O sol quente de Las Vegas refletia no vidro fumê do hall de entrada do hotel onde Manuela e Clara estavam hospedadas. Após horas revisando o que levariam para o outro lado do mundo, as duas amigas finalmente haviam terminado de arrumar as malas. A apreensão era palpável, mas no rosto de Manuela havia uma máscara de fria determinação. Clara, por outro lado, tentava disfarçar o nervosismo ajeitando a alça da bolsa a cada cinco segundos.
Elas desceram até a recepção, entregaram as chaves e deixaram a bagagem sob os cuidados dos carregadores. O plano era simples: pegar um táxi até o hotel onde Diogo Falconi estava hospedado e encerrar a espera de dois dias antes do embarque para a Itália. No entanto, o universo de Diogo não funcionava com táxis ou esperas simples.
Assim que Manuela e Clara cruzaram as portas automáticas de vidro na direção da calçada, quatro homens trajados em ternos pretos perfeitamente alinhados interceptaram o caminho das duas. A postura ereta, o olhar atento e o volume sutil sob o paletó de cada um deles não deixavam dúvidas sobre quem eram.
O homem à frente deu um passo adiante. Ele tinha uma postura imponente, mas a expressão calculada de alguém que dominava a arte da diplomacia e da força na mesma medida.
— Precisa de ajuda, senhoritas? — a voz dele saiu firme e respeitosa. — Eu me chamo Flaco Stroni. Estou aqui a mando do senhor Diogo Falconi para acompanhá-las até o aeroporto.
Manuela ergueu o queixo, encarando o homem sem demonstrar um pingo do sobressalto que sentira por dentro.
— As malas estão na recepção — respondeu ela, direta e sem rodeios.
Flaco não perdeu tempo. Com um gesto calmo, ele estalou os dedos, e dois dos homens que o acompanhavam entraram imediatamente no lobby para recolher a bagagem.
Enquanto a ordem era cumprida, os olhos do líder dos soldados — que, além de braço direito de Vitório, era o melhor amigo e confidente de Diogo — pousaram em Clara. Por um breve segundo, a frieza profissional de Flaco oscilou diante da presença da jovem de terno pastel e cabelos alinhados, mas ele rapidamente recuperou o controle. Mantendo o profissionalismo impecável, ele fez um sinal com a mão, indicando o caminho para um imponente SUV preto e blindado parado na guia, escoltado por outros dois veículos idênticos logo atrás.
— Por favor, por aqui — Flaco disse, abrindo a porta traseira do veículo para as duas.
Clara olhou para Manuela, que apenas assentiu com a cabeça antes de entrar no carro. O trajeto até o aeroporto executivo de Las Vegas foi feito sob um silêncio absoluto. O comboio cortou o trânsito da cidade como uma sombra organizada. As viaturas de escolta mantinham um perímetro perfeito, garantindo que nenhum veículo se aproximasse demais do SUV principal.
Ao chegarem à pista privada do aeroporto, a cena que as aguardava era digna de um exército em miniatura. O jato executivo da família Falconi reluzia sob a luz do final da tarde, e uma dezena de soldados armados estava disposta ao redor da aeronave.
Diogo aguardava dentro da aeronave, mas, ao perceber a chegada do comboio, desceu até o topo da escada do avião. Ele usava uma camisa preta com as mangas dobradas até os cotovelos e mantinha as mãos nos bolsos da calça, observando a aproximação de sua esposa de fachada.
Flaco desembarcou primeiro, abriu a porta para as mulheres e caminhou com passos firmes até a base da escada do jato. Ele ergueu a mão, fazendo um sinal claro para que todos os homens posicionados na pista se alinhassem imediatamente. Em poucos segundos, uma fileira impecável de soldados de terno escuro estava de prontidão diante da aeronave.
Flaco virou-se para a tropa e disparou, com a voz ressoando com autoridade pela pista:
— Atenção! Posição! Esta é a senhora Falconi e sua amiga, Clara Martins. As vidas delas estão em suas mãos agora. Vocês devem respeito absoluto à futura dama da máfia e à sua amiga. Estão ouvindo? Qualquer menor sinal de gracinha ou desrespeito será punido pessoalmente por mim!
Os soldados bateram os pés em uníssono, confirmando a ordem com um assentimento rígido.
Manuela já havia iniciado a subida. Ela estava no primeiro degrau da escada do avião quando ouviu cada palavra do discurso severo de Flaco. Uma risada irônica e involuntária escapou de seus lábios. Ela parou no meio do caminho, virou o corpo devagar e olhou para baixo, encarando a cena. Seus olhos se moveram do chefe da guarda até Diogo, que permanecia no topo da escada, observando tudo com um ar superior.
Manuela ergueu as sobrancelhas e comentou, em um tom perfeitamente audível para todos os presentes:
— Interessante... O chefe dos soldados se preocupa mais com a vida da esposa do que o meu próprio marido. Pelo visto, ele não é tão superior assim. Deve ser por isso que o pai precisa arrumar uma esposa para dar o cargo a ele.
A provocação cortou o ar da pista como uma lâmina. Os soldados mantiveram as faces imóveis, mas a tensão na equipe foi instantânea. Flaco piscou, surpreso com a audácia, enquanto Clara prendeu a respiração na base da escada.
Diogo travou. O sorriso presunçoso sumiu de seu rosto no mesmo segundo. A insinuação de que ele era fraco ou incapaz de liderar diante de seus próprios homens atingiu em cheio o seu orgulho. Sem hesitar, ele desceu as escadas da aeronave com passos rápidos e pesados, parando no degrau imediatamente abaixo de Manuela.
Com um movimento firme, ele segurou no braço dela, sem machucar, mas com a pressão suficiente para impedir que ela continuasse subindo.
— O que você pensa que está fazendo? — Diogo questionou, a voz gélida e baixa, apenas para que os dois ouvissem.
Manuela nem piscou. Manteve o queixo erguido e sustentou o olhar furioso dele.
— O quê? Dizendo a verdade — ela respondeu com naturalidade.
— Você está me fazendo parecer fraco na frente dos meus soldados! — Diogo rosnou entre os dentes, os olhos faiscando de raiva.
— Só estou dizendo a verdade — Manuela rebateu, inclinando a cabeça levemente para o lado, zombeteira. — Um marido que se preze estaria aqui embaixo esperando a sua esposa chegar, dando prioridade para ela e só depois subindo as escadas. Vai ter que se esforçar muito mais, querido marido, se quiser parecer realmente apaixonado na frente do seu pai quando chegarmos à Itália.
A audácia de Manuela fez o sangue de Diogo ferver. Ele mordeu os lábios com força, sentindo a raiva pulsar em suas têmporas, e apertou os punhos ao lado do corpo. Se fosse qualquer outra pessoa pronunciando aquelas palavras em seu território, já teria pago um preço altíssimo por tamanha insubordinação. Mas aquela era Manuela. A mulher que carregava a assinatura ao lado da sua e a proteção direta de Vitório Falconi.
Ele não podia usar a força. Não podia surtar diante de sua guarda. Mas ele faria diferente. Usaria a única arma que poderia calar aquela boca atrevida e, ao mesmo tempo, reenquadrar sua autoridade diante de todos.
— Vou te provar o quanto eu posso ser bem convincente — Diogo murmurou, com um tom sombrio e desafiador.
Antes que Manuela pudesse processar a ameaça, Diogo deu um passo à frente, encurtando drasticamente a distância entre eles. Ele passou o braço forte pela cintura dela, puxando-a contra o seu corpo com firmeza. Com a outra mão, segurou sua nuca, inclinando o corpo dela levemente para trás no meio da escada do avião.
Manuela soltou um arfar de surpresa, mas não teve tempo de protestar. Diogo selou seus lábios nos dela em um beijo intenso, dominador e carregado de uma energia reprimida que fez o tempo parar na pista do aeroporto.
Não foi um toque suave. Foi um choque de vontades. O contato inicial trouxe o sabor quente e provocativo da raiva mútua, mas à medida que os segundos passavam, a pressão da mão dele em sua cintura e o calor de seu corpo transformaram o confronto em algo infinitamente mais perigoso. Manuela tentou colocar as mãos no peito dele para empurrá-lo, mas seus dedos simplesmente se prenderam no tecido da camisa preta de Diogo, incapazes de exercer a força necessária.
Ao fundo, na pista de pouso, Flaco pigarreou discretamente, virando o rosto de lado, enquanto os soldados mantiveram a postura rígida, encarando o horizonte como se nada estivesse acontecendo. Clara, por sua vez, cobriu a boca com as duas mãos, completamente chocada com a cena de cinema que se desenrolava na sua frente.
Diogo aprofundou o beijo por mais alguns segundos, garantindo que cada homem presente ali — e a própria Manuela — entendesse a mensagem. Quando ele finalmente rompeu o contato, o fez devagar, mantendo seus rostos a milímetros de distância. A respiração de ambos estava descompassada.
Manuela piscou, os lábios ligeiramente entreabertos e o rosto corado, pela primeira vez sem uma resposta afiada na ponta da língua. Os olhos de Diogo brilhavam com um triunfo arrogante.
Ele aproximou o rosto do ouvido dela e sussurrou, com a voz rouca:
— Bem-vinda à família Falconi, minha esposa. Agora suba a porcaria dessa escada antes que eu decida te mostrar o quanto sou convincente no resto do avião.
Manuela engoliu em seco, recuperando o controle de suas faculdades mentais aos poucos. Ela soltou a camisa dele com um tique de irritação, ajeitou o casaco sobre os ombros e fuzilou Diogo com o olhar mais gélido que conseguiu reunir.
— Você é um idiota, Falconi — ela declarou, com a voz tentando manter a firmeza, embora suas pernas ainda estivessem levemente bambas.
Sem esperar por uma tréplica, Manuela virou as costas e terminou de subir os degraus, entrando na cabine luxuosa do jato executivo.
Clara subiu logo em seguida, praticamente correndo pelos degraus, com os olhos arregalados. Passou por Diogo, que apenas deu um passo para o lado na plataforma superior, mantendo o sorriso satisfeito no rosto enquanto observava as duas entrarem.
No interior do avião, a opulência era evidente. Poltronas de couro bege ultra macias, iluminação indireta quente, uma mesa de centro de madeira nobre e um bar privativo totalmente equipado. Manuela caminhou direto para uma das poltronas mais afastadas da entrada, jogando-se nela e cruzando as pernas de forma defensiva.
Clara sentou-se na poltrona à frente, inclinando o corpo para a frente e sussurrando com entusiasmo contido:
— Meu Deus, Manu! O que foi aquilo na escada? Eu achei que vocês se matariam ou se devorariam ali mesmo!
— Ele é um animal arrogante — Manuela resmungou, pegando uma garrafa de água no suporte lateral e abrindo-a com força desnecessária. — Fez aquilo só para se amostrar para os homens dele. Ele acha que pode me controlar com esse joguinho barato de sedução.
— Pois me pareceu um joguinho bem eficiente, porque você ficou sem palavra por dez segundos inteiros — Clara provocou, dando um risinho provocativo.
— Foi o elemento surpresa! — Manuela defendeu-se imediatamente, bebendo um gole da água. — Ele não vai me pegar desprevenida de novo. Nós temos um acordo. Não há toques, não há envolvimento real. Ele quebrou a regra na frente de todo mundo.
Nesse instante, a porta da cabine se abriu e Diogo entrou, seguido por Flaco. O herdeiro da máfia parecia completamente recomposto, a aura de autoridade inabalável de volta ao seu lugar. Ele passou pelos assentos sem olhar diretamente para Manuela, embora o canto de sua boca ainda guardasse o vestígio daquele sorriso vitorioso.
— Flaco, garanta que a rota sobre o Atlântico seja a mais rápida — Diogo instruiu, sentando-se em uma poltrona no setor oposto da aeronave. — Meu pai quer que estejamos na Calábria antes do pôr do sol de amanhã. Ele já começou a convocar os capos para o jantar de apresentação.
— Tudo pronto, *signor* Diogo. O piloto já recebeu autorização da torre de controle. Decolamos em cinco minutos — Flaco respondeu. Antes de se retirar para a área reservada à tripulação, o chefe da guarda lançou um olhar rápido na direção de Clara, um gesto sutil que não passou despercebido por Manuela.
Os motores do jato executivo rugiram na pista de Las Vegas. Em poucos minutos, a aeronave ganhava altitude, deixando para trás as luzes neon da cidade do pecado e cortando as nuvens em direção ao céu escuro do oceano.
Dentro da cabine, o silêncio se instalou. Clara acabou adormecendo após o estresse dos últimos dias, confortavelmente acomodada na poltrona reclinável. Diogo trabalhava em um tablet de tela criptografada, concentrado em relatórios de negócios da família, a luz da tela refletindo em sua estrutura labial e em sua postura rígida.
Manuela olhava pela janela ovalada da aeronave. A imensidão negra lá fora parecia espelhar a incerteza do seu próprio futuro. Ela havia saído do Brasil fugindo de um casamento forçado por seu pai com um homem fútil, apenas para se ver noiva no papel do herdeiro de uma das organizações criminosas mais perigosas da Europa.
Ela virou o rosto levemente e observou Diogo à distância. Ele parecia focado, implacável, o retrato perfeito do homem criado para liderar sem hesitação. Mas Manuela não era uma mulher fácil de se dobrar. O beijo na escada havia sido uma demonstração de força dele, mas ela usaria todas as armas que tinha — incluindo a proteção do velho Vitório Falconi — para garantir que não virasse um joguete nas mãos daquele mafioso.
Diogo, sentindo o olhar sobre si, desviou os olhos do tablet e encarou Manuela do outro lado do corredor. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. Não havia sorriso provocativo ou raiva explícita; apenas o reconhecimento de que a trégua entre eles era frágil e que a Itália os esperava com desafios muito maiores do que uma noite de bebida em Las Vegas.
Manuela sustentou o olhar dele por mais alguns segundos antes de puxar a pequena cortina da janela e reclinar sua poltrona, virando o corpo para o lado oposto.
Diogo soltou um suspiro imperceptível, desligou a tela do tablet e olhou para o teto da aeronave. A travessia atlântica estava apenas começando, mas a verdadeira guerra pelo poder — e pelo controle daquele casamento — seria travada em solo italiano. E ele sabia que, com Manuela Garcia ao seu lado, aquela jornada estaria bem longe de ser tranquila.