Mundo de ficçãoIniciar sessão
— Assine.
A palavra caiu sobre a mesa como uma sentença. Helena Duarte olhou para o documento à sua frente sem conseguir entender como havia chegado àquele momento. Divórcio. A palavra estava impressa em letras frias no alto da primeira página. Ela levantou os olhos lentamente. Valente Ferraz estava diante da janela da cobertura, de costas para ela. O terno preto perfeitamente ajustado, as mãos nos bolsos e a postura rígida faziam parecer que aquela não era a dissolução de um casamento de quatro anos. Era apenas mais uma decisão empresarial. — Você não vai nem me ouvir? Ele não se virou. — Não há nada para ouvir. Helena sentiu a garganta fechar. — Valente... — Eu vi as mensagens. O coração dela disparou. — Que mensagens? Ele finalmente se virou. O olhar dele estava diferente. Não havia amor. Não havia dúvida. Havia desprezo. Valente empurrou o celular sobre a mesa. Helena pegou o aparelho. A primeira mensagem fez seu sangue gelar. “Sentir sua falta ontem à noite.” A segunda: “Quando ela não estiver mais aqui, podemos finalmente ficar juntos.” E a terceira... A terceira trazia uma foto dela. Helena arregalou os olhos. — Isso é uma mentira. — Claro. O sarcasmo dele doeu mais do que um grito. — Eu nunca mandei essas mensagens. — E a foto? — Não sei de onde veio. Valente soltou uma risada curta e amarga. — Quatro anos casado comigo e essa é a sua defesa? Helena se levantou. — Eu nunca traí você! — Eu deveria acreditar na minha esposa ou no que meus próprios olhos estão vendo? — Nos seus olhos? Você nem está olhando para mim! Ele ficou em silêncio. Helena deu um passo em sua direção. — Olhe para mim e diga que realmente acredita que eu fiz isso. Valente sustentou seu olhar. Por um segundo... Apenas um segundo... Ela viu alguma coisa vacilar nos olhos dele. Mas desapareceu rápido demais. — Eu não acredito mais em você. Aquilo a destruiu. — Então é isso? — É. — Depois de quatro anos? — Acabou. Helena sentiu as lágrimas queimarem seus olhos, mas se recusou a deixá-las cair. — Você vai se arrepender. Valente pegou a caneta e colocou diante dela. — Assine. Ela olhou para o homem que amava. O homem por quem havia abandonado tantas coisas. O homem que agora a tratava como uma estranha. Então assinou. Uma lágrima caiu sobre o papel. Valente viu. Mas não disse nada. Helena fechou a pasta. — Espero que um dia você descubra a verdade. Ela caminhou até a porta. — Helena. Ela parou. Foi a primeira vez que ele pronunciou seu nome naquela noite. Ela virou o rosto. Valente continuava imóvel. — Não tente voltar. Helena sorriu sem alegria. — Não se preocupe. Ela abriu a porta. — Quando você descobrir a verdade, talvez seja você quem tente voltar. E saiu. *** Do lado de fora da cobertura, Helena entrou no elevador. Assim que as portas se fecharam, suas pernas perderam a força. Ela levou a mão à boca para abafar o choro. Quatro anos. Tudo tinha acabado em menos de dez minutos. Quando chegou ao estacionamento, entrou no carro e ficou alguns segundos parada. Então abriu a bolsa. Retirou um pequeno envelope branco. Dentro dele havia uma fotografia. Uma ultrassonografia. Helena passou os dedos sobre a imagem enquanto chorava. — Seu pai nunca vai saber de você... Ela fechou os olhos. Mas antes que pudesse guardar o exame, seu celular tocou. Era sua médica. Helena atendeu com a voz trêmula. — Doutora? — Helena, precisamos conversar sobre o resultado dos seus exames. Ela sentiu um arrepio. — Aconteceu alguma coisa? Houve um breve silêncio. — O exame confirmou a gravidez. Helena fechou os olhos. Uma nova lágrima escorreu. Naquela mesma noite em que havia perdido o marido... Descobrira que carregava o filho dele. Mas havia algo que a médica ainda não tinha contado. — Helena, tem mais uma coisa. — O quê? — A sua gravidez é de risco. Helena apertou o celular contra o ouvido. — Por quê? A voz da médica ficou séria. — Porque você não está esperando apenas um bebê. Helena franziu a testa. — Como assim? — O exame mostra dois sacos gestacionais. Ela ficou imóvel. — Dois? — Sim. Helena olhou novamente para a ultrassonografia. Duas pequenas sombras. Dois corações. Dois filhos de Valente Ferraz. E, naquele instante, Helena tomou uma decisão. Valente poderia acreditar que tinha se livrado dela. Poderia acreditar que o casamento havia acabado. Mas jamais saberia que, naquela noite, havia perdido não apenas uma esposa. Havia acabado de abandonar a mãe dos seus dois filhos.






