Capítulo 06 

— Um moço que apareceu na escola. Ele era muito legal e não sabia nada sobre os dinossauros, mas ensinei pra ele.

Aquilo me deixou com a pulga atrás da orelha.

— O que já conversei com você sobre falar com estranhos?

Ele se sentiu culpado na mesma hora e me abraçou apertado.

— Mãezinha, não briga comigo, o moço não era mal. Eu sei quando uma pessoa é mal.

Suspirei baixo.

Realmente, criei meu filho muito bem. Ele sabia conversar, sabia se expressar e, de alguma forma, tinha um instinto que eu mesma não sabia explicar.

Mas ainda assim ele era só uma criança.

— Então tudo bem — falei, tentando manter a calma. — Mas evite falar com estranhos, tá bom?

Ele assentiu e me abraçou mais uma vez.

— Desculpa, mamãe!

— Tudo bem, meu amor.

Afastei um pouco seu rosto e limpei as lágrimas que ainda insistiam em cair.

— A vovó disse que você não comeu direito hoje. Vamos jantar e, dessa vez, você vai comer tudinho, tá bom?

Ele balançou a cabeça, mais animado.

— Tá bom!

Levantei da cama com ele e fomos até a cozinha, onde minha mãe já deixava a mesa pronta.

— Olha só quem resolveu aparecer — meu pai brincou.

— Não tava com fome antes — Enzo respondeu, sentando-se.

— Mas agora está, né? — minha mãe disse, colocando o prato na frente dele.

— Tô!

Sorri ao ver ele começando a comer.

Mesmo depois de tudo,ele ainda conseguia se recuperar rápido.

Crianças eram assim.

Fortes de um jeito que a gente só percebe depois que cresce. Sentei-me ao lado dele e comecei a comer também.

— E então, filho, o que você aprendeu hoje na escola? — perguntei, tentando puxar um assunto leve.

Ele deu de ombros.

— Nada muito legal.

Meu pai lançou um olhar para mim, como quem dizia “tá vendo?”.

— Nem o desenho? — insisti.

— Ah… o desenho foi legal. Eu fiz um T-Rex gigante comendo um vulcão.

Franzi a testa, tentando imaginar a cena.

— Comendo um vulcão?

— É! Porque ele é muito forte.

Acabei rindo.

— Claro que é.

Aos poucos, o clima foi ficando mais leve novamente. Depois do jantar, ficamos mais um tempo conversando na sala, até que decidi que já estava na hora de ir embora.

— Vamos, filho? Amanhã você tem aula cedo.

— Tá bom — ele respondeu, já mais quietinho.

Despedi-me dos meus pais, agradecendo mais uma vez por tudo.

— Qualquer coisa, me liga — minha mãe disse, como sempre.

— Pode deixar.

Peguei Enzo pela mão e saímos.

Dessa vez, resolvi ir de ônibus mesmo.

O ar da noite estava mais fresco, e o silêncio da rua contrastava com o movimento do dia.

Enzo encostou a cabeça no meu braço enquanto esperávamos.

— Mãe.

— Hum?

— Posso comer um doce quando chegar em casa? 

Ele perguntou com olhar pidão. 

— Não! Mas pode comer agora. — Tirei um pirulito da bolsa e ele estendeu a mão querendo pegar. 

— Obrigado mamãe. 

O nosso ônibus chegou e entramos, não demorou muito chegamos em casa e o pus para escovar os dentes, depois contei uma história de dinossauro para ele e depois que terminei ele me deu um beijo e fechou os olhos para dormir. 

Sai de seu quarto e fui para a cozinha, beber e assistir Doramas era minha rotina noturna, assisti mais dois episódios de Meu Demônio Favorito e depois fui dormir. 

A rotina como mãe solteira era complicada, mas no final tudo valia a pena. Ainda mais quando via seu sorriso ou sentia seu abraço meu mundo se iluminava. Fui dormir com um sorriso no rosto. 

A semana passou que nem um furacão e já era sábado, ainda bem que hoje trabalho só até o meio dia, trabalhei com afinco e assim que meu expediente acabou me despedir de minha amiga e fui para casa. 

Abri minha casa e vi que minha mãe já havia lavado a roupa. 

— Mãe não precisava fazer isso! — Disse pegando a vassoura de sua mão. 

— Precisa sim, você trabalha tanto, por que eu não podia vir aqui fazer uma limpeza? 

Dei um abraço nela e a ajudei. Duas horas depois a casa estava limpa e organizada, minha mãe sentou no sofá e fechou os olhos. 

Então de repente percebi que a casa estava muito silenciosa. 

— Mãe, onde está o Enzo? 

— Enzo está com seu pai, os dois saíram para jogar futebol, disseram que era uma coisa de homem. 

Ela sorriu. 

— Esses dois juntos sem supervisão só aprontam, imagina se o pai quebra alguma coisa? 

— Se aquele velho se quebrar é só ele ir ao médico.

Minha mãe abriu os olhos e me lançou um olhar reprovador, mas logo acabou rindo.

— Respeita seu pai, menina.

— Eu respeito só não confio muito quando ele resolve ter ideias mirabolantes.

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo, e se ajeitou melhor no sofá.

Fui até a cozinha e peguei um copo de água, apoiando-me no balcão por alguns segundos.

O silêncio da casa realmente estava estranho.

Eu estava tão acostumada com a energia do Enzo, com as perguntas, com os barulhos… que, sem ele, parecia que faltava alguma coisa.

— Tá vendo só? — minha mãe comentou. — Reclama quando ele tá fazendo bagunça, mas sente falta quando ele não está.

— Nem vem eu nunca reclamei dele.

— Não com palavras, mas com esse seu olhar cansado às vezes  — ela respondeu com um meio sorriso.

Suspirei.

— É  às vezes eu fico cansada mesmo.

Ela me olhou com mais carinho dessa vez.

— Eu sei, minha filha. E você dá conta de tudo sozinha isso não é fácil.

Dei de ombros, tentando não dar muita importância.

— Eu tenho vocês.

— E você também tem você mesma e isso já é muita coisa.

Sorri de leve, mas não respondi.

Porque, no fundo, eu sabia o quanto era difícil.

Ser forte o tempo todo.

Não poder falhar.

Não poder simplesmente descansar.

— Vai descansar um pouco — minha mãe disse. — Aproveita que o Enzo não está aqui.

— Descansar? — ri baixo. — Acho que nem sei mais fazer isso.

— Então aprende.

Revirei os olhos, mas obedeci.

Fui para o meu quarto e me joguei na cama, olhando para o teto.

O silêncio ali dentro parecia ainda maior.

Fechei os olhos por alguns segundos, tentando relaxar.

Mas, como sempre minha mente não parava.

— Não… para com isso… — murmurei, virando de lado.

Peguei o celular e comecei a mexer sem muito interesse, só para distrair a mente.

Alguns minutos depois, ouvi a porta sendo aberta com força e uma voz animada invadindo a casa.

— Mamãeeee!

Abri os olhos na mesma hora e me levantei.

Enzo entrou correndo no quarto, com o rosto suado, o cabelo bagunçado e um sorriso enorme.

— Filho! — levantei, indo até ele. — O que aconteceu?

— Eu fiz um gol!

— Sério? — sorri, me abaixando na altura dele.

— Sim! E o vovô disse que eu sou melhor que ele!

— Isso não é muito difícil — comentei, fazendo ele rir.

Meu pai apareceu logo atrás, fingindo indignação.

— Tá me chamando de ruim agora?

— Eu não, foi o Enzo!

Os dois começaram a discutir de brincadeira, e eu fiquei ali, observando aquela cena simples, leve e familiar.

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