Mundo ficciónIniciar sesiónHANNAH
Faço um esforço para recordar o que eu fiz hoje, a ferida na minha cabeça não me ajudava a lembrar, muito menos a fera atrás de mim.A semana havia sido longa, o serviço estava sendo bem puxado, de dia trabalhava servindo café e a noite, antes de fechar, era oferecido alguns drinques. Fiquei imaginando se a Sra. Pierce precisava tanto assim de dinheiro, ser autônoma realmente não deve ser fácil. Para o meu alívio, essa rotina se estenderia até o fim da lua cheia, pois todo o comércio ficaria aberto até as nove da noite, algo relacionado a um calendário que todos os moradores deveriam seguir. Espero que não seja realmente em toda lua cheia, porém não conheço bem as tradições da cidade ainda, mas ao que parece cheguei em meio os preparativos de um festival tradicional dessa região.
Caminhei até a janela e pude ver a lua brilhando no céu, iluminando as ruas do centro da cidade. Como os postes permaneciam desligados neste horário, o brilho que emanava dela deixava tudo tão claro do lado de fora, mesmo não estando em seu auge.Lembro-me de ter passado pela Sra. Lucy que fechava o caixa e antes de subir para o meu quarto, parei no pé da escada e tentei puxar conversa. Ela não era de falar muito durante o expediente, pois suas tarefas eram mais focadas na parte da cozinha, no interior do café. Lilly e eu ficávamos com o atendimento ao público e nos preparos das bebidas. Lilly quem cuidava do caixa, mas como ela estava ausente hoje, a Sra. Lucy ficou encarregada de mais essa função.
“Sra. Pierce, é impressão minha ou as moças aqui da cidade não foram muito com a minha cara? Eu vejo elas passando pela porta e olhando, mas não chegam a entrar. E desde que comecei a trabalhar aqui, só atendi os rapazes. Será que elas não gostaram muito de mim?”
Surgiu um breve silêncio. Estava quase arrependida de tocar no assunto, mas a curiosidade já me consumia há algum tempo, quando a Sra. Pierce respondeu:
“É apenas impressão sua, minha criança. Não tivemos muitos clientes essa semana. O movimento está fraco devido às preparações para o festival de hoje. Elas estão mais preocupadas com as roupas que irão vestir, do que, com o que comer.” Sua voz era suave e eu gostava quando ela me chamava de ‘minha criança’, era a mesma forma que ela falava com sua filha e isso me fazia sentir como se fosse parte da família.
“Só não quero atrapalhar o seu negócio. Vai que elas me veem como uma rival por estar solteira. Se tivesse um modo de avisá-las que eu quero distancia de relacionamentos.” Usei um tom mais brincalhão.
Então a vi sorrindo, mesmo que seu semblante parecesse mais triste do que os outros dias.
“Elas não estão acostumadas a dividirem atenção, mas logo vão se acostumar com sua presença. A partir de amanhã as coisas irão mudar um pouco. Não se preocupe demais.” Seu olhar para mim era de ternura, o que fez meu coração se aquecer, então devolvi o sorriso com um aceno de cabeça.
“Não vi a Lilly desde ontem. Ela está bem?” Tentei mudar de assunto para ver se a alegrava um pouco ao falar da filha.
“Ela foi à casa de uma amiga, disse que precisava de um pouco de ar. Lilly sendo Lilly!”
Dessa vez a Sra. Pierce respondeu sem tirar os olhos do caixa onde contava os lucros recebidos no dia. Como pensei que pudesse estar atrapalhando, comecei a subir as escadas.
“Entendi. Acho que já estou sentindo a falta dela.”. Sorri, meio sem jeito. “Vou subir tomar um banho, se precisar de algo pode me chamar. Nos vemos amanhã.”
“Tenha uma boa noite, querida.”
Ela me olhou correspondendo o sorriso, mas fechando os olhos como se estivesse em dor. Pensei ser do cansaço do dia, ela disse que o movimento estava fraco essa semana, mas tivemos tantos clientes, posso imaginar como deve ser quando está bom.
Falando sobre Lilly, eu realmente estava sentindo sua falta. Ela irradiava vida, não consigo explicar, era como se eu a conhecesse a muito tempo. Sabe aquele tipo de pessoa que te coloca para cima só por estar ao seu lado, que te faz rir e tudo parece acontecer na vida dela? Essa é a Lilly, sempre com muitas histórias para contar e um sorriso no rosto. Na minha vida nada de extraordinário acontecia então eu ficava feliz em ouvir suas histórias, me sentia vivenciando-as através de suas palavras.
Faltava um degrau para eu chegar ao segundo andar quando os sinos da porta soaram e vozes vieram em seguida. Então parei na escada para tentar ver quem havia adentrado o café, mas do local onde eu estava só conseguia avistar um par de botas marrom escuro. Havia um pouco de lama seca em volta da sola, sua calça jeans era preta, opaca e ele usava uma camisa branca bem posicionada dentro das calças, com as mangas dobradas propositalmente. Era tudo tão agarrado que as roupas se moldavam ao seu corpo imponente, com músculos bem definidos que deixavam a camisa quase que transparente se olhasse mais de perto. Se eu pudesse descer alguns degraus conseguiria ver o seu rosto, mas não quis fazer barulho. Esperei um pouco para tentar escutar alguma parte da conversa, porque a Sra. Lucy poderia precisar da minha ajuda. Falsa modéstia? Talvez...
A porta estava aberta, quando uma brisa trouxe seu cheiro até mim, era muito bom, preenchia o espaço como à um perfume bem caro, havia algo que remetia a uma floresta de pinheiros e avelãs sendo torradas, fresco e quente ao mesmo tempo. Senti minha íris se dilatando, fazendo minha pupila aumentar, o que era estranho, pois não tinha bebido e nem feito nada para causar esse efeito. E então, escutei a sua voz, era tão sexy, parecia um trovão prestes a se espalhar no céu através de relâmpagos, seu tom era grave e não muito alto, apenas o suficiente para ser confortável aos ouvidos. Minha mente começou a vagar por um momento e me veio uma única palavra: Meu!
Quase saiu pela minha boca, como se fossem ecos vindos da minha cabeça, mas pressionei meus lábios com minhas mãos, assustada com minha reação. O que seria meu? Não estava entendendo. Desci dois degraus para escutar melhor.
"Lucy, ela está pronta?”
Tentei ouvir o que a Sra. Pierce estava falando, mas era tão baixo como se não quisesse que eu escutasse a conversa. Até me perguntei se ela sabia que eu estava ali. E aquele cheiro, parecia inebriar meus sentidos. Era difícil prestar atenção no que eles estavam falando.
“Por que a demora? Você sabe bem que dia é hoje.” Ele subiu um pouco a sua voz. “E sei que ela está aqui, posso sentir o cheiro dela.”
Naquele momento, me abaixei subitamente, como se eles pudessem me ver, mas não teria como, eu estava bem escondida. ‘Será que ele estava falando de mim? Estou cheirando tão forte assim?’, pensei. Até puxei minha blusinha para ver se estava com cheiro de suor, mas não senti nada demais. Meu coração começou a bater mais forte com a tensão de ser pega. ‘Que loucura da minha parte, eles devem estar falando de outra pessoa e eu aqui bisbilhotando.’ Tentei acalmar minha respiração, colocando a mão sobre o peito e decidi controlar minha curiosidade e indelicadeza, afinal, não conhecia mais ninguém aqui além de Lucy e Lilly. Eu estava sendo rude escutando a conversa da mulher que me acolheu.
Chegando enfim ao segundo andar, fui até meu quarto. Quando entrei no banho, só conseguia pensar na cena que havia presenciado anteriormente. Tentei imaginar como seria o rosto daquele homem que tinha um corpo e uma voz tão sensual. Ele era tão grande, as mangas da camisa estavam dobradas, consegui ver a pontinha de uma tatuagem, parecia um símbolo, mas o restante estava coberto. Nunca fui de reparar assim nas pessoas, mas o seu cheiro parecia que estava impregnado no meu nariz, por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em mais nada. Meu sangue corria como água quente dentro de mim e o meu coração estava acelerado. Comecei a me sentir como uma adolescente, se apaixonando a primeira vista. E que vista? Não havia um rosto. Talvez eu tenha me sentido atraída pelo seu cheiro. Talvez fosse sua voz ou o seu físico. Será que eu me impressionaria apenas por um par de pernas musculosas ou um suposto tanquinho de dar inveja? Pausa dramática para minha imaginação. Pois é, talvez! Comecei a rir sozinha, quem me visse, acharia que eu tinha enlouquecido.Perdida em meus devaneios, escutei a porta do banheiro se abrindo abruptamente, mas não pude ver quem entrava, pois tudo estava sendo coberto com um intenso vapor que vinha do chuveiro ligado e antes que conseguisse alcançar minha toalha, senti uma dor intensa atrás da cabeça e não vi mais nada.







