Capítulo 01 - O Erro de Quatro Milhões

Quando Dayse Whitmore abriu os olhos, a primeira sensação que teve foi a de estranhamento.

Não era apenas a luz suave que atravessava as cortinas pesadas do quarto, era a percepção estranha de que seu corpo parecia cansado de uma forma que não combinava com o lugar onde ela acreditava ter adormecido na noite anterior.

Por alguns segundos, ela permaneceu imóvel. Seus olhos começaram a analisar o quarto com atenção. O teto branco, a televisão desligada na parede, a mesa lateral com uma garrafa de água quase vazia. 

E então seu olhar caiu sobre a cadeira ao lado da cama onde o  vestido preto da noite anterior estava jogado ali, amassado, como se tivesse sido retirado às pressas.

O coração dela deu um pequeno salto dentro do peito.

— Não…

Dayse se  sentou  lentamente na cama, puxando o lençol até o colo enquanto começava a observar o quarto ao redor com mais atenção. Foi então que percebeu que aquele lugar não era o seu quarto, e também não havia nenhum sinal de que pertencesse a alguém que realmente morasse ali.

Tudo tinha um aspecto impessoal e excessivamente organizado, como se nada naquele espaço tivesse história ou dono. Era limpo, neutro, típico de lugares preparados apenas para receber pessoas por algumas horas.

E foi nesse momento que a palavra finalmente se formou com clareza em sua mente.

Ela estava num quarto de Motel.

E foi aí que  a lembrança veio em fragmentos:   A traição, o  bar, a  música alta, a vodka, o homem alto e perfumado, mãos firmes na sua cintura, um beijo intenso e  depois…

Nada.

Dayse levou a mão à testa, sentindo a cabeça latejar levemente.

— Meu Deus…

Ela virou o rosto para o lado da cama e estava vazio. Nenhum sinal do homem, nem um bilhete, nem qualquer pista, apenas o travesseiro levemente amassado, denunciando que alguém havia estado ali poucas horas antes. Dayse passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.

— Ok… — murmurou para si mesma, respirando fundo. — Ok, calma.

Foi então que ela viu o celular sobre a mesa. Estendeu a mão, pegou o aparelho e  quase teve um ataque cardíaco quando viu o horário.

09:12 a.m

Por um segundo inteiro, o cérebro dela se recusou a aceitar aquela informação. Depois, a realidade caiu sobre ela como um balde de água gelada.

NÃO!

Dayse saltou da cama com tanta rapidez que quase tropeçou no próprio lençol.

Eu estou atrasada!

Começou a procurar as próprias roupas com movimentos apressados, colocando o vestido da noite anterior enquanto ainda tentava prender o cabelo de qualquer maneira. Os saltos estavam espalhados pelo chão. A bolsa havia caído perto da porta. E enquanto juntava tudo às pressas, sua mente ainda tentava recuperar qualquer lembrança mais clara do homem com quem havia passado a noite, mas nada. 

Apenas flashes.

A voz grave, confiante, irritantemente segura.

Ela suspirou fundo. 

— Ótimo, Dayse… — murmurou, enquanto procurava o batom dentro da bolsa. — Você dorme com um estranho… e ainda chega atrasada no trabalho. Perfeito.

Quase uma hora depois, quando finalmente entrou no prédio espelhado da empresa onde trabalhava, Dayse já havia decidido que ninguém precisava saber absolutamente nada sobre a noite anterior.

Endireitou os ombros, respirou fundo e caminhou pelo corredor do departamento jurídico com a tentativa um pouco desesperada de parecer normal, mas não funcionou. Assim que entrou na sala, três pares de olhos se voltaram imediatamente para ela e ficaram a analisando por tempo demais em um silêncio constrangedor.  

Clara foi a primeira a falar.

— Dayse o que?

Ela levantou a mão imediatamente.

— Nem uma palavra.

Isabella, que estava sentada perto da impressora, inclinou a cabeça de lado enquanto analisava o visual da amiga. O vestido preto, o cabelo preso de qualquer maneira, a maquiagem claramente reaplicada às pressas. 

— Você está usando… — começou.

— Não.

— Mas… 

— Eu disse que não comentem nada.

Clara cruzou os braços, tentando esconder o sorriso.

— Você chegou atrasada, usando roupa de festa, com cara de quem acabou de sair de uma madrugada extremamente interessante e quer que a gente simplesmente ignore?

Dayse abriu a gaveta da mesa e pegou um espelho pequeno.

— Eu preciso de maquiagem. 

Marina entrou na sala naquele momento, segurando alguns documentos.

— Bom dia, sobreviventes do departamento jurídico…

Ela parou ao ver Dayse. Piscou duas vezes e depois sorriu lentamente. 

— Ok… eu perdi alguma coisa muito boa.

Dayse soltou um suspiro derrotado.

— Marina, por favor. Não faça perguntas.

Marina deu de ombros e colocou alguns papéis sobre a mesa dela.

— Então assina isso aqui.

Dayse puxou a cadeira e se sentou.

— O que é?

— Renovação de contratos com fornecedores.

Pegou a caneta e começou a assinar página após página, sem realmente ler.

Marina a observou com expressão desconfiada e preocupada. 

— Você não vai revisar?

Dayse assinou a última folha e empurrou o documento de volta.

— Marina…

— Sim?

— Você confia em mim?

Marina estreitou os olhos.

— Nem um pouco.

Dayse sorriu respondendo.

— Mas eu confio em você.

Marina abriu a boca para responder, mas Clara já estava rindo.

— Você vai nos matar qualquer dia. 

Dayse se levantou.

— Agora alguém me empresta maquiagem antes que eu seja oficialmente declarada um desastre humano. E pode ir até o meu armário  buscar uma roupa menos chamativa?

Horas depois, já após o almoço, o clima no escritório havia voltado ao normal.

Dayse estava encostada na mesa de Clara, contando a história da noite anterior em voz baixa.

— Eu juro que não lembro do rosto dele — disse, gesticulando com a mão.

Clara arregalou os olhos.

— Como assim você não lembra?

— Eu lembro da voz.

— E?

Dayse pensou por alguns segundos.

— Confiante...

— Só isso?

— Arrogante...

— Isso também não ajuda.

Dayse mordeu o lábio.

— E muito… muito seguro de si.

Clara suspirou fundo. 

— Você pegou um CEO.

Dayse riu.

— CEO não frequenta bar em plena terça-feira.

Foi nesse momento que todos os computadores da empresa emitiram um alerta ao mesmo tempo. Um aviso vermelho apareceu nas telas.

REUNIÃO URGENTE NA PRESIDÊNCIA

PRESENÇA OBRIGATÓRIA

O ambiente inteiro ficou em silêncio. Clara franziu a testa, olhando para o alerta vermelho que ainda piscava na tela.

— Isso nunca é um bom sinal.

Dayse sentiu um frio estranho percorrer o estômago enquanto se levantava da cadeira.

Algo estava errado, muito errado. E por algum motivo que ela ainda não conseguia explicar, tinha a sensação de que aquele aviso tinha alguma coisa a ver com ela.

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