Mundo ficciónIniciar sesión
Eu era uma órfã que acreditava ter tirado a sorte grande na vida.
Adotada por uma família de posses e prestígio, eu desfrutava de tudo o que alguém poderia sonhar: pais amorosos, um círculo social vibrante, cercada de amigos e uma fortuna que parecia não ter fim. Mas, da noite para o dia, tudo se foi. Meus pais sofreram um golpe, a empresa faliu, e com medo de toda a repercussão negativa e da vergonha de terem seus nomes na lama, os dois optaram por fuga definitiva e dolosa: o suicídio. — Pai, mãe! Chamei por eles como sempre fazia ao chegar em casa. Eu tinha acabado de regressar das minhas férias interrompidas após ouvir que a empresa da família tinha falido, e precisava de alguma explicação, pois não acreditava que aquilo fosse possível. E como sempre, chamei por meus pais assim que entrei, mas fui recebida por um silêncio que ecoava por toda a casa. Tudo estava quieto. Nenhum som, nenhum empregado para me receber como de costume. Caminhei até o quarto dos meus pais e bati à porta, mas novamente não obtive resposta. Então, entrei. O que vi a seguir paralisou todo o meu corpo. Meus pais estavam deitados na cama, de mãos dadas, como se estivessem apenas dormindo. Mas seus rostos pálidos e o frasco de veneno jogado no chão diziam outra coisa. Meu mundo congelou instantaneamente; o chão pareceu sumir sob meus pés, me lançando em um abismo. — Pai! Mãe! Corri até eles em prantos, segurando suas mãos frias. — Pai! Mãe! Acordem! Por favor, acordem! Gritei até perder a voz, sacudindo seus corpos já quase rígidos. — Vocês não podem me deixar aqui sozinha! Por favor, acordem! Acordem! — Por quê? Por que fizeram isso? Não me deixem sozinha! Gritei e implorei, segurando seus corpos, mas logo meu choro foi cortado pelo som da campainha. Tentei ignorar, mas o som persistia. Sem forças, me arrastei até a porta, e ao abri-la, deparei-me com um grupo de homens de terno. — Estamos aqui para cumprir uma ordem judicial para confiscar a casa, como parte da liquidação dos bens ligados ao Grupo Fuentes — disse um deles, passando por mim sem ser convidado, adentrando a casa — Esperem, o que estão fazendo? Vocês não podem fazer isso! Os meus pais... — tentei argumentar, mas fui completamente ignorada. Eles andaram por toda a casa, etiquetando cada móvel, cada objeto e, sem respeito ou consideração, etiquetaram até a cama onde estavam os corpos dos meus pais. Logo, a voz fria daquele homem soou novamente: — Você tem até 24 horas para desocupar o imóvel. Pegue apenas seus pertences pessoais. Se levar algo que não lhe pertence, será considerado roubo e você será responsabilizada criminalmente. Fiquei ali, parada, em choque, olhando para os corpos dos meus pais, ainda sem entender o que era tudo aquilo e por que estava acontecendo. Meu celular tocou, e várias mensagens do banco chegaram: “Seu cartão foi bloqueado.” “Sua conta foi desativada.” “Seus saldos e movimentações foram congelados.” Confusa, tentei ligar para saber o que estava acontecendo, mas, diferente de antes, quando era atendida com cortesia pelo meu gerente pessoal, a voz dele soou grossa e ríspida. — O nosso banco não tem mais nenhuma ligação com os Fuentes. Por favor, não volte a ligar. Fiquei ainda mais confusa e tentei ligar para outros bancos, mas a resposta fria foi a mesma em todos. Com as mãos trêmulas e suadas, olhei para a tela do celular, molhada por minhas lágrimas, e procurei o contato do advogado, do secretário, do assistente, de sócios e amigos dos meus pais. Nenhuma ligação completava. Todos desligavam antes mesmo do segundo toque. "Não, não… O que está acontecendo? Isso não pode ser real, só pode ser um pesadelo!" Em desespero, corri até os cofres, mas todos estavam abertos e completamente vazios, sem jóias, sem dinheiro. Não havia uma reserva sequer de dinheiro em toda aquela casa. — O que eu faço? O que eu faço? — perguntei a mim mesma, desesperada. Eu precisava de ajuda. Estava sozinha, sem um centavo, e não tinha dinheiro sequer para dar um funeral digno aos meus pais. Então ele me veio à mente: a única pessoa que poderia me ajudar. Mas, antes mesmo que eu pudesse ligar, a campainha soou novamente. Voltei para a sala e, como um salvador enviado pelos céus no momento em que eu mais precisava, ele estava ali: Vítor Régnier, meu noivo. Ele estava com as mãos casualmente enfiadas nos bolsos da calça clara de seu terno impecável, me observando com um olhar estranho, diferente. Mas, naquele momento, não dei importância. Corri em sua direção como quem corre para um porto seguro, mas meus passos congelaram assim que vi outra pessoa entrar pela porta atrás dele. Adelina Sampaio. A mulher que rivalizava comigo em tudo e alimentava uma hostilidade gratuita por mim. Desde o orfanato, seu ódio por mim sempre foi claro, mesmo sem eu entender o motivo. Ela caminhou de forma graciosa e parou ao lado de Vítor, abraçando o braço dele como se fosse sua propriedade. Aquilo me deixou confusa e furiosa. Olhei para Vítor, procurando alguma explicação, mas seu olhar continuava frio e impassível. — Evelyn, que bom que você ainda está aqui — Adelina começou, com um sorriso largo e cheio de escárnio. — Assim não teremos o trabalho de convidar você para visitar nossa nova casa, não é, amor? — disse ela, beijando o rosto de Vítor. Dei dois passos para trás, sentindo o impacto daquelas palavras como se tivesse recebido um golpe no estômago. “Nossa casa”? “Amor”? E um beijo? O que era tudo aquilo? Cerrei os punhos e senti as lágrimas novamente se acumularem nos meus olhos. — Vítor… o que significa isso? O que essa mulher está dizendo?! — perguntei, com raiva, olhando para os dois. Mas seu olhar continuava neutro. — Você tirou tudo da Adelina, tudo o que era dela por direito. Agora chegou a hora de devolver. — O-o quê? — perguntei, confusa. — Do que raios você está falando, Vítor?! — Era para a Adelina ter sido adotada pelos Fuentes. Se você não a tivesse deixado doente naquela época, seria ela a escolhida para ser levada e apresentada a eles, ela seria a herdeira dos Fuentes! Ele se aproximou, o perfume amadeirado que eu antes associava ao amor agora me sufocava como fumaça. — Agora, você vai devolver a vida que roubou da Adelina. E eu, pessoalmente, vou me encarregar de garantir que você pague tudo! Centavo por centavo! Meu rosto empalideceu, em choque, incrédula naqueles olhos frios carregados de ódio. Aquele não podia ser o mesmo Vítor, não podia ser o mesmo homem que até ontem, me amava e me devotava. — Dar um golpe na empresa dos seus pais e orquestrar a tomada de tudo o que era deles foi apenas o começo. Vítor se aproximou mais e segurou meu queixo em um aperto firme que machucava, me forçando a olhar para ele. — Eu vou fazer você devolver tudo que tirou da Adelina. E, se ela não estiver satisfeita, eu tirarei até a sua vida miserável! E darei a ela.






