Capítulo 05

Anny Sophia Rosa

Na manhã seguinte, acordei com uma leve dor de cabeça, mas nada que me impedisse de cumprir minhas tarefas diárias como mãe e como atendente de uma loja de cosméticos.

Enzo acordou com a corda toda. Ele ainda estava com seu pijama de dinossauro, que havia escolhido a dedo.

— Bom dia, mamãe! O que você fez hoje de lanche?

— Bom dia, meu amor! Fiz panqueca de Nutella e coloquei três a mais para você dividir com seus amigos.

— Obrigado, mamãe! Você é a melhor. — Ele me abraçou, e eu afundei o rosto em seus cabelos, sentindo aquele cheirinho de criança que sempre me acalmava.

— Aproveita que já acordou e vem sentar para comer.

Ele não precisou ouvir duas vezes. Sentou-se rapidamente e começou a comer suas panquecas com aquele entusiasmo que só criança tem.

Após o café, ele tomou banho e se arrumou para a escola.

— Mamãe, posso levar o carnotauro e o dilofossauro para a escola? — perguntou, levantando os dois dinossauros com os olhos brilhando.

— Pode sim — respondi, sorrindo.

Nem eu sei o nome desses dinossauros direito, mas Enzo conhece todos e ainda fica chateado quando erramos os nomes. Na cabeça dele, nós também temos que saber tudo sobre o assunto.

Me arrumei também, peguei minha bolsa e saímos para esperar o ônibus.

Enquanto aguardávamos, Enzo segurou minha mão e olhou para mim com aquela expressão séria demais para alguém tão pequeno.

— O que foi, meu filho?

— Um dia eu vou ganhar muito dinheiro e vou comprar um carro grandão pra mamãe… pra você nunca mais precisar pegar ônibus.

Meu coração apertou na mesma hora.

Antes que eu pudesse responder, uma senhora que estava ao nosso lado sorriu.

— Que menino educado! — ela disse. — Já pensa na mãe.

Enzo olhou para ela, como se aquilo fosse óbvio.

— Moça, claro que eu tenho que pensar. A minha mãe trabalha muito pra me dar tudo que eu quero. Quando eu crescer, eu que vou dar tudo que ela quer.

A senhora levou a mão ao peito, visivelmente tocada.

— Menina, essa criança tem quantos anos?

— Cinco — respondi.

— Nossa! Parece bem mais velho. Você está criando ele de uma maneira maravilhosa, parabéns.

Sorri, agradecendo o elogio.

Palavras assim aqueciam meu coração, principalmente nos dias mais difíceis.

Assim que o ônibus chegou, entramos. Descemos próximo à escola e me despedi dele com um beijo na testa.

— Se comporta, tá bom?

— Tá bom, mamãe!

Fiquei observando até ele entrar, como sempre fazia. Só depois segui meu caminho para o trabalho.

O movimento na rua já estava mais intenso, pessoas indo e vindo, cada uma com sua própria rotina.

Cheguei na loja alguns minutos antes do meu horário, como de costume.

Assim que entrei, o cheiro familiar dos produtos me envolveu imediatamente.

Era estranho como aquele lugar, apesar de tudo, ainda me trazia uma sensação de estabilidade.

— Bom dia, senhorita pontual! — ouvi a voz de Juliana assim que me aproximei do balcão.

Revirei os olhos.

— Eu nunca me atrasei.

— Hoje você está com cara de quem virou a noite.

— Não exagere — respondi, colocando minha bolsa no armário. — Só dormi tarde.

Ela cruzou os braços e me encarou.

— Assistindo dorama de novo?

— Talvez…

— Anny! — ela riu. — Você vai acabar apaixonada por um coreano fictício.

— Melhor do que por homem de verdade — murmurei sem pensar.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Ih… essa foi profunda.

Ignorei o comentário e comecei a organizar alguns produtos no balcão.

— Qual o dorama da vez? — Juliana perguntou.

Fingi não ouvir.

— Anny…

Suspirei, sem olhar para ela.

— Adivinha!

Ela pensou por alguns instantes e depois sorriu.

— O tal do demônio. — Juliana não gosta de doramas e não entende o meu amor por eles.

— Sim, estava assistindo novamente “Meu Demônio Favorito”.

— Aí, An! Só você mesmo. Vai acabar mais apaixonada por esse demônio.

— Mais do que já sou é impossível.

Ambas rimos.

— Hoje a playlist da loja é por sua conta.

Liguei o som e coloquei BTS e Generation from Exile Tribe para tocar.

— Lá vem você com essas músicas de coreano.

— BTS é K-pop e Generation é J-pop. — Ela revirou os olhos. — Engraçado que, quando te mostrei uma foto do Jungkook e do Nam, você surtou chamando eles de gostosos.

— E são mesmo.

— Deixa o Fred ouvir isso.

Nós duas rimos e voltamos ao trabalho.

Abrimos a loja e começamos a atender os clientes que chegavam. O Dia dos Namorados estava chegando, então a loja ficava frenética.

Entrou um cara e comprou três kits de maquiagem diferentes. Ele disse, na maior naturalidade, que um era para a namorada, outro para a amante e o mais simples de todos para a esposa.

Juliana e eu nos olhamos, com vontade de xingar aquele idiota, mas lembramos que ele era cliente.

Assim que ele saiu, Ju me chamou.

— Você viu aquele cuzão? Um kit pra minha namorada, um pra minha amante e um pra minha esposa. — Ela imitou a voz dele.

— Pior que o cara era um Jurandir. — Ju concordou comigo.

— Onde essas mulheres acham a buceta delas? — ela me perguntou.

— Pra fazerem uma merda dessas, com certeza em um lixão. Tenho dó da esposa dele… provavelmente fica em casa cuidando dele, e ele deve tratar ela super mal.

— Que ódio! Viu o kit vagabundo que ele comprou pra ela?

Nem tive tempo de responder, pois Priscila chegou.

— Quem é vagabunda? — ela perguntou com a voz esganiçada que ela tem.

— Estamos falando de um cliente que veio comprar kits para a esposa, a namorada e a amante. E estamos nos perguntando onde essas mulheres que se propõem a ser amante acham a buceta delas.

Ela nos encarou com cara de poucos amigos e mandou não nos envolvermos nos assuntos dos clientes, apenas trabalhar.

Quando ela saiu, reviramos os olhos.

— Claro que ela vai defender essa safadeza… ela é uma safada.

— Vadia mesmo! — respondi, e rimos.

Voltamos para o trabalho e, à noite, fui à casa dos meus pais buscar Enzo.

Quando cheguei, minha mãe me puxou de lado e disse que ele estava muito chateado e choroso. Perguntei o motivo.

— Um colega disse a ele que o pai dele não gosta dele, porque, se ele não tem pai, é porque o pai não está nem aí pra ele.

Respirei fundo.

Eu sabia que, uma hora ou outra, isso iria acontecer.

O ponto fraco do Enzo sempre foi esse.

Perguntei à minha mãe se alguém na escola havia chamado a atenção do menino por isso, e ela suspirou.

— Quando falei com a coordenadora, ela disse que era coisa de criança e que você deveria conversar com o Enzo sobre isso… falar pra ele não ligar quando zoassem ele.

— A escola só falou isso?

Minha mãe confirmou, e eu disse que iria conversar com a diretora sobre o assunto.

— Vai lá conversar com ele. Hoje ele não quis comer direito e nem contou pra gente como foi a escola.

Fui até o meu antigo quarto, que agora era do meu pequeno, e, quando entrei, ele estava olhando para o nada.

— Filho… — chamei, mas ele não respondeu.

Meu pequeno, quando se fecha, não conversa. Fica apenas no mundinho dele.

Chamei mais algumas vezes, até que finalmente ele olhou para mim.

Me sentei ao seu lado e alisei seus cabelos.

— Filho, não liga para as provocações das crianças más.

Ele me olhou com tristeza.

— Mamãe… você não sabe mesmo onde está o meu pai? — perguntou com os olhos cheios de lágrimas. — Por que ele não me quis?

Meu coração se partiu.

Como explicar para o meu filho que o pai dele é um desconhecido?

— Filho… tem coisas que a mamãe não pode te explicar agora, porque você ainda é pequeno para entender. Quando você estiver maior, eu te explico direitinho.

— Mas não tem como procurar ele?

— Não tem, meu filho.

Ele abaixou a cabeça, triste.

— Poxa… eu queria que o moço que conheci na escola fosse meu pai.

Meu alerta ligou na hora.

— Que moço, filho?

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