Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena desligou o telefone e ficou alguns segundos olhando para o nada.
Dois bebês. Dois filhos de Valente. A notícia deveria ter sido recebida com alegria. Mas, naquela noite, ela só conseguia sentir medo. Medo do futuro. Medo de criar duas crianças sozinha. E, acima de tudo, medo de que Valente descobrisse a gravidez e tentasse arrancar dela os filhos antes mesmo que nascessem. Ela colocou a mão sobre o próprio ventre. Ainda não havia barriga. Ninguém poderia imaginar que havia duas pequenas vidas crescendo dentro dela. — Eu vou proteger vocês. Sua voz saiu baixa. — Mesmo que eu tenha que fazer isso sozinha. Helena enxugou as lágrimas e ligou o carro. Precisava sair dali. Precisava desaparecer antes que Valente tivesse tempo de transformar aquela noite em mais uma batalha. *** Na manhã seguinte, Helena acordou com uma decisão tomada. Ela iria embora. Não apenas da cobertura. De São Paulo. De tudo que lembrasse Valente Ferraz. Abriu o closet e observou as roupas caras que ele havia comprado para ela. Vestidos. Joias. Sapatos. Tudo parecia pertencer a outra mulher. A uma Helena que acreditava ser amada. Ela abriu uma mala e começou a colocar apenas o necessário. Algumas roupas. Documentos. Dinheiro. O passaporte. Nada que pudesse fazê-la voltar. Quando abriu a gaveta da cômoda, encontrou uma fotografia do casamento. Ela segurou a moldura por alguns segundos. Na imagem, Valente sorria. Um sorriso raro. Ele segurava sua cintura enquanto Helena olhava para a câmera, completamente apaixonada. Naquela época, ela acreditava que aquele homem morreria ao lado dela. Agora, nem sequer sabia se ele tinha algum sentimento por ela. Helena virou a fotografia para baixo. — Acabou. Colocou a moldura sobre a cama e fechou a mala. Foi quando ouviu passos no corredor. Seu coração disparou. A porta se abriu. Valente entrou. Helena ficou imóvel. Ele ainda estava usando o mesmo terno da noite anterior. Parecia não ter dormido. — O que você está fazendo? Ela respirou fundo. — Indo embora. Os olhos dele percorreram a mala. — Para onde? — Não é mais problema seu. A mandíbula de Valente endureceu. — Ainda somos casados legalmente. Helena soltou uma risada amarga. — Você acabou de pedir o divórcio. — E você assinou. — Então não deveria se importar para onde eu vou. Ele ficou em silêncio. Havia algo estranho naquele olhar. Como se ele esperasse que ela chorasse, implorasse ou tentasse convencê-lo a voltar atrás. Mas Helena não faria nenhuma dessas coisas. — Você vai mesmo embora? — Sim. — Sem lutar pelo nosso casamento? Ela o encarou. — Foi você quem decidiu acabar com ele. Valente desviou os olhos. — Eu só quero evitar mais problemas. Helena apertou os dedos. Mais problemas? Ele havia destruído seu casamento por causa de mensagens falsas e agora chamava a própria dor dela de problema. — Pode ficar tranquilo. Eu não vou voltar. Ela pegou a mala. Quando passou por ele, Valente segurou seu braço. Helena congelou. — Solte. Ele não soltou imediatamente. — Helena... — Solte. Dessa vez, ele obedeceu. Ela saiu. Sem olhar para trás. *** Duas horas depois, Helena estava no consultório da médica. Precisava confirmar tudo antes de tomar qualquer decisão. A doutora Clara colocou os exames sobre a mesa. — A gravidez está confirmada. Helena assentiu. — E são realmente dois? — Sim. Clara mostrou as imagens. — São gêmeos. Ainda é muito cedo, mas os sinais estão bons. Helena sorriu pela primeira vez desde a noite anterior. Gêmeos. Ela colocou a mão sobre a boca. — Eles estão bem? — Por enquanto, sim. Mas precisamos acompanhar de perto. Você passou por muito estresse e isso não ajuda. Helena respirou fundo. — Doutora, eu preciso perguntar uma coisa. — Claro. — Se o pai descobrir que estou grávida, ele pode impedir que eu leve os bebês para longe? Clara percebeu a preocupação em sua voz. — Helena, isso depende de várias questões legais. Mas você não deve tomar nenhuma decisão precipitada. Ela abaixou os olhos. — Eu não quero que ele saiba. A médica ficou em silêncio. — Tem certeza? — Tenho. — Ele é o pai? Helena assentiu. — É. Clara fechou a pasta. — Então você precisa estar preparada para as consequências dessa decisão. Helena sabia. Mas também sabia de uma coisa. Valente já havia mostrado quem era. Ela não entregaria seus filhos a um homem que sequer acreditara nela. — Eu prefiro enfrentar tudo sozinha. *** Naquela mesma tarde, Valente recebeu uma ligação. — Senhor Ferraz, descobrimos algo sobre as mensagens. Ele parou no meio do escritório. — Fale. — O número que enviou as mensagens não pertence à senhora Helena. Valente ficou em silêncio. — Tem certeza? — Sim. Fizemos uma verificação completa. O sangue dele gelou. — Então de quem é? — Ainda não sabemos. Valente apertou o celular. — Descubra. — Já estamos tentando. — Não tentando. Descubra. Ele desligou. Pela primeira vez desde a noite anterior, uma dúvida atravessou sua mente. E se Helena estivesse dizendo a verdade? Ele pegou o celular e abriu novamente as mensagens. A fotografia. As palavras. Tudo parecia incriminá-la. Mas agora havia uma pergunta que não conseguia ignorar. Quem havia enviado aquilo? *** Naquela noite, Helena chegou à casa de sua irmã mais velha, Laura. Laura abriu a porta e ficou assustada ao vê-la com duas malas. — Helena? Ela entrou sem dizer nada. — O que aconteceu? Helena largou a mala no chão. — Eu me divorciei. Laura arregalou os olhos. — O quê? — Valente pediu o divórcio. — Por quê? Helena tentou responder. Mas a voz falhou. Laura a abraçou. E então Helena desabou. Chorou como não havia chorado desde que saiu da cobertura. — Ele acredita que eu traí ele. — Você traiu? Helena levantou o rosto, indignada. — Claro que não! — Então isso vai ser resolvido. Helena balançou a cabeça. — Não quero resolver. Laura franziu a testa. — Helena... Ela segurou as mãos da irmã. — Eu estou grávida. Laura ficou imóvel. — O quê? — E não é só um bebê. Os olhos de Laura se arregalaram. — Você está... — Grávida de gêmeos. Laura levou a mão à boca. Depois de alguns segundos, perguntou: — Valente sabe? Helena negou. — E não vai saber. — Helena, ele é o pai. — E foi o homem que decidiu que eu era uma traidora sem sequer me ouvir. — Mas ele precisa saber que tem filhos. Helena sentiu o coração apertar. — Quando ele descobrir, vai querer controlar tudo. — Talvez ele mude. Helena soltou uma risada triste. — Homens como Valente não mudam porque descobrem que serão pais. Ela tocou o ventre. — Eu não vou permitir que meus filhos cresçam acreditando que foram um erro. Laura a observou por alguns segundos. — E o que você pretende fazer? Helena respirou fundo. — Vou embora. — Para onde? — Para qualquer lugar onde ele não consiga me encontrar. *** Três dias depois, Helena estava no aeroporto. Passaporte na mão. Passagem comprada. Destino: Lisboa. Ela não sabia exatamente o que faria. Não sabia onde moraria. Não sabia como reconstruiria a própria vida. Mas sabia que precisava começar de algum lugar. Antes de entrar no avião, olhou uma última vez para o celular. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Valente não havia procurado por ela. Aquilo doeu. Mas também confirmou sua decisão. Ela desligou o aparelho. E embarcou. *** No mesmo instante, a quilômetros dali, Valente estava diante de uma informação que mudaria tudo. Seu investigador havia encontrado a origem das mensagens. Valente leu o relatório uma vez. Depois outra. Seu rosto perdeu a cor. O número havia sido registrado em nome de uma empresa. Uma empresa que pertencia a alguém muito próximo dele. Alguém que tinha acesso à cobertura. Alguém que conhecia Helena. Alguém que tinha um motivo para destruí-la. Valente levantou os olhos. — Não pode ser. O investigador permaneceu calado. — Tem certeza? — Absoluta. Valente sentiu o estômago revirar. Se aquilo fosse verdade... Ele havia destruído o casamento por causa de uma mentira. Havia humilhado Helena. Havia pedido o divórcio. E ela havia ido embora acreditando que ele nunca confiaria nela. Valente pegou o telefone. Ligou para Helena. Chamou uma vez. Duas. Três. Nada. Ele tentou novamente. Nada. — Onde ela está? — perguntou. — Ainda estamos tentando localizar. Valente fechou os olhos. Então percebeu algo. Naquela manhã, ele havia recebido uma mensagem automática do aeroporto. Uma passagem emitida no nome de Helena. Destino internacional. Ele levantou imediatamente. — Descubra para onde ela foi. — Senhor Ferraz... — Agora. O investigador saiu. Valente ficou sozinho no escritório. Pela primeira vez em quatro anos, sentiu medo. Não de perder dinheiro. Não de perder negócios. Não de perder poder. Sentiu medo de ter perdido a mulher que amava. E havia algo ainda pior. Ele ainda não sabia que Helena estava levando consigo um segredo que poderia mudar sua vida para sempre.






