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Capítulo 3 — Você Não Pode Perder Meus Filhos

Helena abriu os olhos com dificuldade.

A comissária estava ajoelhada ao seu lado.

Alguns passageiros olhavam para trás, assustados.

Helena levou a mão ao ventre.

A dor havia diminuído, mas ainda sentia uma pressão forte no abdômen.

— Senhora? A senhora está me ouvindo?

— Eu estou grávida...

— Quantas semanas?

— Poucas. Quase seis.

A comissária trocou um olhar preocupado com outra funcionária.

— Há algum médico a bordo?

Um homem se levantou algumas fileiras à frente.

— Sou médico.

Ele se aproximou rapidamente.

— Posso examiná-la?

Helena assentiu.

Enquanto o médico fazia algumas perguntas, ela apertava os dedos contra o assento.

— A dor começou quando?

— Há alguns minutos.

— Houve sangramento?

— Não.

— É sua primeira gravidez?

Helena hesitou.

— Sim.

Ela não contou que eram dois bebês.

Ainda não.

Não sabia por quê.

Talvez porque dizer aquilo em voz alta tornasse tudo ainda mais real.

O médico avaliou seus sinais e conversou discretamente com a tripulação.

— Precisamos pousar o quanto antes.

Helena sentiu o coração disparar.

— Meus bebês...

— Por enquanto, não há indicação de que algo tenha acontecido, mas você precisa ser examinada em um hospital.

A palavra “hospital” fez seu medo aumentar.

Ela fechou os olhos.

Não podia perder aquelas crianças.

Não depois de tudo.

— Eu quero descer.

A comissária segurou sua mão.

— Nós vamos cuidar da senhora.

Helena respirou fundo.

Mas uma pergunta continuava martelando sua cabeça.

E se Valente soubesse?

Ela havia fugido justamente para que ele nunca descobrisse.

Agora, pela primeira vez, percebeu que talvez não tivesse pensado em todas as consequências.

***

No aeroporto de Lisboa, uma ambulância já aguardava.

Helena foi encaminhada diretamente para o hospital.

Durante todo o trajeto, manteve os olhos fechados.

A mão sobre o ventre.

— Aguentem só mais um pouco...

Ela sussurrou.

— Mamãe está aqui.

***

Enquanto isso, em São Paulo, Valente estava diante de uma informação que mudaria o rumo de tudo.

— Ela embarcou ontem à noite — informou seu investigador.

— Para onde?

— Lisboa.

Valente olhou para o relógio.

— Quanto tempo até o próximo voo?

— Cerca de quatro horas.

— Reserve um jato.

O investigador ficou em silêncio.

— Senhor Ferraz, o senhor tem uma reunião com os acionistas em duas horas.

Valente levantou os olhos.

— Cancele.

— Mas...

— Eu disse para cancelar.

Ele pegou o paletó.

— E encontre Helena antes de mim.

— Por quê?

Valente parou.

Por alguns segundos, não respondeu.

Porque não sabia explicar.

Só sabia que precisava encontrá-la.

Precisava olhar nos olhos dela.

Precisava perguntar por que ela havia ido embora sem lutar.

E, principalmente...

Precisava saber se ela realmente havia sido inocente.

Seu celular tocou.

Era o investigador.

Valente atendeu imediatamente.

— Fale.

— Descobrimos quem enviou as mensagens.

Ele ficou imóvel.

— Quem?

Houve uma pausa.

— Sua irmã.

O mundo pareceu parar.

Valente não respirou.

— Repita.

— As mensagens foram enviadas do celular de sua irmã, Carolina Ferraz.

Ele fechou os olhos.

Carolina.

Sua própria irmã.

A pessoa que mais havia insistido para que ele não se casasse com Helena.

A mesma mulher que dizia que Helena estava interessada apenas no dinheiro da família.

A mesma mulher que, na noite anterior, havia jurado que não sabia de nada.

Valente sentiu uma onda de raiva.

— Traga-a para minha casa.

— Senhor...

— Agora.

***

No hospital, Helena estava deitada enquanto o médico realizava o ultrassom.

Ela olhava para a tela sem conseguir entender completamente as imagens.

Até ouvir um som.

Tum.

Tum.

Tum.

Seu coração parou.

— Esse é...

— Um dos batimentos.

Helena levou a mão à boca.

Outro som apareceu.

Tum.

Tum.

Tum.

Ela arregalou os olhos.

— E esse?

O médico sorriu.

— O segundo.

As lágrimas começaram a cair.

Dois corações.

Dois pequenos milagres.

Os dois estavam vivos.

— Eles estão bem?

— Neste momento, sim.

Helena fechou os olhos.

Uma mistura de alívio e emoção tomou conta dela.

— Obrigada.

O médico continuou analisando o exame.

— Você precisa evitar estresse.

Ela soltou uma risada sem humor.

— Acho que essa parte vai ser difícil.

O médico sorriu.

— Ainda assim, precisa tentar.

Ele imprimiu as imagens.

Helena pegou as fotografias com mãos trêmulas.

Duas pequenas vidas.

Seus filhos.

Ela sorriu.

Até o celular tocar.

Era Laura.

— Helena! Onde você está?

— No hospital.

— Meu Deus! O que aconteceu?

— Eu senti dores durante o voo.

— Você está bem?

— Estou. Os bebês também.

Laura respirou aliviada.

— Graças a Deus.

Helena ficou em silêncio.

— Laura...

— Sim?

— Eu não quero voltar.

— Eu sei.

— Mesmo que Valente descubra.

Laura demorou alguns segundos para responder.

— Helena, talvez ele já tenha descoberto.

Ela congelou.

— Como assim?

— O investigador dele ligou para mim.

O sangue sumiu do rosto de Helena.

— O que ele perguntou?

— Se eu sabia onde você estava.

Helena levantou da cama.

— Você contou?

— Não.

— Tem certeza?

— Helena, eu nunca faria isso com você.

Ela voltou a sentar.

— Então ele não sabe.

— Ainda não.

Aquelas duas palavras foram suficientes para fazê-la perceber que o tempo estava acabando.

Mas havia uma coisa que Helena ainda não sabia.

Valente já havia descoberto que as mensagens eram falsas.

E estava prestes a descobrir quem estava por trás delas.

***

Naquela noite, Carolina Ferraz entrou na cobertura.

Valente estava sentado no sofá.

Ela se levantou assim que o viu.

— Você descobriu?

Ele não respondeu.

— Valente?

Ele colocou o celular sobre a mesa.

— As mensagens foram enviadas do seu telefone.

Carolina empalideceu.

— Eu posso explicar.

— Não quero explicações.

— Você não entende...

— Eu entendo o suficiente.

Ele se aproximou.

— Você destruiu meu casamento.

Carolina começou a chorar.

— Eu fiz aquilo por você.

— Não diga isso novamente.

— Aquela mulher estava destruindo sua vida!

— Ela estava grávida.

Carolina ficou em silêncio.

— Talvez nem sejam seus filhos.

O ambiente congelou.

Valente a encarou.

— Repita.

Carolina percebeu o erro.

— Eu só quis dizer...

— Você acabou de insinuar que Helena me traiu.

— Eu não disse isso.

— Mas pensou.

Carolina respirou fundo.

— Você sabe que Helena não era perfeita.

Valente soltou uma risada fria.

— E você sabe que está mentindo.

Ele caminhou até a mesa e abriu uma pasta.

— O investigador descobriu que as mensagens foram enviadas do seu telefone.

Carolina empalideceu.

— Eu já expliquei...

— Não quero explicações.

Ele jogou algumas fotografias sobre a mesa.

— Quero a verdade.

Carolina olhou para as imagens.

Uma delas mostrava Helena entrando em uma clínica.

Outra mostrava Carolina saindo do mesmo local alguns dias antes.

Ela perdeu a cor.

— Como você conseguiu isso?

— Não importa.

Valente apoiou as mãos sobre a mesa.

— Você estava seguindo Helena?

Carolina não respondeu.

— Quem mais está envolvido?

— Ninguém.

— Mentira.

Ele pegou o celular.

— Tenho provas suficientes para destruir sua reputação.

Carolina arregalou os olhos.

— Você não faria isso comigo.

— Você falsificou provas contra minha esposa e destruiu minha família.

A palavra “família” pareceu irritá-la.

— Ela não é sua família!

Valente ficou imóvel.

— Cuidado.

— Você sempre foi meu irmão antes de ser marido dela.

— E você sempre foi minha irmã antes de se tornar minha inimiga.

Carolina começou a chorar.

— Eu só queria impedir que ela tomasse tudo de você.

— Ela nunca quis meu dinheiro.

— Você não sabe disso.

— Sei.

Ele pegou o telefone.

— Saia da minha casa.

— Valente...

— Agora.

Carolina caminhou até a porta.

Antes de sair, porém, parou.

— Você vai se arrepender de acreditar nela.

Valente levantou os olhos.

— Já me arrependo de não ter acreditado antes.

Ela saiu.

Mas Valente percebeu uma coisa.

Carolina não parecia apenas culpada.

Parecia com medo.

E isso significava que havia alguém acima dela.

Alguém que ainda não havia aparecido.

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