrindo. Encontrou o pai terminando o café da manhã. — Bom dia, campeão. Lorenzo sorriu ao vê-lo. — Dormiu bem? Enzo sentou-se rapidamente. — Papai... Ela vem hoje, não vem? Lorenzo fingiu não entender. — Quem? — A Helena. O empresário sorriu discretamente. — Ela aceitou o convite. Se não mudar de ideia, estará aqui esta noite. Os olhos do menino brilharam. — Eu posso mostrar meu quarto para ela? — Se ela quiser conhecer. — E o jardim? — Também. — E o balanço? Lorenzo riu. — Devagar, campeão. Ela ainda nem chegou. Enzo sorriu. Fazia muito tempo que Lorenzo não via o filho tão animado. Do outro lado da mesa... Sabrina apertou discretamente a xícara de café. Cada palavra de Enzo era como uma agulha em seu orgulho. Ela sorriu, fingindo naturalidade. — É muito bonito ver como você ficou agradecido por ela. Enzo respondeu sem pensar. — Ela é muito boa. Sabrina olhou rapidamente para Lorenzo. Depois voltou sua atenção ao menino. — Existem pessoas que fazem boas ações esperando alguma recompensa. Enzo franziu a testa. — A Helena não é assim. Ela sorriu falsamente. — Você a conhece há... quanto tempo? Uma hora? Duas? Como pode ter tanta certeza? Antes que Enzo respondesse, Lorenzo interveio. — Sabrina. Ela olhou para ele. — Sim? — Não acho justo julgar alguém que nem conhecemos. O sorriso dela congelou por um instante. — Claro... Eu só estava comentando. Mas, por dentro, a raiva aumentava. Lorenzo nunca a havia corrigido daquela forma. Muito menos na frente de Enzo. Após o café... Lorenzo entrou em seu escritório. Seu irmão mais novo, Miguel Castellani, já o aguardava. Miguel era o oposto de Lorenzo. Enquanto o irmão era reservado e sério... Miguel era expansivo, bem-humorado e conquistava qualquer ambiente com facilidade. Assim que Lorenzo entrou, Miguel abriu um sorriso. — Então... É verdade? Lorenzo arqueou uma sobrancelha. — Sobre o quê? — Sobre a mulher misteriosa. Lorenzo suspirou. — A notícia corre rápido nesta casa. Miguel riu. — Os seguranças comentaram. Disseram que uma moça salvou o Enzo de um atropelamento. Lorenzo caminhou até a janela. — Ela salvou a vida dele. Miguel percebeu algo diferente na voz do irmão. Apoiou-se na mesa. — E você? Lorenzo virou-se. — O que tem eu? — Como ela é? Por alguns segundos, Lorenzo permaneceu em silêncio. Depois respondeu calmamente: — Corajosa. Gentil. Muito educada. Miguel sorriu de lado. — Só isso? Lorenzo pensou por um instante. — Ela parecia triste. Muito triste. Como alguém que tinha acabado de perder alguma coisa importante. Miguel cruzou os braços. — Você reparou em bastante coisa para quem acabou de conhecê-la. Lorenzo sorriu discretamente. — Acho que qualquer pessoa teria percebido. Miguel conhecia o irmão melhor do que ninguém. Sabia que Lorenzo raramente prestava atenção em alguém além do trabalho e do filho. Aquilo despertou sua curiosidade. Enquanto isso... Helena terminava de organizar alguns livros da faculdade quando a campainha tocou. Ao abrir a porta, encontrou sua vizinha. Dona Teresa. Uma senhora simpática que morava no mesmo andar. — Bom dia, minha querida. Helena sorriu. — Bom dia. A senhora segurava uma revista nas mãos. — Fiquei sabendo que o casamento foi cancelado. Helena ficou surpresa. A notícia já havia começado a se espalhar. Ela apenas assentiu. — Sim... Foi. Dona Teresa segurou delicadamente suas mãos. — Às vezes Deus fecha uma porta porque sabe que atrás dela existe um abismo. Helena sentiu os olhos marejarem. — Vai doer por um tempo. Mas você ainda vai agradecer por esse livramento. A jovem sorriu emocionada. — Obrigada. A senhora despediu-se e seguiu pelo corredor. Helena fechou a porta lentamente. Aquela palavra ficou ecoando em sua mente. Livramento. Talvez fosse exatamente isso. No início da tarde... Helena abriu o guarda-roupa. Ficou olhando as roupas. Suspirou. O convite para jantar na mansão de um bilionário parecia completamente fora da sua realidade. Experimentou um vestido. Achou exagerado. Depois outro. Muito formal. Separou uma calça social. Parecia séria demais. Clara apareceu na porta do quarto. Sorriu ao ver a bagunça. — Está escolhendo roupa há quanto tempo? Helena riu pela primeira vez em dias. — Uns quarenta minutos. — E por quê? — Não quero passar vergonha. Clara caminhou até o armário. Pegou um vestido azul-marinho de corte simples, elegante e delicado. — Use este. Helena observou a peça. — Não é muito simples? A mãe sorriu. — Filha... A elegância nunca esteve no preço de uma roupa. Ela está na mulher que a veste. Helena abraçou a mãe. — O que eu faria sem você? — Provavelmente escolheria o vestido errado. As duas riram. Por alguns instantes... A dor deu lugar a um pouco de leveza. Enquanto isso... Na Mansão Castellani... Sabrina caminhava até o escritório de Lorenzo. Bateu à porta. — Posso entrar? — Claro. Ela entrou sorrindo. — Estava pensando... Talvez seja melhor cancelar esse jantar. Lorenzo levantou os olhos dos documentos. — Por quê? — A imprensa vive procurando motivos para criar escândalos. Imagine as manchetes. "Bilionário recebe jovem desconhecida em sua mansão." Pode dar margem para interpretações. Lorenzo fechou a pasta que analisava. Seu olhar tornou-se firme. — Helena estará aqui porque salvou meu filho. Nada além disso. Não tenho motivo algum para esconder um gesto de gratidão. Sabrina forçou um sorriso. — Claro... Foi apenas uma sugestão. Ela saiu da sala mantendo a postura elegante. Mas, assim que a porta se fechou, sua expressão mudou completamente. Ela apertou os punhos. Se Lorenzo não cancelaria o jantar... Ela faria outra coisa. Pegou o celular. Ligou para alguém. Assim que a ligação foi atendida, falou em voz baixa: — Quero que descubra por onde Helena Monteiro costuma passar. E quero isso antes do anoitecer. Do outro lado da linha, a resposta foi imediata. — Considere feito. Sabrina encerrou a chamada. Um sorriso frio surgiu em seus lábios. — Você ainda nem entrou na minha casa... E já começou a atrapalhar meus planos. Vamos ver até onde vai sua coragem. Naquele mesmo instante, sem imaginar que estava sendo observada, Helena terminava de se arrumar para o jantar que mudaria sua vida. Ela não fazia ideia de que, antes mesmo de chegar à mansão, alguém já havia decidido transformá-la em alvo.






