Mundo ficciónIniciar sesiónDuas semanas depois
Fui treinado desde cedo para comandar, para saber lidar com gente, com guerra, com tudo. O meu coroa ainda está aí na ativa, firme e forte, e eu aprendi tudo o que sei com ele. Vim morar aqui em Paraisópolis há exatos quinze anos. Descobrimos que o antigo dono daqui estava armando traição contra a família, e ainda por cima estava escondendo e protegendo o Rex, o desgraçado que a gente procura. Não deu outra: invadimos, limpamos a área, matamos todos os que estavam do lado errado... mas o filho da puta do Rex conseguiu escapar, como sempre. Prometi para o meu mano LK que um dia vou entregar a cabeça desse verme numa bandeja de prata. E o que eu prometo, eu cumpro. Vou caçá-lo até o fim do mundo, não sossegarei enquanto não resolver essa dívida. Tenho dois irmãos: a Laura, de 24 anos, e o Diego, de 29. Eles moram com o coroa na Brasilândia, e prefiro que fiquem lá, bem longe do movimento pesado daqui. Principalmente a minha irmã, essa me dá uma dor de cabeça danada, vive querendo saber de tudo, querendo se meter onde não é chamada... não tenho idade para isso, não, cara. — Salve, patrão! — Jhon chega, meio desconfiado. — Qual é a fita, Jhon? — ele me olha um pouco assustado. — Vai, pode falar, diz o que está pegando. — Está ligado no Guto? Cê tinha dado ordem para ninguém mexer no armamento que está guardado no barraco do beco 15, né? Pois então, ele estava lá, remexendo tudo. Estou te contando por que, se pá, alguma coisa der errado ou faltar alguma peça, vão botar a culpa em mim, e eu não quero me dar mal. — Mó cota que eu já estou de olho naquele filho da mãe, já sabia das artimanhas dele. Fica de boas, se preocupa não, eu mesmo vou resolver esse B.O. — Valeu, patrão. Valeu mesmo. Jhon é um dos poucos que tenho confiança de verdade. Tem só 18 anos, os pais são dois viciados que não ligam para nada. Ele entrou nessa vida cedo para ajudar a criar os irmãos, são cinco crianças, todos pequenos, dependem dele. Ajudei no que pude, dou suporte, porque apesar de viver nesse meio errado, aqui no meu comando só entra quem já é de maior, não aceito menor de idade não. E se algum dia eles quiserem sair, largar tudo, dou a maior força e todo o dinheiro que for preciso, porque sei que isso não é vida para ninguém, só traz sofrimento. Se estou errado em comandar tudo isso, não sei... mas enquanto eu estiver aqui, vou tentar proteger quem é de bem. O Jhon, apesar de trabalhar como segurança à noite, estuda durante o dia. Se não fosse pela família, tenho certeza que ele já tinha seguido outro caminho há muito tempo. Se passaram duas semanas, e para contar a verdade: não tive coragem de chegar perto da Vitória nem para dizer um "oi". Estou igual adolescente apaixonado, só pode, cara. Ela quase não sai de casa, só a vejo algumas vezes quando ela está indo ou voltando do trabalho no hospital. Melhor deixar essa fita quieta por enquanto, deixar o tempo andar. O LK me contou que ela é bem na dela, não curte baile, nem festa, nem confusão. É muito caseira, cuidadosa com as crianças. De vez em quando leva eles para o parquinho que tem na área mais alta da comunidade, para brincar. Hoje estamos no bar do Jorge, que fica bem em frente à quadra. Daqui a pouco vai ter uma pelada dos mano, para animar a tarde que está bonita e quente. De longe, reconheço logo ela. Está vindo em direção ao parquinho com as crianças e com a Lavínia. O meu coração dispara só de ver. — Olha só, lá vem a minha neguinha! — diz o LK, todo animado, olhando para as duas que vêm caminhando devagar. — Mano, na moral, fi... mó gostosa essa médica, hein... — comenta um dos mano ao lado. — NEGUINHA, VEM AQUI! — o LK grita, alto, chamando a atenção delas. Miro cada detalhe da roupa dela. Ela está com um short jeans de lavagem escura, com a barra desfiada, que deixa as coxas dela totalmente à mostra, brancas e torneadas. Veste também um cropped de amarração, que deixa a barriga de fora, e umas havaianas brancas cheias de pedrarias que brilham no sol. O cabelo está todo preso num rabo de cavalo alto, deixando o pescoço à mostra. A mulher está um arraso, e não é só eu que estou reparando: todo mundo está olhando, ela chama atenção por onde passa, é inevitável. A amiga, fala alguma coisa com ela, e Vitória nega com a cabeça, sorrindo. Ela fica parada na entrada do parquinho, olhando as crianças brincarem, e só a Lavínia vem andando até onde a gente está. — Diga aí, minha deusa! — o LK recebe ela todo animado. — Boa tarde, pessoal. Ela senta num banquinho ao lado do LK, toda à vontade. — E a outra, a Vitória, não quis vir não? — Ela só veio mesmo trazer os meninos para brincar um pouco, está cansada do trabalho, prefere ficar sentada ali, observando. — Mina metida, hein... — resmunga a Nick, do meu lado. — Você fala isso só por que não a conhece, Nick. Ela é uma ótima pessoa, educada, correta... — defende Lavínia. — É, mas não parece não. Dá logo uma impressão de quem é cheia de não me toque. — Quando você conhecer de verdade, vai ver que ela é uma pessoa maravilhosa, merece todo o respeito do mundo. — Maravilhosa é pouco... e gostosa, então, nem se fala — fala o Guto, sem noção nenhuma. — Sabe Guto o que a minha amiga mais odeia no mundo? Homem escroto, que fala o que não deve — Lavínia rebate na lata, com rispidez. — Segura a sua amiga aí, LK, ela é braba... — ele tenta brincar. — Segura você é a sua língua, moleque. Minha amiga não é para ser assunto de boca suja de ninguém, ouviu bem? Respeito é bom e todo mundo gosta. Já deu para mim, essa conversa já está me dando nos nervos. Meti o pé, saio de perto deles antes que eu perca a linha e arrume confusão com esses idiotas. Preciso me afastar, pensar melhor nas coisas, e principalmente: entender o que é que essa mulher está fazendo com a minha cabeça.






