Capítulo 07

Rafael Barcellos 

Abri os olhos e vi o horário no relógio, não acredito que ainda são três horas da manhã, soltei um longo suspiro e fechei os olhos mais sem sucesso. Não consigo dormir com a frequência que as outras pessoas dormem, duas ou três horas de sono são o suficiente para mim. Meu psiquiatra já me receitou diversos medicamentos, mas nenhum obteve sucesso.

Fechei os olhos e tornei a abri-los, então resolvi ir para o escritório e adiantar alguns contratos que precisavam do meu aval. Quando dei por mim já passavam das cinco da manhã, fechei o notebook e fui me arrumar para mais um dia de trabalho.

Enquanto me arrumava aquele garotinho do dia anterior me veio à mente, aquele menino era muito parecido comigo na infância e por um momento me perguntei se algum dia minha própria prole se parecia comigo. Não sei por que isso me veio à mente, embora eu sofra uma pressão familiar enorme para me relacionar com alguém e ter filhos, não sinto que tenho essa necessidade, minha maior necessidade era fazer o grupo Barcellos crescer e consolidar o meu lugar como chefe da família.

Desci e a mesa do café já estava posta, senhora Cecília sabe como gosto que as coisas sejam realizadas e parece que ela acertou em cheio na contratação da nova cozinheira. Tomei meu café e ao sair Glauber já me esperava em frente ao carro.

— Bom dia, senhor Barcellos! — Ele disse já abrindo a porta.

— Bom dia, Glauber! Vamos direto para empresa. — Ele assentiu e partimos.

Durante o trajeto Glauber ligou o som e colocou música clássica, os acordes do piano e do violino me deixavam mais calmos. Todos os meus funcionários sabem das minhas preferências e faço questão de manter ao meu redor somente os que conseguem cumprir as minhas exigências, não gosto quando me tiram da minha rotina.

Observei a cidade pela janela do carro enquanto avançávamos pelas ruas ainda meio vazias. Pessoas começavam a surgir apressadas, carregando suas próprias responsabilidades, suas próprias preocupações.

Por um breve momento, me peguei pensando em como a vida daquelas pessoas parecia… simples.

Sem reuniões milionárias.

Sem decisões que afetavam centenas de funcionários.

Sem o peso constante de manter um império de pé, mas logo descartei o pensamento.

Não fui criado para uma vida simples.

Desde muito cedo, meu pai deixou claro qual era o meu papel e eu cumpri cada etapa com precisão. Estudei nos melhores colégios, fiz cursos no exterior, aprendi a negociar antes mesmo de aprender a confiar nas pessoas.

Confiança, inclusive, era algo que eu não distribuía com facilidade.

Talvez por isso relacionamentos nunca tenham sido prioridade ou talvez… simplesmente nunca tenha encontrado alguém que despertasse esse tipo de interesse.

A imagem do garoto voltou à minha mente novamente.

O jeito como ele falava.

A forma como se expressava.

A naturalidade.

Aquilo era raro.

A mãe daquela criança o criou muito bem, até lembrei da minha infância, minha mãe também sempre me educou muito bem. Apesar de toda a cobrança que me cercava eu me sentia amado por ela e pelo meu pai também.

Franzi levemente o cenho, incomodado com a insistência daquele pensamentos.

Era apenas uma criança qualquer.

Nada além disso.

Assim que chegamos na empresa, Glauber abriu a porta e ao entrar na empresa meus funcionários me cumprimentavam e eu apenas respondia com um balançar de cabeça, alguns tinham medo de mim, outros me achavam cruel, mas se eu queria me consolidar e garantir que meu império crescesse precisava comandar com “mãos de ferro”, coisa que muitos deles não iriam entender.

Ao passar pela mesa de Roger, vi que ele conversava alegremente com uma menina de outro setor e quando me viram a mesma sumiu sobrando apenas Roger que estava sem jeito.

— Bom dia, senhor Barcellos! — Roger disse abaixando a cabeça.

— O que eu já disse sobre conversas paralelas no horário de trabalho? — Roger apenas se desculpou e pegou a agenda e começou a me atualizar a respeito dos meus compromissos.

Quando ele terminou pedi que se retirasse e iniciei meus trabalhos, o investidor que teve o problema com a queda da filha no brinquedo da escola me ligou para saber se tomei as devidas providências e respondi apenas que sim.

Embora ele tivesse a sua família, mantinha uma família secundária em um lugar inferior, nunca entendi o motivo dos homens quererem manter duas famílias, o lema na minha família é que casamento seja por amor ou por conveniência era para a vida toda. Meus avós foram casados por anos e mesmo após o falecimento da minha avó meu avô não quis se relacionar novamente, meus pais também são casados há anos e é por isso que penso muito nessas questões, pois se for para me casar tem que ser com alguém que eu saiba que conseguirei pelo menos manter as aparências perante a sociedade.

Não sei por que nesses dois últimos dias comecei a pensar em relacionamentos e em filhos, segundo meu pai, chega uma hora na vida de um homem em que ele precisa ter uma família para chamar de sua, o que não era meu caso, já que eu não tinha essa vontade, pelo menos por agora.

Balancei a cabeça e comecei a trabalhar, estava completamente imerso em meus afazeres quando ouvi batidas na porta.

— Pode entrar! — digo e Roger entra.

— Desculpe o incômodo senhor Barcellos, senhor Belício está lá fora e deseja falar com o senhor.

Retirei meus óculos e massageei minhas têmporas, sempre que eu recebia a visita dele não era uma coisa boa. O que será que o velhote quer dessa vez? Bom só conversando com ele para descobrir.

— Pode pedir para ele entrar, por favor.

Segundos depois ele entrou e sorriu para mim.

— Rafa, meu querido! — Ele continuava sorrindo e sentou-se à minha frente.

— Diga-me o que queres?

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