Mundo de ficçãoIniciar sessãoRoberto não respondeu; sua expressão manteve-se imóvel, como uma máscara de serenidade calculada. Recostou-se devagar na poltrona, o couro soltando um rangido discreto, e lançou a Júlia um olhar firme, como quem concede espaço para que ela tome a palavra.
Júlia, por sua vez, sentiu a preocupação inesperada da filha invadir sua mente como uma corrente fria. O olhar de Melissa, calculista e esperançoso, implorava por respostas, e Júlia não pôde ignorar. Com a elegância letal de uma pantera que desperta de um sono calculado, ergueu-se da poltrona, cada gesto era lento, preciso. O vestido de seda negra deslizava sobre sua pele, acompanhando suas curvas com suavidade. À luz da lareira, Júlia parecia moldada em fogo e sombra, criatura nascida entre chamas e penumbra. Ela se ajoelhou diante de Melissa. Suas mãos, frias mas delicadas, envolveram-se nas mãos da filha com amor e ternura. Seus olhos, antes calculistas, suavizaram-se e fixaram-se em Melissa. Sua voz saiu baixa, mas carregada de autoridade: — Filha... há algo que você precisa saber... sobre isso. Melissa estreitou levemente o olhar, curiosa e inquieta, como quem pressente que a resposta mudará tudo. O sorriso que antes se expandia em triunfo congelou-se nos lábios, transformando-se em uma linha tensa. — O que é? — perguntou. Júlia suspirou levemente. O silêncio pesava, o vento frio agitava as cortinas e trazia o cheiro de terra molhada misturado ao perfume distante das flores noturnas. Enquanto Roberto, sério, postura ereta, e as mãos repousando sobre os braços da poltrona, não intervia; observava as duas com um olhar que parecia atravessar o silêncio da sala. Júlia continuou, sua expressão marcada por uma sombra de angústia: — Infelizmente eu e o Roberto não tivemos permissão para fazer essa escolha. Ela apertou suavemente a mão de Melissa, como se quisesse transmitir força, inclinou levemente a cabeça, e decretou: — O Edward é quem realmente irá escolher entre você e a Celeste. Ele procura pela mulher certa... então preferirá aquela que sentir atração e o seu coração se apaixonar e desejar... Nesse instante, o semblante de Melissa se alterou de forma quase dramática. Era como se uma máscara tivesse caído: os olhos antes serenos se arregalaram ligeiramente, o coração começou a bater mas rápido, mais forte, como se quisesse escapar do peito, e o brilho de ambição que cintilava em suas pupilas agora se misturava a um medo súbito, cru, de perder para Celeste. Com um suspiro pesado e a voz trêmula, ela conseguiu dizer: — O quê? Como assim, mãe? — o som saiu em desespero, quase um grito sufocado. — A escolha será dele? — Sim, filha, mais… — disse Júlia, a voz baixa, como se cada palavra fosse um fardo. Melissa não suportou ouvir mais. Interrompeu-a, levantando-se de súbito, como se a poltrona fosse uma prisão. Avançou dois passos desesperados, os pés arrastando no tapete, e parou de costas para os pais. Suas mãos tremiam sem parar, e ela as levou ao peito, como se quisesse conter o coração que pulsava em ansiedade. Celeste, fixa em Melissa, manteve-se serena e calada, sem demonstrar desespero. Respirava suavemente, em perfeita sintonia com o silêncio, e seus olhos refletiam confiança tranquila. O corpo relaxado revelava domínio absoluto das emoções, como alguém que transforma o caos em estratégia. Melissa, controlada pelo desespero, não percebia nada disso. A tranquilidade da irmã lhe passava despercebida, como uma sombra discreta que se movia ao redor sem ser notada. — Mas… e se Edward não se apaixonar por mim? Preferir Celeste? — murmurou Melissa, sem se virar, deixando que o silêncio da sala ornamentada respondesse por ela. Avançou mais um passo ágil, e sem esperar resposta continuou: — Se isso acontecer, meu sonho… de se casar com alguém que vive em um verdadeiro império... vai se desfazer, se arruinar. Com um gesto brusco, Melissa se virou de forma deselegante, o vestido arrastando-se pelo chão como se também protestasse contra sua inquietação, enquanto seus olhos, aflitos, percorriam os rostos dos pais em busca de respostas. Roberto, observando tudo, soltou um suspiro antes de se erguer dos aposentos. O ranger discreto da poltrona marcou o momento, mas foi sua postura ereta e o olhar penetrante que impuseram silêncio absoluto. Aproximou-se devagar de Melissa. Diante dela, inclinou-se levemente e tocou seus ombros frágeis. O toque, firme e ao mesmo tempo delicado, parecia dissolver a ansiedade que a consumia. Com a voz carregada de convicção e carinho, Roberto disse: — Filha… não se desespere. Você é linda e perfeita, tem tudo o que um homem deseja em uma mulher. Júlia, com voz aveludada, aproximou-se lentamente e acrescentou: — Só precisa fazer com que Edward enxergue isso em você. As palavras, cheias de afeto, penetraram fundo na mente de Melissa, como sementes lançadas em solo fértil. Um arrepio percorreu sua pele, não apenas pelo elogio, mas pela força paterna e materna. O olhar deles, firme e esperançoso, parecia querer lhe entregar a confiança que faltava. Melissa sentiu o coração, antes acelerado e inquieto, começar a se acalmar, acompanhando o ritmo sereno da respiração dele. Seu corpo, antes rígido, começou a relaxar; os ombros caíram, a mandíbula se soltou, e até suas mãos, que tremiam, se aquietaram. — Vocês tem razão... — disse Melissa, sua voz agora mais firme. — E eu com certeza vou fazer com que ele enxergue isso.






