Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena terminou de prender os cabelos diante do espelho.
Respirou profundamente. O vestido azul-marinho escolhido por Clara caía perfeitamente em seu corpo. Era elegante, discreto e delicado. Uma maquiagem leve realçava seus olhos castanhos. Nos pés, um simples salto nude. Ela olhou para seu reflexo. Pela primeira vez desde a traição, voltou a enxergar a mulher forte que sempre existira dentro dela. Clara apareceu na porta do quarto. Seus olhos se encheram de orgulho. — Você está linda. Helena sorriu timidamente. — Está muito simples? Clara caminhou até ela e ajeitou delicadamente uma mecha de cabelo atrás de sua orelha. — Você não precisa competir com ninguém. Quem tem luz própria nunca precisa brilhar mais do que os outros. Helena abraçou a mãe. — Obrigada... por tudo. Clara beijou sua testa. — Apenas seja você. É suficiente. Às seis e meia da tarde, um elegante carro preto parou em frente ao prédio. O motorista desceu imediatamente. Vestia um impecável terno preto. Ao chegar à portaria, perguntou educadamente: — Senhorita Helena Monteiro? Ela confirmou. — Sim. O homem sorriu. — Sou Eduardo, motorista da família Castellani. O senhor Lorenzo pediu que eu a acompanhasse até a mansão. Helena agradeceu. Despediu-se da mãe com um abraço apertado. — Me manda mensagem quando chegar. — Pode deixar. Ao entrar no carro, sentiu um leve frio na barriga. Tudo aquilo parecia um sonho. Ou talvez o começo de uma nova vida. Durante o trajeto... Helena observava a cidade pela janela. O trânsito seguia intenso. As luzes dos prédios começavam a iluminar a noite. Eduardo dirigia com tranquilidade. Depois de alguns minutos, comentou: — O pequeno Enzo passou o dia inteiro perguntando que horas a senhorita chegaria. Helena sorriu involuntariamente. — Sério? — Sim. Nunca o vi tão animado. Ela abaixou os olhos. Aquele menino já ocupava um lugar especial em seu coração. Enquanto isso... Na Mansão Castellani... Enzo olhava pela enorme janela da sala. A cada carro que passava, corria para a porta. — Ainda não é ela... Sofia, a governanta da casa, sorriu. Era uma senhora de aproximadamente sessenta anos, conhecida por todos pelo enorme coração que possuía. Ela cuidava de Enzo desde o nascimento. — Tenha um pouquinho de paciência, meu príncipe. Ela já vai chegar. Enzo suspirou. — Parece que o relógio está andando devagar. Sofia riu. — Quando estamos ansiosos, ele realmente anda. Bem devagar. No escritório... Miguel observava Lorenzo colocar o relógio. — Você está nervoso. Lorenzo levantou uma sobrancelha. — Eu? — Sim. Você já trocou de gravata três vezes. Lorenzo olhou para o irmão. — Não exagere. Miguel começou a rir. — Conheço você desde que nasceu. Só fica assim quando alguma coisa realmente importa. Lorenzo pegou o paletó. — Ela salvou meu filho. É claro que esse jantar importa. Miguel sorriu de lado. — Claro... É só por isso. Lorenzo ignorou a provocação. Mas, no fundo... Nem ele conseguia explicar por que estava inquieto. Na entrada da propriedade... Os enormes portões de ferro começaram a se abrir lentamente. O carro entrou. Helena arregalou discretamente os olhos. A estrada cercada por jardins impecáveis parecia não ter fim. Fontes iluminadas. Esculturas. Árvores centenárias. Tudo transmitia elegância. Alguns minutos depois... A mansão surgiu diante dela. Era ainda mais impressionante do que qualquer fotografia de revista. Helena respirou fundo. — Meu Deus... Eduardo sorriu pelo retrovisor. — Bem-vinda à Mansão Castellani. O carro parou diante da escadaria principal. Antes mesmo que o motorista abrisse a porta... Ela se abriu por dentro. Enzo saiu correndo. — Helena! Ela mal teve tempo de descer. O menino já a abraçava com toda a força. Helena sorriu emocionada. — Oi, campeão. Sentiu o pequeno beijar sua bochecha. — Você voltou... Ela acariciou seus cabelos. — Eu prometi, não prometi? — Prometeu. E cumpriu. Lorenzo observava a cena da porta principal. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios. Havia muito tempo que não via o filho tão feliz. Helena finalmente levantou os olhos. Encontrou Lorenzo parado na escadaria. Ele vestia um elegante terno azul-escuro. Sem gravata. A camisa branca tinha os primeiros botões abertos, dando um ar sofisticado e ao mesmo tempo descontraído. Por um instante... Os dois apenas se olharam. Helena sentiu o coração acelerar. Lorenzo também percebeu algo diferente. Ela estava linda. Mas não era apenas sua beleza. Era a delicadeza. O sorriso. A forma como segurava a mão de Enzo. Aquela imagem parecia... familiar. Como se pertencesse àquela casa. Ele afastou imediatamente aquele pensamento. Desceu os degraus. Parou diante dela. — Boa noite, Helena. Ela sorriu. — Boa noite, senhor Castellani. Ele fez uma expressão divertida. — Depois de tudo o que aconteceu... Acho que "Lorenzo" é suficiente. Ela riu. — Tudo bem... Lorenzo. Ele sorriu. — Bem melhor. Do alto da escadaria... Escondida atrás de uma coluna... Sabrina observava tudo. Viu Lorenzo sorrir. Viu Enzo segurando a mão de Helena. Viu a naturalidade com que conversavam. Seu sangue ferveu. Ela jamais conseguira conquistar aquele tipo de carinho espontâneo do menino. Nem aquele sorriso tão leve de Lorenzo. Apertou a taça de champanhe com tanta força que quase a deixou cair. — Aproveite esta noite... Ela murmurou. — Porque será a última em que vai se sentir bem-vinda nesta casa. Sem perceber que estava sendo observada, Helena entrou na mansão ao lado de Enzo. O menino segurava sua mão com firmeza. Como se tivesse medo de que ela desaparecesse novamente. Enquanto caminhavam pelo enorme hall de entrada, Helena admirava cada detalhe. Mas, estranhamente... O luxo não era o que mais chamava sua atenção. Era o silêncio. Apesar de toda aquela grandiosidade, aquela casa parecia vazia. Como se faltasse algo. Ou alguém. E, pela primeira vez em muitos anos... Lorenzo teve exatamente a mesma sensação. Ao olhar Helena caminhando ao lado de Enzo, uma pergunta surgiu em seu coração. Seria possível que uma desconhecida pudesse devolver vida a uma casa que há tanto tempo conhecia apenas a saudade? Sem saber, do outro lado do corredor, Sabrina observava a cena com um sorriso frio. Seu plano já estava em andamento. E antes que aquela noite terminasse... Helena receberia o primeiro golpe de uma guerra que nem imaginava ter começado.






