Stella Blake
O carro preto parou em frente ao meu prédio, e não demorou para Dominic sair dele.
Ele estava impecável. Como sempre. O terno preto de sempre marcava cada centímetro dos seus músculos, os ombros largos parecendo esculpidos sob o tecido, e o cabelo perfeitamente alinhado como se tivesse saído de um editorial de revista. Ele se aproximou com as mãos nos bolsos, os óculos escuros escondendo seus olhos, e eu senti meu estômago se contrair.
Olhei para mim mesma e me senti inferior.
A saia social um pouco abaixo do joelho era de um brechó — a única que eu tinha que ainda parecia decente. A blusa era de Meg, ela tinha deixado aqui um dia desses e nunca mais levou, então ficou para mim. Os saltos pretos estavam tão usados que a sola já começava a descolar na ponta. Eram os únicos que eu tinha.
Eu sempre fui uma garota tímida, tinha dificuldade até de olhar nos olhos das pessoas enquanto falava, mas os saltos me davam confiança.
Com eles, eu me sentia mais alta. Mais presente. Menos invisível.
Sem eles, eu era só mais uma.
— Oi — falei
— Oi. — Ele tirou os óculos e me olhou de cima a baixo, mas seu rosto não entregou nada. — Está pronta?
— Para onde vamos?
— Temos um encontro na casa da minha avó.
— O quê? — Meu coração deu um solavanco. — Por quê? Não está muito cedo? E eu não estou vestida apropriadamente.
Ele suspirou, como se aquilo fosse um detalhe insignificante.
— Podemos sair para comprar algumas coisas antes. Roupas, sapatos, essas coisas.
— Eu não preciso do seu dinheiro.
— Pense que é um investimento. Um adiantamento do que você vai receber se minha avó acreditar em você.
Apertei os lábios. Ele tinha um ponto, e nós dois sabíamos.
— Tá bem.
Ele abriu a porta do carro para mim, e eu entrei, tentando ignorar o cheiro de couro e o luxo silencioso que me cercava. Meu apartamento caberia três vezes dentro daquele carro. Talvez mais.
Dominic entrou no banco do motorista, mas não deu partida imediatamente. Ficou em silêncio por um momento, os dedos batendo levemente no volante.
— Antes — ele disse, virando o rosto na minha direção — precisamos nos conhecer melhor. Se minha avó desconfiar que isso é uma farsa, tudo desmorona. Então vamos treinar. Qual é o seu nome completo?
— Stella Blake.
— O meu é Dominic Scott.
— Eu sei — respondi, e ele sorriu de lado, aquele sorriso convencido que já estava começando a me irritar.
— Estava lá para a entrevista de emprego, não é? A vaga de assistente administrativa.
— Sim.
— Vou falar com minha secretária sobre isso. Ela vai arrumar algo para você, se quiser. Com o dinheiro que vai receber, nem precisa trabalhar.
— Eu quero.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Quero ter minha independência e conquistar minhas coisas. Sempre foi assim, e não vai ser agora que vou mudar.
Ele me observou por um segundo, algo diferente passando pelo seu olhar, mas não comentou.
— Continuando. Qual é a sua comida favorita?
— Não tenho.
— Não tem? Nenhum prato que você gosta mais?
— Minha mãe nem sempre conseguia comida — minhas palavras saíram secas. — Eu comia o que tinha. Nunca tive espaço para ter um prato favorito. Nem todos têm a sorte de nascer herdeiros bilionários.
O rosto dele mudou.
— Você não sabe nada sobre a minha vida.
— Ah, não? — cruzei os braços, a timidez dando lugar à irritação. — Não é o grande Dominic Scott? O cara que é flagrado com uma mulher diferente a cada semana? Que vive na capa das revistas? Parece bem previsível para mim.
Ele virou o corpo na minha direção, o braço apoiado no volante, os olhos agora fixos nos meus com uma intensidade que me fez perder o fôlego.
— Por acaso isso é ciúmes, senhorita?
— Ciúmes? — Dei uma risada nervosa, curta demais para ser convincente. — Claro que não.
— Acha que não notei você me encarando no escritório? — Sua voz ficou mais baixa, mais lenta. — Ou como me encarou agora pouco quando desci do carro?
Meu rosto esquentou. Eu tinha encarado, sim, mas pensei que ele não tinha percebido.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso que devia fazer exatamente o que estava fazendo comigo agora.
— Sente atração por mim, Stella?