Mundo ficciónIniciar sesiónHelena entrou no carro e fechou a porta rapidamente.
As mãos tremiam. Ela respirou fundo antes de colocar o cinto. No banco traseiro, os dois filhos a observavam. — Mamãe? Ela olhou pelo retrovisor. — Sim? — Aquele homem conhecia você? Helena ficou em silêncio por alguns segundos. — Conhecia. — Quem ele é? Ela apertou os dedos sobre o volante. — Uma pessoa do meu passado. — Ele parecia triste. Helena desviou o olhar. — Algumas pessoas carregam as consequências das próprias escolhas. Ligou o carro. Mas, antes que pudesse sair, seu celular tocou. Era Laura. — Helena? — Oi. — Você está bem? — Estou. — Você encontrou Valente? Helena ficou imóvel. — Como você sabe? — Ele acabou de me ligar. O coração dela disparou. — O que ele perguntou? — Quem são as crianças. Helena fechou os olhos. Era inevitável. Depois de três anos escondendo os filhos, Valente finalmente começaria a fazer perguntas. — O que você respondeu? — Nada. Helena soltou o ar. — Obrigada. — Helena... — O quê? — Você sabia que ele nunca deixou de procurar você? Ela não respondeu. — Durante três anos, ele tentou descobrir onde você estava. Helena apertou os lábios. — Ele teve três anos para descobrir a verdade. — E agora? — Agora é tarde. Ela desligou. *** Naquela noite, Valente estava em seu escritório. A fotografia das duas crianças permanecia sobre a mesa. Ele a observava havia quase uma hora. Havia alguma coisa naquelas crianças. Algo familiar. O investigador entrou novamente. — Senhor Ferraz. Valente levantou os olhos. — Descobriu quem são? — Ainda não. — Então por que está aqui? O homem hesitou. — Porque conseguimos uma informação sobre a idade delas. Valente ficou imóvel. — Quantos anos? — Aproximadamente três. O coração dele parou. Três anos. Ele se levantou lentamente. — Tem certeza? — Sim. Valente olhou novamente para a fotografia. Três anos. Helena havia desaparecido três anos atrás. Ele sentiu o sangue gelar. — Quero um teste. — Senhor? — Quero descobrir quem são essas crianças. — Precisamos de autorização para acessar os registros. — Então consiga. O investigador assentiu e saiu. Valente ficou sozinho. Pela primeira vez, uma possibilidade surgiu em sua mente. Uma possibilidade que ele sequer ousava pronunciar. *** No apartamento, Helena colocava os filhos para dormir. Ela beijou a testa dos dois. — Boa noite, meus amores. — Boa noite, mamãe. Quando saiu do quarto, encontrou Laura esperando na sala. — Você precisa contar a verdade. Helena fechou os olhos. — Eu sei. — Valente vai descobrir. — Eu sei. — Então por que continuar escondendo? Helena olhou para a porta do quarto dos filhos. — Porque eu conheço aquele homem. — Ele mudou. — Talvez. — E você ainda ama ele. Helena ficou imóvel. — Não importa. Laura suspirou. — Importa para você. Helena desviou o olhar. — Eu amei Valente. — E agora? Ela demorou a responder. — Agora eu tenho duas pessoas que dependem de mim. *** Na manhã seguinte, Valente recebeu uma ligação. — Senhor Ferraz, conseguimos confirmar a informação. Ele ficou em silêncio. — Fale. — As crianças nasceram há três anos. Valente sentiu o coração bater mais forte. — E a mãe? Houve uma pausa. — Helena Duarte. O mundo pareceu parar. Valente fechou os olhos. Helena. As crianças. Três anos. Tudo se encaixava. — São meus filhos. Não foi uma pergunta. O investigador permaneceu em silêncio. — Ainda precisamos confirmar oficialmente, senhor. Valente desligou. Sentou-se lentamente. Dois filhos. Ele tinha dois filhos. E havia perdido os primeiros três anos da vida deles. Por culpa dele. Por causa de uma mentira. Por não ter acreditado na mulher que amava. Valente passou as mãos pelo rosto. Uma lágrima escapou. Ele nunca havia chorado por dinheiro. Nunca havia chorado por negócios. Nunca havia chorado por poder. Mas agora chorava pelos três anos que jamais poderia recuperar. Pegou o telefone. Precisava falar com Helena. *** Helena estava na cozinha quando ouviu a campainha. Seu coração acelerou. Ela sabia quem era. Caminhou até a porta. Abriu. Valente estava do outro lado. Os olhos dos dois se encontraram. Nenhum deles falou. Então Valente olhou para dentro do apartamento. Duas crianças apareceram no corredor. Ele ficou imóvel. Os meninos o observaram com curiosidade. Um deles inclinou a cabeça. Valente sentiu o peito apertar. A semelhança era impossível de ignorar. Os mesmos olhos. O mesmo formato do rosto. Ele voltou a olhar para Helena. — Eles são meus filhos? Helena não respondeu. Valente deu um passo à frente. — Helena... Ela levantou a mão. — Não. Ele parou. — Você não pode entrar aqui e agir como se tivesse algum direito sobre eles. A voz dele falhou. — Eu sou o pai deles. — Você não sabia que eles existiam. — Mas agora eu sei. Helena sentiu as lágrimas surgirem. — E por que deveria confiar em você agora? Valente abaixou os olhos. — Não deveria. Ela ficou surpresa. Ele respirou fundo. — Eu não vim exigir nada. — Então veio fazer o quê? Valente levantou os olhos. — Pedir uma chance. Helena soltou uma risada triste. — Três anos depois? — Eu sei. — Você perdeu três anos. — Eu sei. — Não pode recuperar. — Eu sei. Ele deu um passo para trás. — Mas posso tentar não perder o resto. Helena ficou em silêncio. Valente olhou novamente para os filhos. Então seu celular tocou. Ele atendeu. — Fale. A voz do investigador veio do outro lado. — Senhor Ferraz, encontramos algo. Valente franziu a testa. — O quê? — Os registros da gravidez de Helena foram acessados três anos atrás. O olhar dele mudou. — Por quem? — Ainda não sabemos. Valente ficou imóvel. — Continue investigando. Desligou. Helena percebeu sua expressão. — O que aconteceu? Valente olhou para ela. — Alguém sabia que você estava grávida. Ela ficou pálida. — O quê? — E essa pessoa pode estar atrás dos nossos filhos. Helena sentiu o coração disparar. Antes que pudesse responder, seu celular vibrou. Uma mensagem. Número desconhecido. “Você achou que três anos seriam suficientes para esconder seus filhos?” Helena deixou o telefone cair. Valente pegou o aparelho. Leu a mensagem. Seu rosto endureceu. Outra mensagem chegou. “Agora que ele encontrou vocês, o jogo começou.” Helena olhou para Valente. Pela primeira vez em três anos, ela percebeu que talvez não pudesse proteger seus filhos sozinha. E Valente entendeu que o passado que havia destruído seu casamento ainda estava muito longe de terminar.






