Mundo de ficçãoIniciar sessãoTrês anos haviam passado desde a noite em que Helena Duarte deixou São Paulo.
Três anos desde o dia em que Valente Ferraz destruiu o casamento que os dois acreditavam ser para sempre. Três anos desde que Helena decidiu desaparecer. E, durante todo aquele tempo, ela não voltou. Não telefonou. Não mandou mensagens. Não procurou saber como Valente estava. Ela simplesmente seguiu em frente. Ou, pelo menos, aprendeu a parecer que havia seguido. Lisboa havia sido apenas o começo. Helena construiu uma nova vida longe do homem que um dia amou. Estudou. Trabalhou. Criou seus filhos. E aprendeu a não depender de ninguém. Agora, aos olhos do mundo, era uma mulher completamente diferente. Mais segura. Mais madura. Mais forte. Mas havia coisas que nem três anos conseguiam apagar. Como o som da voz de Valente. Ou a lembrança daquele olhar no dia em que ele a chamou de traidora. Helena fechou a mala. Ao lado dela, duas crianças brincavam no quarto. — Mamãe, a gente vai mesmo voltar para o Brasil? Ela olhou para o filho. — Vai. O menino sorriu. — Eu quero conhecer a cidade onde você morava. Helena respirou fundo. — Vocês vão conhecer. A menina correu até ela. — E o papai? Helena ficou imóvel. A pergunta sempre chegava. Ela se abaixou diante dos filhos. — Nós vamos conversar sobre isso quando for a hora. — Ele mora no Brasil? Helena desviou o olhar. — Sim. As crianças trocaram um olhar curioso. Ela se levantou. — Agora terminem de arrumar suas coisas. Depois que os dois saíram do quarto, Helena ficou sozinha. Abriu uma gaveta. Dentro dela havia uma fotografia antiga. O casamento. Ela segurou a imagem. Valente sorria. Ela também. Pareciam felizes. Pareciam invencíveis. Helena fechou os olhos. — Isso ficou no passado. Guardou a fotografia novamente. Dessa vez, não chorou. *** No mesmo dia, em São Paulo, Valente Ferraz estava diante da janela de seu escritório. O homem havia mudado. Não era mais apenas o CEO frio e arrogante que Helena conhecera. Três anos de arrependimento haviam deixado marcas. Ele havia descoberto toda a verdade sobre as mensagens. Carolina havia desaparecido da vida dele. Mas o verdadeiro responsável pela armação nunca fora encontrado. E havia uma pergunta que o perseguia desde então. Onde Helena estava? Seu investigador entrou na sala. — Senhor Ferraz. Valente não se virou. — Fale. — Temos uma informação. Ele finalmente olhou para o homem. — Sobre Helena? — Sim. O coração de Valente acelerou. — Onde ela está? — Em São Paulo. Valente ficou imóvel. — Tem certeza? — Absoluta. — Quando ela chegou? — Hoje. Ele fechou os olhos. Três anos. Três anos procurando por aquela mulher. E agora ela estava na mesma cidade. — Descubra onde ela está. — Já descobrimos. O investigador colocou uma fotografia sobre a mesa. Valente pegou a imagem. Helena. Mais madura. Mais bonita. Mais distante. Ele sentiu o peito apertar. — Ela mudou. — Muito. Valente continuou olhando para a fotografia. Então percebeu algo. Ao lado dela havia duas crianças. Ele franziu a testa. — Quem são eles? O investigador hesitou. — Ainda estamos verificando. Valente levantou os olhos. — Quero saber tudo. — Sim, senhor. Quando ficou sozinho, Valente olhou novamente para a fotografia. Algo dentro dele dizia que aquelas crianças eram importantes. Muito importantes. Mas ele ainda não sabia por quê. *** No outro lado da cidade, Helena entrou em um restaurante com os filhos. Ela segurava a mão dos dois enquanto atravessavam o salão. — Mamãe, posso escolher a sobremesa? — Depois do almoço. — Mas eu quero agora. Helena sorriu. — Você continua tentando negociar tudo. — Aprendi com você. Ela riu. Por alguns segundos, esqueceu o passado. Até sentir que alguém a observava. Helena levantou os olhos. Um homem estava parado do outro lado do restaurante. Terno escuro. Postura rígida. Olhar intenso. Seu coração parou. Valente. Três anos desapareceram em um segundo. Ela apertou as mãos dos filhos. Valente também a reconheceu. Os olhos dele percorreram seu rosto. Depois desceram lentamente. Até as duas crianças. Ele ficou imóvel. Helena sentiu o medo voltar. Não. Não agora. Não daquele jeito. Valente deu um passo em sua direção. Helena imediatamente se virou. — Vamos. — Mas, mamãe... — Agora. Ela saiu do restaurante com os filhos. Valente ficou parado. Não sabia por que aquela mulher havia fugido. Mas sabia de uma coisa. Ela escondia algo. E ele descobriria.






