Mundo ficciónIniciar sesiónBranca Oliveira
O táxi mal parou e eu já estava correndo.
Eu não sentia minhas pernas, nem ouvi minha respiração. Só o nome deles gritando dentro da minha cabeça."Onde eles estão? Minha mãe e meu filho... por favor, onde eles estão?"
Marina, a enfermeira que tinha ligado, me puxou para dentro. Os olhos dela já estavam cheios d'água. Aquilo me destruiu antes mesmo da resposta.
"Branca..." Ela respirou fundo e eu entendi.
"Sua mãe... não resistiu ao impacto. Fizemos tudo que era possível, mas infelizmente não foi o suficiente. Eu sinto muito, querida."
Meu corpo falhou. Parecia que eu estava flutuando longe do meu próprio corpo.
"Não... não... ela dirige devagar... ela..." As palavras travavam na minha garganta.
"Eu sei." Ela tentou me abraçar, mas eu recuei, naquele momento eu não queria ser tocada por ninguém, a não ser por minha mãe e meu filho.
"E onde está o meu filho. Me leve até ele. Ele deve estar assustado."
"Branca, é uma situação delicada. Eu preciso que você se prepare, está bem?"
"Me preparar? Por quê? O que aconteceu com ele?" segurei os braços da enfermeira com força. "Me fala de uma vez!" minha voz se alterou.
"Ele está na UTI." Nada me preparou para isso e cai no chão.
Marina se abaixou e me segurou pelos ombros. "Vem, eu vou te levar até ele." Acompanhei a enfermeira até a UTI pediátrica como se tudo aquilo fosse um pesadelo.
Quando entrei no quarto, meu mundo quebrou de vez.
Pedro estava tão pequeno naquela cama enorme. Tão frágil, tão imóvel, rodeado de tubos e máquinas apitando.
"Pedro... mamãe tá aqui, meu amor..." Corri até ele, pegando sua mãozinha enfaixada.
Toquei seu rosto, beijei sua testa quente, tentando não encostar no curativo que cobria metade da cabeça dele.A médica entrou pouco depois de nós, e pelo seu semblante eu já tive todas as minhas respostas.
"Branca, vou te passar o que aconteceu com ele. Pedro estava do lado que o carro foi atingido. O impacto foi muito forte. Ele chegou com um coágulo extenso e pressão intracraniana muito elevada. Fizemos tudo que podíamos... mas talvez não seja suficiente."
Meu coração parou.
"Não fala isso. Ele vai acordar. Ele precisa acordar. Não é meu amor? Você vai acordar, não vai?" comecei a chorar novamente.
"Vamos repetir os exames neurológicos daqui a algumas horas, para confirmar a atividade cerebral." concordei com a cabeça, sem nem mesmo me virar para vê-la sair do quarto.
Eu fiquei com ele o tempo todo, segurando sua mão, cantando baixinho, contando as histórias que ele amava. Tentando chamar meu filho de volta para mim e rezando por um milagre. Qualquer um.
Quando a médica retornou, ela trouxe mais um colega com ela, e aquilo fez meu coração disparar.
"Precisamos conversar, Branca." concordei saindo do quarto esperando pelo melhor, mas com medo de ouvir o que tinham pra me dizer.
"O exame confirmou morte cerebral. Eu sinto muito."
"Não!" Alguma coisa dentro de mim rasgou. Eu gritei, mas não ouvi meu próprio som. Minhas pernas cederam, bati na parede, escorreguei até o chão.
"Não... meu Deus... não tira meu filho de mim... por favor..." Eu tremia tanto que mal conseguia respirar. Aquilo tinha que ser mentira. Tinha que ser. Não podia simplesmente ser verdade,
Alguém se ajoelhou ao meu lado, e segurou a minha mão, mas não me virei para olhar. Eu não conseguia.
"Branca... precisamos falar sobre a possibilidade de doação dos órgãos."
Doação? Eu não queria doar nada. Eu queria meu filho vivo.
"Não!", eu gritei. "Eu não quero que toquem nele. Não quero que mexam em nada no meu menino."
"Ele pode salvar muitas vidas. Eu sei que não é o momento ideal... mas precisamos decidir logo. Você sabe como funciona. Você já ajudou famílias nisso antes."
"Eu perdi minha mãe. Eu estou perdendo meu filho. Não me peça para parti-lo ainda mais. Eu não consigo." Minhas palavras saíram rasgadas do meu peito.
A médica me ajudou a levantar, mas eu estava devastada. Não conseguia pensar em nada e apenas a afastei e comecei a vagar pelo local antes tão familiar, e agora tão estranho.
Meu coração procurava uma solução para aquilo. Um jeito de trazer nosso bebê de volta. Eu não queria acreditar que nunca mais ia ouvir o riso dele, ou suas ideias mirabolantes. Que nunca mais ia sentir seu coração batendo, ou seus dedinhos acariciando meu rosto.
"Não, Pedro. Não, meu amor. Eu não aceito que você me deixe." me encostei na parede chorando, como se meu peito fosse explodir.
Foi quando ouvi uma voz atrás de uma porta de vidro.
Uma menina. Pequena, pálida, com tubos e aparelhos por toda parte. Assistindo algo no tablet, lutando para manter os olhos abertos.
Ao lado, uma enfermeira ajustava o oxigênio. Do outro lado do vidro, um homem falava ao celular, tenso.
"Eu não quero desculpas! Eu quero uma solução! Ela não tem tempo. Dê um jeito."
A voz dele cortava o ar. E por um segundo... pareceu familiar.
A enfermeira me viu parada ali e saiu do quarto para ver se eu precisava de ajuda, mas neguei com a cabeça e olhei para a menininha de novo.
"Ela precisa de um coração. A situação dela piorou muito rápido. Não sabemos se aguenta até amanhã." Olhei para a enfermeira.
"Ela está na fila de transplante, quem sabe..." mas minhas palavras morreram em minha boca. Meu peito afundou.
"Quem sabe, mas acho que não. Ela está em 3 lugar nas vagas, mas os médicos acabaram de dizer que ela tem poucas horas. O pai está desesperado, perdeu a esposa no parto e a menina tem essa doença congênita, desde bebê."
Olhei para a menina de novo. Tão pequena. Tão frágil quanto o meu Pedro.
Foi ali que meu coração quebrou pela última vez, porque foi ali que eu entendi. Entendi que amar às vezes é deixar ir, para outra pessoa poder ficar.
Voltei para o quarto do Pedro, beijando meu filho com todo o carinho do mundo.
"Lembra aquela vez que você me disse que quando crescesse queria ser um super-herói e salvar pessoas? Bom meu amor, você vai ser um super-herói hoje e salvar várias vidas. Eu te amo tanto Pedro, tanto. E sou tão orgulhosa de ser sua mãe. Você é foi o meu melhor presente e sendo assim, vou permitir que o seu desejo se torne realidade." olhei para a médica e a enfermeira, que me seguiram e olhei para o Pedro novamente.
"Eu assino. Vou doar os órgãos dele."







