Mundo de ficçãoIniciar sessãoHelena abriu os olhos com dificuldade.
A comissária estava ajoelhada ao seu lado. Alguns passageiros olhavam para trás, assustados. Helena levou a mão ao ventre. A dor havia diminuído, mas ainda sentia uma pressão forte no abdômen. — Senhora? A senhora está me ouvindo? — Eu estou grávida... — Quantas semanas? — Poucas. Quase seis. A comissária trocou um olhar preocupado com outra funcionária. — Há algum médico a bordo? Um homem se levantou algumas fileiras à frente. — Sou médico. Ele se aproximou rapidamente. — Posso examiná-la? Helena assentiu. Enquanto o médico fazia algumas perguntas, ela apertava os dedos contra o assento. — A dor começou quando? — Há alguns minutos. — Houve sangramento? — Não. — É sua primeira gravidez? Helena hesitou. — Sim. Ela não contou que eram dois bebês. Ainda não. Não sabia por quê. Talvez porque dizer aquilo em voz alta tornasse tudo ainda mais real. O médico avaliou seus sinais e conversou discretamente com a tripulação. — Precisamos pousar o quanto antes. Helena sentiu o coração disparar. — Meus bebês... — Por enquanto, não há indicação de que algo tenha acontecido, mas você precisa ser examinada em um hospital. A palavra “hospital” fez seu medo aumentar. Ela fechou os olhos. Não podia perder aquelas crianças. Não depois de tudo. — Eu quero descer. A comissária segurou sua mão. — Nós vamos cuidar da senhora. Helena respirou fundo. Mas uma pergunta continuava martelando sua cabeça. E se Valente soubesse? Ela havia fugido justamente para que ele nunca descobrisse. Agora, pela primeira vez, percebeu que talvez não tivesse pensado em todas as consequências. *** No aeroporto de Lisboa, uma ambulância já aguardava. Helena foi encaminhada diretamente para o hospital. Durante todo o trajeto, manteve os olhos fechados. A mão sobre o ventre. — Aguentem só mais um pouco... Ela sussurrou. — Mamãe está aqui. *** Enquanto isso, em São Paulo, Valente estava diante de uma informação que mudaria o rumo de tudo. — Ela embarcou ontem à noite — informou seu investigador. — Para onde? — Lisboa. Valente olhou para o relógio. — Quanto tempo até o próximo voo? — Cerca de quatro horas. — Reserve um jato. O investigador ficou em silêncio. — Senhor Ferraz, o senhor tem uma reunião com os acionistas em duas horas. Valente levantou os olhos. — Cancele. — Mas... — Eu disse para cancelar. Ele pegou o paletó. — E encontre Helena antes de mim. — Por quê? Valente parou. Por alguns segundos, não respondeu. Porque não sabia explicar. Só sabia que precisava encontrá-la. Precisava olhar nos olhos dela. Precisava perguntar por que ela havia ido embora sem lutar. E, principalmente... Precisava saber se ela realmente havia sido inocente. Seu celular tocou. Era o investigador. Valente atendeu imediatamente. — Fale. — Descobrimos quem enviou as mensagens. Ele ficou imóvel. — Quem? Houve uma pausa. — Sua irmã. O mundo pareceu parar. Valente não respirou. — Repita. — As mensagens foram enviadas do celular de sua irmã, Carolina Ferraz. Ele fechou os olhos. Carolina. Sua própria irmã. A pessoa que mais havia insistido para que ele não se casasse com Helena. A mesma mulher que dizia que Helena estava interessada apenas no dinheiro da família. A mesma mulher que, na noite anterior, havia jurado que não sabia de nada. Valente sentiu uma onda de raiva. — Traga-a para minha casa. — Senhor... — Agora. *** No hospital, Helena estava deitada enquanto o médico realizava o ultrassom. Ela olhava para a tela sem conseguir entender completamente as imagens. Até ouvir um som. Tum. Tum. Tum. Seu coração parou. — Esse é... — Um dos batimentos. Helena levou a mão à boca. Outro som apareceu. Tum. Tum. Tum. Ela arregalou os olhos. — E esse? O médico sorriu. — O segundo. As lágrimas começaram a cair. Dois corações. Dois pequenos milagres. Os dois estavam vivos. — Eles estão bem? — Neste momento, sim. Helena fechou os olhos. Uma mistura de alívio e emoção tomou conta dela. — Obrigada. O médico continuou analisando o exame. — Você precisa evitar estresse. Ela soltou uma risada sem humor. — Acho que essa parte vai ser difícil. O médico sorriu. — Ainda assim, precisa tentar. Ele imprimiu as imagens. Helena pegou as fotografias com mãos trêmulas. Duas pequenas vidas. Seus filhos. Ela sorriu. Até o celular tocar. Era Laura. — Helena! Onde você está? — No hospital. — Meu Deus! O que aconteceu? — Eu senti dores durante o voo. — Você está bem? — Estou. Os bebês também. Laura respirou aliviada. — Graças a Deus. Helena ficou em silêncio. — Laura... — Sim? — Eu não quero voltar. — Eu sei. — Mesmo que Valente descubra. Laura demorou alguns segundos para responder. — Helena, talvez ele já tenha descoberto. Ela congelou. — Como assim? — O investigador dele ligou para mim. O sangue sumiu do rosto de Helena. — O que ele perguntou? — Se eu sabia onde você estava. Helena levantou da cama. — Você contou? — Não. — Tem certeza? — Helena, eu nunca faria isso com você. Ela voltou a sentar. — Então ele não sabe. — Ainda não. Aquelas duas palavras foram suficientes para fazê-la perceber que o tempo estava acabando. Mas havia uma coisa que Helena ainda não sabia. Valente já havia descoberto que as mensagens eram falsas. E estava prestes a descobrir quem estava por trás delas. *** Naquela noite, Carolina Ferraz entrou na cobertura. Valente estava sentado no sofá. Ela se levantou assim que o viu. — Você descobriu? Ele não respondeu. — Valente? Ele colocou o celular sobre a mesa. — As mensagens foram enviadas do seu telefone. Carolina empalideceu. — Eu posso explicar. — Não quero explicações. — Você não entende... — Eu entendo o suficiente. Ele se aproximou. — Você destruiu meu casamento. Carolina começou a chorar. — Eu fiz aquilo por você. — Não diga isso novamente. — Aquela mulher estava destruindo sua vida! — Ela estava grávida. Carolina ficou em silêncio. — Talvez nem sejam seus filhos. O ambiente congelou. Valente a encarou. — Repita. Carolina percebeu o erro. — Eu só quis dizer... — Você acabou de insinuar que Helena me traiu. — Eu não disse isso. — Mas pensou. Carolina respirou fundo. — Você sabe que Helena não era perfeita. Valente soltou uma risada fria. — E você sabe que está mentindo. Ele caminhou até a mesa e abriu uma pasta. — O investigador descobriu que as mensagens foram enviadas do seu telefone. Carolina empalideceu. — Eu já expliquei... — Não quero explicações. Ele jogou algumas fotografias sobre a mesa. — Quero a verdade. Carolina olhou para as imagens. Uma delas mostrava Helena entrando em uma clínica. Outra mostrava Carolina saindo do mesmo local alguns dias antes. Ela perdeu a cor. — Como você conseguiu isso? — Não importa. Valente apoiou as mãos sobre a mesa. — Você estava seguindo Helena? Carolina não respondeu. — Quem mais está envolvido? — Ninguém. — Mentira. Ele pegou o celular. — Tenho provas suficientes para destruir sua reputação. Carolina arregalou os olhos. — Você não faria isso comigo. — Você falsificou provas contra minha esposa e destruiu minha família. A palavra “família” pareceu irritá-la. — Ela não é sua família! Valente ficou imóvel. — Cuidado. — Você sempre foi meu irmão antes de ser marido dela. — E você sempre foi minha irmã antes de se tornar minha inimiga. Carolina começou a chorar. — Eu só queria impedir que ela tomasse tudo de você. — Ela nunca quis meu dinheiro. — Você não sabe disso. — Sei. Ele pegou o telefone. — Saia da minha casa. — Valente... — Agora. Carolina caminhou até a porta. Antes de sair, porém, parou. — Você vai se arrepender de acreditar nela. Valente levantou os olhos. — Já me arrependo de não ter acreditado antes. Ela saiu. Mas Valente percebeu uma coisa. Carolina não parecia apenas culpada. Parecia com medo. E isso significava que havia alguém acima dela. Alguém que ainda não havia aparecido.






