Mundo ficciónIniciar sesiónO cheiro doce de perfume floral misturado com hidratantes e maquiagem fazia parte da minha rotina há tanto tempo que, às vezes, eu nem percebia mais. Era como se aquele aroma fosse parte de mim, impregnado na minha pele, nas minhas roupas, nos meus dias.
Depois de cinco anos trabalhando naquela loja de cosméticos, eu conseguia identificar praticamente qualquer fragrância sem nem precisar olhar o rótulo. Baunilha, jasmim, frutas vermelhas, notas amadeiradas… tudo ali era familiar. Confortável. Previsível. Diferente da minha cabeça naquele dia. — Anny? Pisquei algumas vezes, como se estivesse voltando de muito longe. — Hm? Juliana estava parada bem na minha frente, com as mãos apoiadas no balcão e uma expressão que misturava curiosidade com desconfiança. — Eu perguntei se você pode repor os batons da prateleira da frente… — ela fez uma pausa, inclinando levemente a cabeça — ou você pretende continuar encarando o nada pelo resto do dia? Soltei um pequeno suspiro, tentando disfarçar. — Claro, já vou. Peguei a caixa ao meu lado, mas, antes que eu desse o primeiro passo, ela cruzou os braços. — Tá… o que está acontecendo? Revirei os olhos, fingindo naturalidade. — Nada. — Nada? — ela arqueou uma sobrancelha. — Anny, você está completamente “voando” desde que chegou. Dei uma risadinha fraca. — Impressão sua. — Não é, não — retrucou na mesma hora. — Você errou o troco de uma cliente. — Eu corrigi. — Depois que eu avisei. Suspirei. Juliana não era o tipo de pessoa que deixava passar. Continuei andando até a prateleira, começando a organizar os batons por cor, como fazia todos os dias, tentando parecer ocupada o suficiente para encerrar aquele assunto. — É só cansaço — murmurei. — Anny. O tom dela mudou, ficando mais sério e atento. — Você não é assim. Minha mão parou por um segundo no ar, segurando um batom vermelho aberto. Ela tinha razão. Eu não era. Eu nunca me distraía daquele jeito. Nunca errava no trabalho. Nunca deixava minha cabeça viajar enquanto atendia alguém. Porque eu não podia. Porque eu precisava ser responsável. Por mim… e pelo Enzo. — Estou bem — respondi, virando-me para ela com um sorriso que nem eu mesma acreditei. — Só dormi mal. Juliana estreitou os olhos. — Mentira. Soltei um riso nasal. — Nossa, que confiança em mim. — Cinco anos trabalhando juntas — ela deu de ombros. — Eu sei quando você está escondendo alguma coisa. Por um instante, eu quase contei. Quase falei sobre o que tinha acontecido naquela manhã. Sobre o carro. Sobre os seguranças. Sobre ele. Mas, só de pensar nisso, um frio percorreu meu corpo inteiro. Aquilo era complicado demais. Grande demais. — Não é nada importante, Ju — falei, voltando a organizar os produtos. — Sério. Ela ficou em silêncio por alguns segundos. E aquele silêncio dizia tudo. Ela não acreditava. Mas, para minha sorte, o som da porta da loja se abrindo nos interrompeu. — Boa tarde — falei automaticamente, já colocando meu sorriso profissional no rosto. Uma mulher entrou olhando tudo ao redor, claramente interessada. — Vocês têm aquele hidratante novo de coco? — Temos sim — respondi, indo até a prateleira. — Vou te mostrar. Enquanto eu explicava sobre o produto, falando das fragrâncias, da textura e dos benefícios, minha mente tentou se concentrar no que eu estava dizendo. Era automático. Palavras decoradas. Gestos repetidos. Uma rotina que eu dominava. E, por alguns minutos… funcionou. Até que a cliente comentou, de forma completamente casual: — Meu marido odeia cheiro doce. Foi o suficiente. Minha mente travou. “Meu marido.” Duas palavras simples, mas que abriram uma porta que eu tentava manter fechada há anos. Eu nunca tive isso. Nunca tive a chance de ter, porque tudo aconteceu rápido demais. Uma noite. Um erro… não exatamente um erro. Uma escolha impulsiva que resultou no meu maior presente. — Menina? Piscar. Respirar. Voltar. — Desculpa — falei, forçando um sorriso. — Me distraí um pouco. — Sem problema — ela respondeu, tranquila. — Vou levar esse aqui. Finalizei a venda, agradeci e, assim que ela saiu, apoiei as mãos no balcão por alguns segundos. Respira, Anny. Só respira. — Tá vendo? — Juliana apareceu do meu lado novamente. — Você nunca se distrai assim. Fechei os olhos rapidamente antes de encará-la. — É só um dia incomum. — Não — ela insistiu. — É alguma coisa. Cruzei os braços, tentando me proteger. — Por que você está tão interessada? — Porque você é minha amiga. Aquilo me pegou desprevenida. Juliana podia ser insistente, mas era sincera. E eu sabia que ela estava preocupada de verdade. Suspirei, passando a mão pelo cabelo. — Eu… só tive uma manhã meio estranha. Ela se aproximou um pouco mais. — Estranha como? Pensei rápido. — Vi alguém. — Alguém? — Do passado. Os olhos dela se arregalaram um pouco. — Ex? Soltei um riso sem graça. — Não exatamente. — Então o quê? Balancei a cabeça. — Não importa. — Anny! — Sério — interrompi, um pouco mais firme do que queria. — Não é nada que vá mudar alguma coisa. Mas, no fundo, eu sabia que podia mudar tudo. Juliana me encarou por alguns segundos, como se estivesse tentando decidir se insistia ou não. Por fim, suspirou. — Tá bom… mas eu vou fingir que acredito. Sorri de leve. — Obrigada. — De nada — respondeu, com um meio sorriso. — Mas, se isso virar fofoca boa, eu quero saber de tudo. — Pode deixar. Mas, por dentro, eu torcia para que aquilo nunca virasse nada, o resto do dia passou em um ritmo estranho. Normal por fora. Caótico por dentro. Clientes entrando e saindo. Produtos sendo organizados. Promoções sendo explicadas. Notas fiscais sendo emitidas. Tudo como sempre. Fechamos a loja e começamos a fazer o inventário, uma das tarefas mais chatas não só porque saíamos muito tarde, mas também porque não ganhávamos nada a mais por isso. Quando finalmente terminamos, já passava das onze horas da noite. Fui a primeira a começar a guardar minhas coisas. — Hoje você saiu voando mesmo — comentou Juliana. — Mas fiz o que precisava fazer. Inclusive te ajudei a corrigir um erro na conferência dos produtos — respondi, ajeitando minha bolsa. Ela fez uma careta. — Você seria uma ótima gerente geral. É uma pena que aquela vadia da Priscila ficou com a vaga porque dormiu com o Alexsandro. Revirei os olhos. Alexsandro era o dono da loja. Um homem de meia-idade, com o ego do tamanho da barriga. Sua esposa era um amor, assim como os filhos. Eu sempre senti pena dela por se dedicar tanto a um homem que já tinha passado por metade das funcionárias. — Tenho que buscar o Enzo — falei, mudando de assunto. — Ele ficou com seus pais? Assenti. — Poxa, amiga é uma pena você ter largado a faculdade por causa da gravidez. Respirei fundo. — É triste, sim. Mas eu não me arrependo de nada. Meu filho é a melhor coisa que eu tenho. Juliana sorriu. — Entendo. Minha Valentina também é tudo pra mim. Agora vamos fechar logo essa merda e ir embora, já que a nossa “maravilhosa” gerente resolveu passar mal justo no dia do inventário.






