Mundo ficciónIniciar sesión"Engana-se quem acredita apenas em pessoas próximas; na maioria das vezes, a salvação vem de estranhos."
Vendo que Maya estava muito machucada, Lucas a pegou nos braços, abriu as asas e voou o mais rápido que pôde. Assim que chegou ao hospital, Maya foi socorrida. O doutor disse que ela ficaria internada e que Lucas poderia ir embora e voltar depois. Mas ele não aceitou — queria e precisava ficar com ela o tempo todo.
A noite foi cansativa e longa. Assim que amanheceu, Lucas olhou pela janela. O sol estava nascendo. Logo alguém chegaria. Ele havia passado a noite acordado, com medo de que algo acontecesse, mas aquele momento parecia propício. Fechou os olhos e, finalmente, dormiu.
Assim que acordou, Maya sentiu dores fortes e intensas por todo o corpo. Virou-se para chamar a enfermeira, mas algo lhe chamou a atenção. Lucas dormia profundamente, sentado numa cadeira branca que não parecia nem um pouco confortável. Ela observou os olhos fechados, a mecha de cabelo preto e liso caída sobre o rosto e os lábios finos, bem desenhados. Ele não parecia mesmo um anjo.
Em suas fantasias, Maya sempre imaginou que anjos fossem loiros e de cabelos cacheados. Jamais pensou que pudesse haver exceções.
Ver Lucas naquela posição desconfortável a deixou um pouco culpada. Ele estava ali por causa dela. Sua vida estava naquela situação porque ela havia decidido voltar para Geremy. Foi então que tomou uma decisão: enquanto ele estivesse com ela, desfrutaria de tudo que ela tivesse de melhor. Teria a melhor cama, as melhores roupas e os melhores sapatos. Era o mínimo que podia fazer. Afinal, ela o havia tirado do paraíso.
Nesse instante, Lucas abriu os olhos e percebeu que dois olhos castanhos o observavam. Tentou adivinhar o que ela estava pensando, mas não chegou nem perto. A mulher tinha cabelos castanhos, quase ruivos, ondulados, cortados na altura dos ombros e uma expressão que misturava dor e firmeza.
Vendo que não conseguiria decifrá-la, Lucas perguntou:
— Você está melhor?
Maya assentiu, e, olhando fixamente para ele, disse:
— Tomei uma decisão. Não quero que ninguém saiba que eu sobrevivi. Pelo menos, não até eu me recuperar.
Lucas pensou consigo mesmo: Como se eu pudesse contar para alguém... Um sorriso escapou de seus lábios.
Maya o olhou confusa. O que havia de engraçado?
Ele, vendo a confusão no olhar dela, respondeu:
— Você falou como se eu pudesse contar a alguém. Esqueceu que não conheço ninguém aqui além de você?
Maya sorriu de volta. Como pudera esquecer disso?
— Desculpa, ainda não me acostumei ao fato de você ser um anjo. É que você parece tão real...
Lucas sorriu novamente.
— Mas eu sou real. Só não pertenço a este mundo.
Nesse momento, o doutor entrou no quarto, acompanhado de duas enfermeiras. Explicou que Maya estava muito machucada e que era um milagre ela ter sobrevivido. Disse que seria necessário ficar bastante tempo no hospital, pois o raio X mostrava fraturas nas costelas, pernas e braço esquerdo.
— Você precisará passar por cirurgias e depois fazer fisioterapia — explicou o médico. — Para que tudo volte ao normal.
— E quanto tempo eu terei que ficar aqui ? — Maya perguntou.
— Um ano. — Respondeu o doutor.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Maya.
— Está dizendo que vou passar um ano no hospital?
O doutor tentou amenizar:
— Talvez menos, senhorita. Mas, como disse, você se machucou muito. Serão várias cirurgias, feitas com intervalos. Depois, virá o repouso e, em seguida, a fisioterapia. Por isso estipulei esse prazo.
Maya abaixou a cabeça por um breve instante. Um ano era exatamente o tempo que ela tinha. Como poderia passar todo aquele tempo assim, sem fazer nada? Mas, vendo que não havia outra solução, assentiu e agradeceu ao doutor.
O resto do dia foi longo e dolorido. Maya gemia e fazia caretas a cada tentativa de encontrar uma posição mais confortável. Lucas a observava calado. Algo lhe dizia que não era o momento de interferir.
À noite, Maya não conseguiu dormir. Chorava silenciosamente, tentando evitar que Lucas a ouvisse. Vendo o sofrimento dela, o anjo começou a se incomodar. Levantou-se da cadeira, foi até ela e perguntou:
— Quer que eu te cure?
Maya arregalou os olhos, surpresa.
— Mas… você pode?
Lucas curvou os lábios num quase sorriso.
— Todos os anjos têm um dom específico. Alguns têm o dom da sabedoria, da transcedência; outros, da intercessão. Eu tenho o dom da cura. Somos responsáveis por cuidar das pessoas aqui na Terra.
— Mas você pode mesmo? Não há nenhum problema se fizer isso?
Lucas pensou por um tempo. Não podia mentir.
— Poder, eu posso. Mas se sua pergunta for se devo… a resposta é não. Não podemos interferir nas coisas da Terra, a menos que sejamos mandados.
— E o que acontece se você me curar? — Maya insistiu.
— Eu não sei — respondeu. — A gente sabe que existe uma punição, mas nunca nos disseram qual seria.
Maya pensou. Já havia tirado ele do paraíso, trazido para um lugar desconhecido. Não podia prejudicá-lo ainda mais.
— Sendo assim… não precisa — disse com firmeza.
Lucas olhou-a confuso. Como ela podia preferir continuar sentindo dor?
Antes que ele dissesse algo, ela completou:
— Você não sabe qual é a punição, e eu, muito menos. Mas sei de uma coisa: eu jamais me perdoaria se algo acontecesse com você. Já te prejudiquei demais. Por egoísmo, por querer voltar... acabei tirando você da sua casa, da sua vida. Eu não me perdoaria mesmo.
Lucas argumentou:
— Mas eu quero fazer isso. Você só tem um ano... Não pode passá-lo aqui. É injusto.
Maya o olhou surpresa. Como podia discordar daquilo, sendo um anjo?
Ele pegou em sua mão, olhou em seus olhos com ternura e disse:
— Eu me responsabilizo. Me deixa te ajudar.
Por um instante, os olhos de Maya brilharam como a lua. Sentiu vontade de dizer "sim". Mas sabia do risco. Sorriu para ele, com doçura, e respondeu:
— Não posso aceitar que se arrisque ainda mais por minha causa. É melhor assim.
Lucas não insistiu, apenas abaixou a cabeça em consentimento.
— Então é melhor você descansar.
Um peso repentino tomou os olhos de Maya; ela tentou resistir, mas não conseguiu.Certamente o remédio estava fazendo efeito. Antes de adormecer completamente, notou um detalhe: Lucas ainda segurava sua mão.







