Mundo ficciónIniciar sesiónBranca Oliveira
Fazia uma semana que eu tinha enterrado minha mãe e meu filho. E para falar a verdade eu nem sei onde eu começava e onde eu terminava. Por dentro eu era só dor. Um vazio que não acabava nunca.
O hospital me encaminhou para uma terapeuta, que me disse que voltar as pequenas rotinas talvez aliviasse um pouco a falta que eu sentia todos os dias. Mas a verdade era uma só. Nada ajudava, nada fazia sentindo para mim.
Mesmo assim, coloquei o crachá no pescoço e entrei no hospital. O mesmo que sempre marcaria a pior tragédia da minha vida.
As pessoas que trabalhavam comigo, passavam por mim sussurrando, a pena estampada nos olhos de cada um. A forma de uma dor que elas não tinham nem ideia de como era.
Quando entrei em minha sala, percebi que não havia quase nada de papelada em minha mesa, e percebi que as meninas do meu setor, se organizaram com as demandas, o que me deu um mínimo de alívio.
"Branca, que bom que está de volta." Clara, minha chefe, falou me abraçando, mas não consegui retribuir.
"Precisava voltar..." falei apenas e ela concordou. Uma pasta estava em suas mãos.
"Preciso de uma avaliação de uma paciente pediátrica. Apenas uma observação de pós-operatório. O pai dela é um pouco complicado e todas estão correndo dele. Gostaria de tentar ou acha que é muito para você." dei de ombros.
"Eu vou lá conversar com eles." ela sorriu de lado apertando meu ombro.
Caminhei pelo corredor infantil tentando não olhar para dentro das salas. Não queria encontrar meu filho no rosto de outras crianças. Não queria ver o sofrimento daquelas mães refletindo o meu. Então apenas ergui a cabeça e segui.
Quando parei diante do quarto indicado, meu coração apertou sem motivo. Dei uma pequena batida na porta e a empurrei de vagar, a abrindo e me deparei com uma menininha.
Era ela. A garotinha que vi na última noite. Aquela que precisava de um coração com urgência.
Ela me encarou de volta e sorriu.
"Posso entrar?" questionei olhando pelo quarto e procurando por seu pai.
"Pode. Meu papai foi atender uma ligação, mas disse que já volta." confirmei e caminhei devagar percebendo que ela estava um pouco mais corada, e com um grande curativo no peito.
"Então vou ficar aqui até ele chegar, tudo bem? Meu nome é Branca e sou assistente social aqui no hospital e queria saber como você está se sentindo, querida." ela sorriu de lado passando os dedinhos com cuidado pelo curativo.
"Agora eu estou bem. Eu tenho um coração novinho. Quer sentir?"neguei, mas ela segurou minha mão com uma rapidez incrível.
Naquele momento foi como se todo o meu corpo se anestesiasse. Uma calma estranha me invadiu. Não era medo. Era outra coisa... algo como pertencimento. Algo surreal e engoli o choro.
"Acho...acho melhor não querida. Deixa seu pai chegar." Falei ainda segurando seus dedinhos nos meus. "Eu quero que me diga se está sendo bem atendida pelas enfermeiras, se os médicos são legais..." continuei meu trabalho, mas não queria soltar a mão daquela garotinha.
"São todos muito legais e eu prometi para todos que vou cuidar muito bem do meu coraçãozinho novo. Meu papai falou que foi um anjo que me deu ele, então eu não posso desobedecer nada do que os médicos me pedirem."
Meu peito apertou como se tivesse levado um golpe.
"Tenho certeza de que vai. Mas preciso saber... está sentindo alguma dor?"
"Um pouquinho. Mas meu papai disse que é normal. Que vai passar."
"Ele está certo. Seu corpo está se acostumando. Mas logo você vai ficar bem."
Ela sorriu de novo, me observando com atenção."O que foi?", perguntei.
"Você tem uma voz bonita." Ela piscou devagar. "Você é cantora?" engasguei dando uma risada baixa, porque Pedro sempre dizia isso, que eu deveria ser cantora.
"Não sou, mas gosto muito de cantar."
"Canta uma música pra mim? Eu queria muito ouvir..." fiquei constrangida, mas não podia negar o pedido de uma garotinha. Assim que abri a boca para começar, a porta se abriu e um homem entrou.
O problema é que não era qualquer homem. Era o homem do bar. O homem que me levou para o banheiro e me fez ter a melhor sensação do mundo antes da queda.







