De Volta a Vida

"Algumas verdades chegam para provar que se pode viver cego mesmo enxergando perfeitamente bem."

Deitada sobre algo duro, a dor no corpo de Maya era intensa, mas naquele momento, a dor em seu coração parecia superar todas as outras. Flashes começaram a retornar à sua memória e, então, um desespero enorme a consumiu.

Maya se viu diante de um espelho, vestida de branco, quinze dias antes. Seus olhos brilhavam — e os de Geremy, ainda mais. Ele a abraçou por trás e sussurrou em seu ouvido:

— Eu tenho a noiva mais linda do mundo.

Jenny, com os olhos cheios de lágrimas, a observava deslumbrada. Ela era realmente a irmã que Maya nunca teve. Desde a faculdade, sempre estiveram juntas e, após a morte dos pais de Maya, a amizade entre as duas se fortaleceu ainda mais.

Momentos depois, outra cena veio à mente: um carro preto batendo nela no meio da rua. Isso havia acontecido algum tempo antes da semana do casamento. Os flashes eram rápidos, mas traziam a Maya uma certeza: ela estava viva. Ela havia conseguido.

Nesse instante, um último flash passou pela sua mente. Esse foi mais demorado e parecia ser o responsável por fazer seu coração doer mais do que o próprio corpo: o dia do seu casamento…

Ela havia acordado cedo; mal conseguira dormir — ainda havia muitas coisas para organizar. Precisava buscar o vestido de noiva, o buquê, os sapatos… e ainda tinha que fazer a maquiagem. Era realmente um dia cheio pela frente. Lembrou-se de que precisava da sua bolsa: os sapatos seriam pagos no momento da entrega. Mas sua bolsa não estava no lugar de sempre. Sorriu por um momento. Devia mesmo ter bebido demais na despedida de solteira… Como pudera esquecer a própria bolsa?

Ligou para Jenny, mas ela não atendeu. Então, foi até a casa dela para pegar a bolsa, que com certeza havia esquecido lá. Assim que chegou, viu que a porta estava trancada. Tocou a campainha — ninguém respondeu. Sorriu e comentou sozinha:

— Ela realmente dorme como uma pedra...

Ainda bem que Maya tinha a chave. Destrancou a porta e entrou. A princípio, ficou surpresa com o cenário: roupas jogadas por toda parte. Uma camisa masculina chamou sua atenção. Maya sorriu — não podia acreditar que Jenny havia levado alguém para casa logo após a despedida de solteira. Ela realmente não perdia tempo.

Viu a bolsa num canto da parede. Quando se aproximou para pegá-la, percebeu que a porta do quarto de Jenny estava entreaberta. Não queria olhar; achava que não tinha o direito de invadir a privacidade da amiga. Mas a tatuagem na perna esquerda daquele homem chamou sua atenção.

Maya parou por um momento. Não queria — e nem podia acreditar que aquilo estava realmente acontecendo. Aproximou-se um pouco mais para observar o casal. Abraçados, com o lençol cobrindo apenas algumas partes do corpo, Jenny e Geremy dormiam com uma tranquilidade que Maya definiu como espantosa.

Seus olhos se encheram de lágrimas. Como puderam fazer isso com ela? Como aquele homem, que dizia estar tão apaixonado, podia estar ali com sua melhor amiga — aquela que dizia ser sua irmã?

Num impulso, Maya puxou o lençol e gritou:

- Eu posso saber o que de fato está acontecendo aqui?!

A ideia de puxar o lençol foi para ter certeza de que aquilo não era apenas uma impressão. Os dois acordaram em pânico. Geremy dizia que não era o que parecia. Jenny afirmava que podia explicar. Mas a verdade é que não havia explicação. O mundo de Maya estava desmoronando — e o que deveria ser o melhor dia da sua vida se transformou no pior de todos.

Maya saiu correndo do apartamento. Geremy tentou ir atrás, mas precisava se vestir primeiro. Esse tempo foi suficiente para que Maya conseguisse fugir.

A partir desse momento, mil memórias vieram à cabeça de Maya — e todas elas doíam mais do que ela gostaria. Lembrou-se de que andou o dia inteiro sem rumo, chorando, e perdeu as contas de quantas vezes seu celular tocou. Lembrou-se de que passou por vários lugares importantes em seu relacionamento: um deles foi a ponte onde ocorreu o pedido de namoro — e também o primeiro beijo.

Tudo o que antes era um sonho se transformou em pesadelo. Era demais para Maya suportar. No entanto, nenhuma lembrança doía tanto quanto a da corrida pela floresta. Ela havia sido rastreada por seu próprio celular. Maya percebeu que era Geremy quem a seguia naquele dia, que foi Jenny quem disse "deixa ela aí mesmo". E o pior: foi Geremy quem a empurrou.

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