Mundo de ficçãoIniciar sessão
A primeira coisa que Dayse Whitmore fez depois de descobrir que sua vida havia desmoronado foi entrar em um bar em Manhattan.
A segunda foi pedir uma vodka dupla.
E a terceira foi não perceber que, desde o instante em que entrou, já havia sido escolhida.
Manhattan pulsava naquele dia, mas nada ali parecia vivo o suficiente para competir com o caos dentro dela.
As luzes dos prédios refletiam nos vidros dos carros que passavam em fluxo constante pelas avenidas. Ao mesmo tempo, a música que escapava dos bares próximos se misturava ao ruído contínuo da cidade.
Tudo isso criava aquela atmosfera típica das noites urbanas: a sensação de que, em meio à multidão e ao caos iluminado da cidade, sempre existe alguém tentando esquecer alguma coisa.
Era exatamente isso que Dayse Whitmore estava tentando fazer.
Quando empurrou a porta do bar, o ar quente e carregado de perfume, álcool e as vozes animadas, a envolveu imediatamente, como se o lugar inteiro estivesse convidando qualquer pessoa que entrasse ali a deixar seus problemas do lado de fora, pelo menos por algumas horas.
Ela caminhou até o balcão com passos firmes, embora por dentro estivesse muito menos segura do que aparentava. Se sentou no banco alto, apoiou a bolsa ao lado e respirou fundo antes de falar.
— Vodka — pediu, passando a mão pelos cabelos escuros que caíam sobre os ombros. — E não economize.
O barman ergueu uma sobrancelha, a observando rapidamente, como quem já reconhecia o tipo de noite que aquela mulher pretendia ter.
— Pura?
Dayse soltou um suspiro que carregava mais cansaço do que lucidez.
— E, dupla.
O copo foi colocado diante dela e, sem hesitar, ela o ergueu e virou o líquido transparente de uma só vez, sentindo o álcool descer queimando pela garganta até o estômago, onde se espalhou como uma pequena chama reconfortante.
Era exatamente o que precisava.
Por alguns segundos, permaneceu ali, olhando para o reflexo distorcido do espelho atrás das garrafas, tentando ignorar a lembrança da discussão que ainda ecoava na sua cabeça.
A traição, as mentiras, e as promessas quebradas.
Ela fechou os olhos por um instante.
— Outra — disse, empurrando o copo vazio para frente.
O segundo copo ainda estava sendo servido quando ela sentiu que estava sendo observada. Não era apenas alguém a olhando por acaso, era um olhar mais demorado, observador, pesado o suficiente para fazer um arrepio surgir na sua espinha.
Dayse virou o rosto devagar e foi quando o viu.
Ele estava alguns metros afastado, encostado casualmente no balcão com um copo na mão, observando-a com uma expressão curiosa que misturava confiança e um certo tipo de arrogância.
Era alto, muito alto, com o tipo de força que chamava atenção mesmo quando ele permanecia parado.
Era o tipo de homem cuja presença parecia ocupar mais espaço do que realmente ocupava. Vestia uma camisa branca impecável, com as mangas dobradas até os antebraços, revelando músculos firmes sob a pele. No pulso, um relógio caro chamava atenção, enquanto seus olhos verdes percorriam o ambiente com calma, como se estivessem analisando cada detalhe ao redor.
Quando percebeu que ela havia notado seu olhar, ele ergueu levemente o copo em sua direção, num gesto silencioso de brinde, e então começou a se aproximar devagar.
— Parece que você está tentando se afogar em vodka. — disse enquanto se aproximava.
Dayse arqueou uma sobrancelha, virando o corpo de leve no banco para encará-lo.
— E você parece estar tentando puxar conversa… sem saber se deveria.
Um sorriso lento surgiu no canto da boca dele.
— Eu nunca faço nada sem saber exatamente o que estou fazendo.
Ela inclinou a cabeça, analisando.
— Isso soa mais como arrogância do que como confiança.
— Normalmente são a mesma coisa.
Ele se aproximou um pouco mais parando ao lado dela, próximo o suficiente para que ela percebesse o perfume dele, um aroma sofisticado que imediatamente chamou sua atenção.
— Problemas? — ele perguntou, como se já soubesse a resposta.
Dayse soltou uma risada leve, mas sem suavidade.
— Você sempre aborda mulheres assim? Como se estivesse avaliando um investimento?
— Só quando vale a pena.
Ela estreitou os olhos.
— E você já decidiu se vale a pena?
Ele não hesitou.
— Desde o momento em que você entrou.
Dayse sorriu e dando mais um gole na sua bebida.
— Você é perigosamente confiante. — ela disse, mas havia um brilho diferente no olhar.
— Eu prefiro o termo preciso. Normalmente, eu não erro.
Ela se inclinou levemente em direção a ele.
— E eu prefiro homens menos previsíveis.
Ele sorriu.
— Então você vai se decepcionar.
— Ou talvez não — ela rebateu, com os lábios quase curvando em desafio.
Foi a vez dele beber o seu drink sem desviar os olhos de Dayse nem por um segundo.
— Me responda, por que essa expressão de quem claramente está considerando colocar fogo em tudo só para ver o que sobra depois?
Ela o encarou por alguns segundos antes de responder.
— Porque transformar tudo em cinzas ainda parece mais simples do que organizar o caos que eu chamo de vida.
O comentário fez com que ele soltasse uma risada.
— Imagino. Pessoas que pensam demais costumam preferir soluções radicais.
Ela o observou por um instante, curiosa.
— E você? — perguntou. — Por que está aqui?
Ele deu de ombros com naturalidade.
— Porque hoje eu precisava de uma distração à altura… e você acabou chamando minha atenção.
Houve um breve silêncio entre os dois, do tipo que carrega expectativa. Então ele comentou, analisando o rosto dela com atenção.
— Você é oriental?
Dayse inclinou levemente a cabeça.
— Metade.
— Interessante…
Ela estreitou os olhos.
— Isso foi uma cantada?
Ele sorriu novamente, dessa vez com uma expressão ainda mais confiante.
— Não. Foi apenas uma observação.
Ela também acabou sorrindo.
— Você é muito convencido.
— E você está muito bêbada para perceber que isso está funcionando.
Dayse riu. E naquele instante percebeu que, pela primeira vez naquela noite, estava se sentindo menos triste.
Ele estendeu a mão.
— Edward.
Ela hesitou apenas por um segundo antes de apertar a mão dele.
— Dayse.
Os dedos dele permaneceram segurando os dela por um instante a mais do que o necessário, o toque foi firme e quente o suficiente para fazer seu corpo reagir.
— Prazer — ele disse.
Ela inclinou levemente o rosto.
— Ainda iremos descobrir.
A noite continuou com mais bebidas, mais proximidade e mais risadas. E em algum momento, sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando, o espaço entre eles simplesmente deixou de existir.
Quando saíram do bar, já estavam de mãos dadas.
Quando a porta do quarto do motel se fechou atrás deles, nenhum dos dois tinha qualquer intenção de parar.
O beijo veio rápido, intenso, urgente, como se os dois estivessem tentando afogar em desejo tudo aquilo que estavam tentando esquecer.
E por algumas horas, funcionou
O que nenhum dos dois sabia, é que aquela noite que deveria ser apenas um erro conveniente entre dois estranhos, não seria esquecida.
Muito menos perdoada.







