CAPÍTULO 4

Assim que Isabelly entrou em seu apartamento, o celular vibrou sobre a mesa. Ela nem olhou de imediato. Estava concentrada demais nos relatórios à sua frente, cruzando informações, ligando nomes, desmontando mentiras como sempre fazia.

Vibrou de novo. E de novo. Isabelly soltou um suspiro curto, irritado, e finalmente pegou o aparelho.

Clara Montês. A única pessoa que ainda insistia em atravessar as muralhas dela.

— Você só pode estar brincando… Murmurou, atendendo.

— EU NÃO ESTOU BRINCANDO! A voz de Clara veio do outro lado, animada demais. — Você SUMIU!

Isabelly fechou os olhos por um segundo.

— Eu trabalho, Clara. Pessoas fazem isso.

— Não, você se esconde. Corrigiu a amiga, sem hesitar. — E hoje você não vai conseguir.

Houve um breve silêncio, até que Isabele respondeu.

— Eu não tenho tempo...

— Tem sim. Clara cortou. — Hoje é importante pra mim.

Isabelly arqueou levemente a sobrancelha.

— O que aconteceu agora?

Ela fez uma pausa dramática.

— Meu pai está chegando.

Aquilo fez Isabelly parar. Não por interesse. Mas por curiosidade. Clara sempre falava de seu pai como um herói, um homem de muitos talentos, enigmático, mas amoroso e exigente, organizado, observador...

— E…? Perguntou Isabelly.

— E você prometeu me ajudar nisso.

— Não.

— Isabelly, por favor.

— Clara...

— Você me deve isso Isa. E você prometeu me ajudar.

— Ok, entendi. Houve uma pausa breve. — Você só precisa da aprovação dele, não é?!

— Também.

Houve um silêncio pesado, calculado. Isabelly odiava esse tipo de argumento. Mas Clara era uma das poucas pessoas que ela ainda gostava. Ela parecia tanto com sua irmã, se ela ainda estivesse viva seria como ela. Alegre, descontraída, medroso e sempre precisando de aprovações dos outros em tudo. Isabelly sorriu de leve ao lembrar da irmã mais velha.

— Você é rica Clara, pode mandar suas empregadas fazer isso. Porque me quer realmente? Perguntou por fim.

— Quer realmente saber a verdade? Houve um suspiro do outro lado da linha. — Meu pai acha que sou antissocial, que não sou capaz de fazer amizades ou que é possível alguém gostar de mim. Eu... eu só queria provar que ele está enganado.

Isabelly sentiu uma pontada no peito, Clara jamais havia falado do pai daquele jeito. Aquele lado do pai dela Isabelly não conhecia. Mas ela gostava de Clara, tinha uma profunda afeição por ela.

— Tudo bem. Isabelly respondeu por fim. — Eu irei com uma condição.

— Qual?

— Que eu possa ficar para o jantar.

Clara quase gritou do outro lado da linha.

— Ah! Sério isso!? Você vai jantar com a gente. Maravilha!

— Chegarei cedo para te ajudar, mas só poderei ficar por uma hora.

A ligação foi encerrada. Isabelly ficou olhando para o celular por alguns segundos.

Algo nela… hesitou, sem motivo aparente, sem lógica. Mas ignorou. Como sempre fazia.

***

A casa dos Fontes era exatamente o que se esperava. Grande. Imponente. Elegante. Mas havia algo ali… difícil de explicar.

Não era aconchego. Era presença. Controle. Poder. Isabelly percebeu isso no momento em que atravessou o portão.

— Você veio! Clara apareceu na porta, sorrindo e já puxando Isabelly para dentro.

— Eu disse que viria. Mas você não me disse que o jantar seria na casa de seu pai.

— Amiga, eu não poderia fazer o jantar naquele meu apartamento minúsculo e sujo de tinta.

— Você sabe que odeio surpresas, não deveria ter omitido isso de mim.

Clara sorriu, e tranquilizou a amiga.

— Ok, Ok. Prometo não omitir da próxima vez.

 — Não haverá próxima vez.

Clara parou e ficou de frente para a amiga, observou com atenção.

— Você está tensa.

— Eu estou sempre assim.

— Não… Clara estreitou os olhos. — Hoje é diferente.

Isabelly não respondeu. Porque, pela primeira vez em muito tempo… Clara estava certa. Ela não gostava do desconhecido, aquela ideia de jantar com Clara e o pai dela era desconfortável. Mas Isabelly estava decidida a mudar o assunto.

— Vamos ao que interessa. O que você quer fazer para o jantar.

Clara sorriu de canto, como se escondesse algo.

— O jantar já está pronto. E... meu pai já chegou.

Isabelly quase gritou:

— O quê!

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